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Inacreditável não é só uma série sobre estupro. É uma aula sobre violência do Estado.

Foto: divulgação

(CONTÉM SPOILERS)

Uma das séries mais recentes lançadas pela Netflix é Inacreditável (Unbelievable), que estreou no serviço no dia 13 de setembro e  tem chocado os (as) espectadores (as) com uma história real sobre estupro. A série criada Susanah Grant e é baseada em um artigo publicado pelos jornalistas T. Christian Miller e Ken Armstrong, e que foi premiado com um Pulitzer. A minissérie conta a história de Marie Adler, uma jovem de 18 anos, que vive em um abrigo para órfãos e é estuprada dentro do seu apartamento. Mais tarde o seu relato é desacreditado e ela é processada por falsa comunicação de crime. O outro núcleo da história é o trabalho de duas detetives, Karen Duvall e Grace Rasmussen para solucionar uma série de casos semelhantes ao de Marie, mas em outra parte do país e em outra época.

A minissérie conta com excelentes atuações de a atriz Kaitlyn Dever, que interpreta Marie Adler e das atrizes Merrit Wever, que interpreta a detetive Karen Duvall, que descobre as primeiras ligações entre diferentes casos de estupro. A minissérie também tem a atriz Toni Colette na pele da detetive pragmática e experiente, Grace Rasmussen. 

A série é um alerta sobre como as diferentes estruturas sociais lidam com o estupro. Ainda que seja ambientada nos Estados Unidos, a série reúne alguns elementos que são muito semelhantes ao que acontece no Brasil e em outros lugares.  No Brasil, dados reunidos no Mapa da Violência de Gênero (2018) dizem que em 2017 o Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) teve 26.835 registros de estupros em todo o país.  Entretanto, de acordo com o Atlas da Violência (2018) produzido pelo IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), no Brasil, cerca de 90% dos estupros não são denunciados, ou seja, apenas 10% dos estupros são reportados. A estimativa leva em consideração a taxa de notificação dos Estados Unidos, que é de aproximadamente 15%.

Veja abaixo quatro temas abordados pela série e que valem uma reflexão. 

1 – Inconsistência dos depoimentos e erros no processo de investigação

Foto: divulgação

Marie Adler é solicitada a prestar depoimento repetidas vezes. E a cada depoimento ela oculta um detalhe ou se confunde. O detetive designado para o caso percebe as inconsistências no depoimento e por isso conclui que Marie Adler pode ter mentido sobre o estupro. A “inconsistência” do depoimento de Marie tem algumas razões. Para a assistente social e pesquisadora sobre violência sexual, Marcela Barbosa, a violência sexual é um fenômeno multidimensional, delicado e constrangedor e é um grande desafio para as vítimas quebrarem o silêncio.  Além disso, Marie Adler certamente apresentava sintomas de estresse pós-traumático, fato ignorado pela Polícia. De acordo com artigo publicado pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica, é comum que a pessoa com estresse pós-traumático apresente dificuldades para “sintetizar, categorizar e integrar a memória traumática numa narrativa”, ou seja, é difícil lembrar-se do episódio e relatar os detalhes do que ocorreu, como foi a própria reação e a reação de outros envolvidos gerando problemas na estrutura dos discursos e no desenvolvimento dos relatos. 

2 – Falta de marcas corporais e emocionais 

Foto: divulgação

Outro problema mostrado na série são as atitudes das mães adotivas de Marie. Judith, uma das mães, duvida da palavra de Marie e acredita que a denúncia pode ter sido uma forma de chamar a atenção, tendo como base o comportamento prévio de Marie. A outra situação é a avaliação de outra mãe adotiva da jovem, Colleen, que estranha o comportamento frio e distante de Marie. Para Colleen, era esperado que Marie aparentasse intensa perturbação emocional. Essas constatações contribuíram para que Marie fosse desacreditada. Marcela Barbosa reforça que situações de violência sexual, por estupro ou qualquer outra manifestação dessa violência, ferem a dignidade da pessoa, mexem com os aspectos psicológicos e afetam as relações de sociabilidades. Além disso, a falta de marcas físicas e emocionais aparentes contribuem com a invisibilidade do estupro, mas ainda assim o estupro é uma das mais graves violações que existem. 

3 – A violência do Estado

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Diante da intimidação dos policiais do caso, Marie é obrigada a assinar um documento admitindo que mentiu. Ela é levada a julgamento por falsa comunicação de crime, condenada e multada. O nome de Marie vaza para imprensa e o fato desencadeia diversas violências e prejuízos. A jovem passa a sofrer com ataques virtuais, perda do emprego, de moradia e afastamento dos amigos.  No Brasil, o Estado ainda precisa avançar no tema da violência sexual, “com a maior divulgação e estruturação da rede de proteção para condução das denúncias, no processo de investigação e qualificação dos profissionais por meio de um atendimento livre de qualquer forma de estigmas e discriminação às vitimas, além de maior rigor da lei aos agressores e o acesso a políticas públicas de proteção às vitima”, conclui a assistente social Marcela Barbosa. 

4 – Atuação das detetives

Foto: divulgação

O primeiro erro no atendimento de Marie foi a designação de policiais inexperientes em estupro. Enquanto Marie teve que repetir exaustivamente a violência sofrida para os policiais homens, as detetive Karen Duvall e Grace Rasmussen dispensam um tratamento cuidadoso para que as vítima não precisem repetir a história desnecessariamente e garantindo que elas tenham o apoio e atendimento fundamentais. As duas detetives, que são experientes em casos de estupro, questionam as condutas da polícia, os preconceitos enraizados e a falta de prioridade dada aos casos de violência sexual.  A série é uma aula de como conduzir casos de estupro e uma aula sobre violência do Estado.

 

Por Samira Ramalho

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