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"O teatro é meu suspiro". Sandra Loióla fala de arte, vida e mulheres

Sandra Loióla durante apresentação da peça Santa Ágatha

“O teatro é meu suspiro, minha inspiração em muitos instantes de minha vida e uma força, uma esperança, uma vontade incrível de ir além e acreditar em um sonho. É este é meu motivo de existir. Este é meu sonho, é minha vida, é minha arte”.

São essas palavras que  Sandra Loióla, 40 anos, atriz, diretora, preparadora de elenco e professora de teatro escolhe para começar a falar da sua vida. Artista desde sempre, iniciou sua carreira  aos oito anos de idade e só parou um pouco para ter seus dois filhos: Nathália e Nicholas. A sua formação e experiência perpassam as Artes Cênicas, Rádio e TV, Pedagogia e Terapia Comunitária. Já a sua experiência no mundo envolve uma residência profissional e mentoria de dois anos com dois dos maiores mestres do teatro mundial: Eugênio Barba e Julia Varley do Odin Teatret, Dinamarca.
 

Atualmente é atriz e diretora do grupo de teatro feito por mulheres Puty Teatro Labore e coordenadora de projetos sociais, como a Casa do Maninho, que oferece educação artística para crianças da Zona Sul de Teresina. A maioria de seus trabalhos teatrais são ligados aos direitos humanos, crescimento existencial do ser humano e o empoderamento da mulher na arte.  

Sandra Loióla conversou com o Quarta Onda sobre as suas experiências, opiniões sobre o cenário artístico e falou das habilidades que fazem dela não apenas uma artista completa, mas também uma verdadeira empreendedora social focada no fortalecimento de outras mulheres.  

Samira - Por que você considera o empoderamento feminino pela arte importante? Quais os trabalhos você tem realizado com esse objetivo?

Sandra - A mulher tem capacidades incríveis e uma forma de ser e de fazer única. Ela precisa confiar, se comprometer em assumir suas potencialidades e realizar de um jeito bonito.  Atualmente meu trabalho contempla a mulher nas diversas formas, tanto nos espetáculos que produzimos, como nas oportunidades que ampliamos de formas colaborativas, incentivando produções e parcerias entre mulheres, assim como em nossa formação (onde produzimos: pesquisas, textos, filmes e peças relacionadas à temática).  Um destes trabalhos foi a peça Santa Agatha (que conta a história da mulher que foi retaliada com a mutilação dos seios por se recusar a ser amante de um homem poderoso). Também promovemos palestras, encontros e rodas de terapias voltadas para mulheres. Além disso, o grupo de teatro formado por mim, o Puty Teatro Labore, têm cadeira no Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. 

Eu também faço parte da Rede The Magdalena Project, que é uma rede internacional de mulheres no teatro e sou representante aqui no Piauí.  Um dos projetos realizados através da Rede foi o Manifesto Poético: mulher, poesia, memória, arte e vida! que foi realizado dentro da Penitenciaria Feminina de Teresina, com mais de cem mulheres. E foi através deste encontro, que  em 2014  fui convidada pela Secretaria de Justiça do Piauí a desenvolver Projeto Encontro de Mulheres Privadas de Liberdade com Teatro. 

Conte-me mais sobre esse projeto com as mulheres encarceradas?

Acredito que existe uma história do sistema prisional feminino antes e depois deste projeto com teatro, pois, as mudanças foram muitas: espirituais, sociais e físicas. O projeto possibilitou o resgate da autoestima e a diminuição das ações de violências no convívio diário entre detentas, agentes e familiares.   

No projeto foi formado o grupo Mulheres de Aço e de Flores, em 2014,  que possibilitou ampliar o olhar da sociedade para a ressocialização daquelas mulheres. Muita coisa mudou dentro do presídio feminino com este projeto. Profissionais e instituições diversas se colocaram a serviço de projetos e ações voltadas para elas. 

