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Você conhece a chocante história da Histeria feminina?

Cena do filme Histeria (2011)/ Divulgação

O sociólogo e historiador Michel Foucault (1990) disse que, por muito tempo, os homens insistiram na tentativa de fixar as mulheres à sua sexualidade, como se elas fossem o seu próprio sexo, mas um sexo frágil, propenso ao adoecimento do homem e da mulher. A patologização feminina deu um lugar de excelência à Ginecologia. Já o termo Histeria veio de hystera, que significa útero em gregoO conceito de histerização do corpo da mulher, que surgiu, diz que é uma forma de analisar o corpo da mulher, qualificando ou desqualificando-o pelas suas características sexuais e reprodutivas. E esse corpo foi classificado como impregnado de sexualidade!

Entretanto, mesmo a mulher submetida à sua função sexual, por assim dizer, isso não fez dela um ser sexual, pois, o modelo médico vigente conseguiu separar totalmente a sexualidade da reprodução. Às mulheres não era permitido ou bem aceito ter prazer sexual da sua função, já que os médicos insistiam que as mulheres não se interessavam pelo sexo, mas somente interessava cumprir o destino que seu instinto materno traçava. Demonstrar qualquer atitude de gozo na relação sexual com um marido rígido era visto com desconfiança e talvez fosse suficiente para associá-lo com o sintoma de algum mal feminino, de acordo com as escritoras americanas Barbara Ehrenreich e Deirdre English no livro Para o seu próprio bem: 150 anos de conselhos de especialistas para as mulheres.

Mas Histeria era mesmo apenas um dos nomes dados pelos médicos do século XIX às diversas enfermidades que afetavam somente pessoas do sexo feminino. Muitas experiências extremamente perigosas, como cauterização uterina com ferro quente ou nitrato de prata, ou aplicação de injeções ou sanguessugas no útero, eram realizadas nas mulheres na tentativa de acalmar o seu nervosismo. Os médicos recorriam a essas técnicas brutais porque acreditavam que o sistema reprodutivo feminino era responsável pelo adoecimento das mulheres. Essa certeza ia tão longe que ligava o útero ao cérebro, estabelecendo que o cérebro feminino era completamente suscetível aos comandos uterinos e assim colocavam o próprio corpo feminino em guerra interna. 

 Barbara Ehrenreich e Deirdre English contam que as práticas terapêuticas foram, em seguida, substituídas pela remoção uterina completa, uma suposta alternativa mais eficaz e definitiva. Mesmo não sendo aprovada pela maioria dos médicos, era utilizada em casos onde se identificasse a ninfomania (presença excessiva de desejo sexual), masturbação, crescimento incomun do clitóris, ou até mesmo desrespeito às leis e à ordem do Estado.

 Além da Histeria, outros nomes eram dados aos problemas típicos da população feminina. Neurastenia, dispepsia e até reumatismo nomeavam as síndromes que envolviam sintomas físicos e comportamentais, como a “dor de cabeça, dores musculares, fraqueza, depressão, dificuldade menstrual, indigestão etc. E, geralmente, uma fraqueza geral que exigia repouso constante”, citam Ehrenreich e English. 

 

Cena do filme Augustine (2012)/ Divulgação

Um estilo de vida burguês

As síndromes eram praticamente exclusivas das mulheres de classe média e alta da segunda metade do século XIX. O que para os médicos eram doenças, para as mulheres começava a representar um estilo de vida que envolvia a fragilidade e a completa inutilidade, criando um novo ideal romântico de mulheres belas e frágeis. Raramente esses médicos atendiam mulheres trabalhadoras com esses tipos de queixa. Elas não tinham tempo nem dinheiro para o novo estilo de vida. 

Os problemas exclusivos femininos viraram também um pretexto para que elas tivessem alguma liberdade de viver, se expressar ou se recusar a cumprir as obrigações conjugais e domésticas, já que essas condições de saúde exigiam o repouso absoluto. A doença também era uma aliada da prevenção da gravidez, já que os métodos anticoncepcionais eram inseguros e a possibilidade de aborto era excluída. 

A popularização dessas síndromes entre a classe médica e a propagação deste estilo de vida entre as mulheres fez com que, logo depois, surgisse uma névoa de dúvidas sobre a veracidade dessa doença, o que criou um conflito entre a relação médico- paciente. 

Insurgência feminina

 Desmaios, perda da voz, falta de apetite, tosses e espirros. Mais sintomas! Os médicos viam a Histeria como um mal misterioso e rebelde aos tratamentos vigentes da ginecologia. Desconfiada, a literatura médica observou características específicas das histéricas que indicavam a possível fraude das mulheres. Frequentemente as pacientes desmaiavam apenas sobre algo macio ou tinham ataques somente na presença de outras pessoas.  Os sintomas poderiam ser examinados apenas clinicamente e precisavam inteiramente da colaboração e descrição detalhada da paciente. Os médicos, quando seus tratamentos, recomendações e intimidações não pareciam ajudar na condição, ficavam confusos sobre a ineficácia de sua abordagem terapêutica ou se estavam mesmo sendo enganados. 

Cartaz de As Sufragistas (2015)

Embora a base de estudos médicos fossem as mulheres de classe média e alta, as condições sociais não eram consideradas nesses estudos médicos e psicológicos. O fato é que durante a epidemia, as mulheres a aceitaram e a utilizaram como uma forma de revolta contra o papel social fixo, que era a relação econômico-sexual do casamento à qual elas eram submetidas. 

 Para Ehrenreich e English, com o passar dos anos, as mulheres notaram que havia mais funções e lugares que elas poderiam ocupar na vida e no mundo, através do trabalho, educação e luta por direitos. É nesse momento que floresce o movimento Sufragista. E então o cérebro se transforma no novo inimigo íntimo e público das mulheres e no alvo de novas especulações da medicina misógina, que passou a se ocupar do questionamento e da regulação da educação das mulheres.

 

Fragmento da dissertação de mestrado Gênero e Sexualidade: discursos de mulheres feministas sobre a pornografia, de Samira Ramalho.