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Filme “Esperança 1770” mostra uma Esperança Garcia guerreira e perspicaz


 

Foto: divulgação

A história da primeira mulher advogada piauiense, Esperança Garcia, ganhou uma versão cinematográfica. O filme “Esperança 1770” tem 15 minutos de duração e foi produzido pela cineasta e jornalista maranhense, Carmen Kemoly. Este é o primeiro curta-metragem que conta a história da mulher escravizada do século XVIII que enviou uma carta ao governador da província denunciando os maus tratos que ela e o filho recebiam na fazenda onde viviam, que hoje é situada na região de Nazaré do Piauí, a 280 quilômetros de Teresina. 

A diretora e roteirista do filme, Carmen Kemoly, que também milita no movimento hip hop, tem um forte histórico de atuação na arte que valoriza a cultura negra.

A partir de uma pesquisa comandada pela Comissão da Verdade da Escravidão Negra no Brasil, promovida pela OAB no Piauí, Carmen descobriu que Esperança Garcia e sua família podem ter entrado no Brasil a partir de São Luís, Maranhão, e por isso a cidade foi escolhida como locação para o filme. 
 
Esperança Garcia tornou-se conhecida pela carta, que na verdade  tratava-se de uma petição, em que pedia que os poucos direitos dos escravizados fossem respeitados. Ela ainda pedia ao governador para que ela voltasse a viver com os filhos e o marido em outra fazenda para que pudesse batizar a própria filha.  
 
“O principal esforço é falar de Esperança Garcia sem reforçar os estereótipos das imagens da escravidão comumente vistas, mas recriar uma Esperança à altura de Esperança Garcia: guerreira, lutadora, perspicaz, é essa a personalidade de mulher que sua escrita nos demonstra”, explica a diretora do filme. 


 

Cena de "Esperança 1770"/ foto: divulgação

A produção de “Esperança” é fruto da atuação e parceria de Carmen Kemoly com a Casa das Pretas, projeto voltado para o desenvolvimento intelectual, cultural e profissional de jovens negras. O filme também tem uma equipe quase toda formada por mulheres negras. 
 
Veja  a entrevista de Carmen Kemoly sobre o filme “Esperança”.
 

Samira - Como surgiu a ideia de produzir o filme sobre a história de Esperança Garcia?

Carmen - Ano passado, após e ainda impactada com a execução de Mariele Franco, eu fiz uma Imersão de Roteiro com a Ana Maria Gonçalves, autora do livro "Um Defeito de Cor". Fiquei encucada de escrever um roteiro que envolvesse intelectuais negras que naquele momento eram de grande importância pra mim. Pensei em quatro mulheres, uma delas era Esperança Garcia. Comecei a desenvolver o argumento, fazer pesquisas mais aprofundadas sobre cada uma delas. Esse ano surgiu uma nova oportunidade de amadurecimento desse roteiro. Era o Laboratório de Roteiro para Mulheres Negras da Casa das Pretas, onde seria possível trabalhar mais minuciosamente o que vinha escrevendo. Dali, cada uma das quinze mulheres envolvidas, faria um curta de cinco minutos, ou seja, teria uma experiência cinematográfica prática e inicial. Como o tempo era curto, resolvi focar meu interesse apenas em Esperança.  

S - Por que foi escolhido esse recorte temporal da vida dela e como foi feita a pesquisa para o filme?

C - Na verdade o curta se inspira na história dela desde criança até a escrita da carta, já jovem. Em 2017, a Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil, da OAB-Piauí, presidida na época pela Professora Sueli Rodrigues, realizou uma grande pesquisa junto a historiadores, advogades e movimentos sociais sobre o potencial da vida de Esperança Garcia, enquanto pessoa escravizada, mas que deixa sua contribuição no direito através da escrita, disputando nossa memória nos dias atuais. Eu estive próxima dessa construção na época, e minha principal fonte de pesquisa para o filme foi esse Dossiê. Então, enquanto maranhense, me saltou aos olhos a possibilidade de contar sua história levantando a hipótese de que seus antepassados chegaram pelo Porto de São Luís, no Maranhão; daí vou fazendo sua trajetória por esse território até sua chegada no Piauí e escrita da carta. 

 


Carmen Kemoly/ Foto: Alexander Galvão 

 

S - Que meios você utilizou para captar recursos para a produção? 

Os curtas fazem parte desse Laboratório de Roteiro que foi feito na Casa das Pretas, no Rio de Janeiro, financiados por uma organização australiana. Cada mulher recebeu uma ajuda de custo mínima para realizar seu curta de cinco minutos, mas conseguimos captar bastante conteúdo em São Luís, e fechamos em 16 minutos. A data de gravações coincidiu com minha pesquisa de campo do Mestrado na capital maranhense. O que pra mim foi um mero acaso do destino, uma vez que não fazia sentido fazer as gravações de 'Esperança' na capital carioca. Provando que temos uma cena viva, fiz contato com a Labcine, parcerias de longa data que eu vi nascer enquanto coletivo no trecho Piauí e Maranhão. No Rio eu teria outra equipe, mas aqui pude construir com pessoas que já estão afinadas audiovisualmente comigo. O objetivo era ter mulheres negras atrás e na frente das câmeras, e assim fizemos. Milena Rocha, do Lab, fez Fotografia, Produção e operou câmera.  Foi um momento muito importante pra nós enquanto realizadoras, no sentido de aprender com todo o processo, mas dessa vez entre mulheres. Para participar do Labcine, basta fazer contato pelas redes sociais, pois é um coletivo aberto e independente. 

S - Quais os aspectos mais importantes da vida de Esperança Garcia que você aborda no filme e quais os principais esforços na construção da imagem dessa mulher? 

C - O principal esforço é falar de Esperança Garcia sem reforçar os estereótipos das imagens da escravidão comumente vistas, mas recriar uma Esperança à altura de Esperança Garcia: guerreira, lutadora, perspicaz, é essa a personalidade de mulher que sua escrita nos demonstra. Além disso, fazer uma conexão com as diversas Esperanças dos dias atuais, que se manifestam das mais variadas formas em diferentes espaços.  A ativista, a artista, a poeta, a mulher preta que cuida de sua ancestralidade, que se importa com o futuro de suas crianças e pensa politicamente o território que está inserida. Sua carta como uma peça historiográfica, nos diz tudo isso.

S - Qual a agenda de exibição do filme no Piauí, Maranhão e outros lugares do Brasil?

C - Por enquanto ele foi exibido apenas no Congresso Brasileiro de Corpo, Raça, Sexualidade e Gênero, que aconteceu de 6 a 8 de setembro em Parnaíba, litoral do Piauí, e no dia 06 de Setembro, Dia Estadual da Consciência Negra em Vila Nova do Piauí. Dia 12 lançamos oficialmente em Timon e aí sim iremos organizar uma agenda. Algumas escolas do Piauí e Maranhão já entraram em contato demonstrando interesse, e esse é um público que muito nos interessa. Além disso, alguns festivais já estão em mente pra fazê-lo circular nacionalmente.

Ficha técnica

Realização: Casa das Pretas e Labcine
Apoio:
FloresSer Comunicação
Exclamação
Produtora Novo Quilombo
Direção e Roteiro: Carmen Kemoly
Produção: Milena Rocha e Carmen Kemoly
Fotografia: Milena Rocha e Carmen Kemoly
Argumento: Carmen Kemoly
Construção Sonora: Carmen Kemoly
Edição Geral: Carmen Kemoly
Assistente de edição: Rafael Pato e Raphaela Pato
Elenco: Joane Vitoria e Brena Maria

 

Por Samira Ramalho

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