 Este projeto foi avaliado e indicado ao Prêmio Innovare – um prêmio nacional sobre boas práticas no sistema judicial -  e também teve reconhecimento do Premio Inclusão Social, de Teresina. Nesta época eu fui reconhecida também com um título de Cidadania Teresinense pelos serviços prestados à sociedade por meio da arte, pela Vereadora Celene Fernandes. Eu me orgulho de ter sido pioneira nesta missão e de ter contribuído de alguma forma para abrir caminhos a todos que, depois de 2014, entraram no sistema para também contribuirem de alguma forma. 

Recebendo título de cidadã teresinense

Agora me fala como você vê o cenário cultural atualmente no Piauí e em Teresina em termos de produção, público e criatividade?

Para ser sincera, não vejo um grande público se envolver ou se interessar pelo teatro que está sendo oferecido aqui. Talvez por ter tido alguma experiência que não foi tão interessante com o teatro em algum momento de sua vida e por muitas vezes estas obras não serem obras que realmente se comuniquem com esse público. Acredito que precisamos, enquanto artistas, fazer uma profunda reflexão sobre que temas das obras que estamos desenvolvendo.  E se o que estamos produzindo é uma arte que possibilite uma reflexão sobre a sociedade.  Que contexto está tocando a sociedade através de nossas obras? Se estas obras não interessam ao público, não é possível causar a comunicação e se não acontece a comunicação, a missão da arte não se cumpre. 

O artista é orientador espiritual da sociedade, como diz o filósofo espiritual Mokiti Okada, e ele tem uma missão social no progresso da civilização e estamos diante de uma sociedade com tantas urgências em tantos contextos que merecem um olhar sobre isso. Acredito que o mundo precisa de artistas comprometidos com a coletividade, com humanidade e que possibilitem experiências de elevação de sentimentos, elevação espiritual e social das pessoas.

E além das dificuldades de comunicação apontadas por você, quais outros desafios mais frequentes que cenário artístico local enfrenta, principalmente do ponto de vista econômico? 

Sobre as formas tradicionais de captar recursos, os editais federais são burocráticos e excludentes. Não servem para a realidade de muitos grupos e coletivos, infelizmente.   Tenho sobrevivido da arte nadando mesmo contra a maré e estou muito feliz por estar encontrando outras possibilidades e formando uma nova cultura empenhada em deixar uma herança na formação  de artistas conscientes e também com um público que se engaja com nosso trabalho. 

Cena do musical Sinais

 Conta um pouco sobre os principais trabalhos que você tem desenvolvido no momento. Qual o foco principal dos seus projetos?

 Durante muitos anos protelei muito assumir minha missão como formadora e diretora de atores, apesar disso ser algo muito forte em minhas habilidades e nos meus projetos.  Fundei o Puty Teatro Labore em 2009, pois, sentia o desejo de ampliar minha pesquisa como atriz e me desafiar em um grande trabalho.  E foi através do Projeto O Rouxinol e a Rosa que vivenciei algumas fortes experiências que me provocoram uma grande transformação. 

E nestes últimos anos estou no  Puty Teatro Labore, onde desenvolvemos desde a formação para atores iniciantes ou pessoas que desejem a experiência com teatro. Trabalhamos  também alguns projetos como Casa do Maninho, com crianças, adolescentes e familiares na periferia da Zona Sul de Teresina em homenagem ao meu pai. Temos também o projeto de teatro  Visão além do Alcance com portadores de deficiências visuais da ACEP (Associação dos Cegos do Piauí), além da peças teatrais que desenvolvemos dentro do grupo.  A mais recente que eu dirigi foi o musical  Sinais,  que faz parte do projeto para  campanha Setembro Dourado  pela Rede Feminina de Combate ao Câncer do Piauí e Lar de Maria, e que tivemos alguns parceiros na construção deste projeto. 

De forma geral, qual o real propósito do seu trabalho?

O foco do nosso trabalho é sempre tocar a sociedade de uma forma que possibilite despertar o olhar das pessoas sobre determinado contexto social e promover a elevação dos sentimentos de quem recebe nosso trabalho. É isso!

 

Por Samira Ramalho

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