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ENTREVISTA: Urologista diz que a cada 7 minutos surge novo caso de câncer na próstata

Eles se acham fortes e resistentes a ponto de relaxarem nos cuidados com a saúde. Dificilmente você ver ou ouve falar que seu pai, irmão, namorado ou amigo marcou uma consulta médica. Convencer que os homens precisam visitar o especialista regularmente ainda é um desafio. E para falar sobre esse assunto, convidamos o médico mestre em urologia Giuliano Aita, altamente conceituado nessa especialidade. Ele é presidente da Sociedade Brasileira de Urologia no Piauí, Membro  Titular da Sociedade Brasileira de Urologia e Membro da Associação Americana de Urologia. Essa brincadeira ou machismo ou mesmo desatenção pode trazer sérias complicações para a saúde da ala masculina. Veja:

 

 

MARCELO FONTENELE - Os homens passam boa parte da vida livres de incômodos que a mulher tem. Talvez isso deixe eles mais relaxados com a saúde. Mas, de acordo com sua experiência, quais são os maiores assombros dos homens quando eles procuram o médico?

DR. GIULIANO AITA - Os homens de fato são mais arredios quando o assunto é a visita ao médico.  Dados do SUS mostram que o número de consultas médicas a urologistas é bem menor quando comparado às consultas ginecológicas. Mas, à medida que amadurecem os homens passam a ver na próstata uma ameaça à vida, o que faz com que muitos deles visitem o urologista. Além disso, eu diria que a falha em obter a ereção é a segunda causa da consulta ao especialista, em ordem de prevalência, seguida pela popular andropausa, ou, como preferimos chamar, pelos distúrbios hormonais associados ao envelhecimento masculino.

 

MARCELO FONTENELE - Nenhum homem pode deixar de se preocupar com a próstata. Por que o alerta é mais direcionado aos que possuem idade a partir dos 40 anos? Tem algo a ver com mudanças fisiológicas?

DR. GIULIANO AITA - De fato, os problemas que envolvem a próstata são mais comuns após os 40 anos. Isto porque após esta idade ocorre a hiperplasia (aumento) da próstata,  cujos sintomas são aumento na frequência das micções e esforço para urinar. Interessante ressaltar que nem todos os homens com aumento da próstata vão apresentar estes sintomas. Felizmente, apenas um terço tem sintomas mais significativos que exigem tratamento clínico ou cirúrgico. Este crescimento está relacionado às mudanças hormonais que acompanham o envelhecimento masculino. Nos casos de câncer, surgem nódulos que podem ser sentidos no exame de toque retal ou que causam alteração no exame de sangue, o PSA. Diferentemente do crescimento benigno, o tumor pode não ficar restrito à glândula e invadir os tecidos vizinhos e até mesmo causar a morte.

 

MARCELO FONTENELE - Muitos não fazem o exame da próstata por puro machismo, mesmo sabendo do risco que correm. Como é feito o exame? É rápido? Doloroso?

DR. GIULIANO AITA - Muito interessante esta sua colocação. Realmente, o medo do exame do toque ainda afasta alguns homens do consultório do urologista. Este medo é infundado, tendo em vista que é um exame rápido, com duração inferior a um minuto, indolor e de grande importância para o diagnóstico precoce do câncer de próstata. Os homens que já se submeteram ao exame não hesitam em fazê-lo novamente.

 

 

MARCELO FONTENELE - Quais as consequências que os homens podem sofrer, caso não façam o exame da próstata?

DR. GIULIANO AITA - O câncer de próstata é o tumor mais prevalente do homem. Um em cada seis homens vai manifestar a doença. Entretanto, se diagnosticado em fase inicial, os índices de cura atingem 90%. Quando o tumor extrapola os limites da próstata, estas chances caem para 30%. Portanto, o exame da próstata é uma importante ferramenta para o diagnóstico precoce do câncer e pode salvar vidas.

 

MARCELO FONTENELE - Quais os dados mais recentes com relação ao câncer da próstata?

DR. GIULIANO AITA - A estimativa do INCA é de que mais de 70 mil novos casos sejam diagnosticados neste ano no Brasil, ou seja, um caso a cada 7 minutos aproximadamente. Isto ocasionará um óbito a cada 40 minutos por câncer de próstata. Muitas destas mortes poderiam ter sido evitadas caso o diagnóstico fosse feito em fase inicial.

 

MARCELO FONTENELE - O tratamento da doença é complicado?

DR. GIULIANO AITA - O tratamento do câncer de próstata deve ser individualizado para cada paciente, levando-se em conta a idade, o estadiamento do tumor, o grau histológico, o tamanho da próstata, as comorbidades, a expectativa de vida, os anseios do paciente e os recursos técnicos disponíveis. O câncer de próstata pode ser localizado (limitado à próstata), localmente avançado ou avançado (o câncer já se moveu para além dos limites da próstata). Cada uma destas situações exigirá um determinado tratamento. Houve um enorme avanço no tratamento do câncer da próstata, em todas as suas fases nos últimos anos. A técnica cirúrgica evoluiu, permitindo um menor índice de complicações com bons resultados funcionais; a radioterapia evoluiu, surgiram técnicas mais precisas e eficazes e o tratamento clínico também experimentou um enorme avanço. Dispomos hoje de novas opções terapêuticas para o tratamento clínico do câncer de próstata. 

 

MARCELO FONTENELE - A família pode ajudar os homens da casa a buscarem o auxílio dos médicos? Como?

DR. GIULIANO AITA - Certamente. O núcleo familiar é a base estrutural do indivíduo. As mulheres já recebem orientações desde a infância de como se cuidar, hábito via de regra não cultivado entre os homens. Na nossa experiência quase a metade das consultas são agendada pelas parceiras.

 

 

MARCELO FONTENELE - Sabemos que o câncer de próstata não é o único dilema dos homens, principalmente para aqueles que abusam do sobrepeso e do cigarro. Quais as suas recomendações para que se tenha mais qualidade na saúde?

DR. GIULIANO AITA - O tabagismo e a obesidade já foram apontados como fatores de risco para o câncer de próstata. Além disso, quando um obeso têm um câncer de próstata, o tumor costuma ter comportamento mais agressivo. A influência da alimentação sobre a gênese do câncer ainda é incerta, não são conhecidos os exatos componentes ou mecanismos pelos quais ela pode influenciar o desenvolvimento da doença. As evidências apontam que uma dieta rica em frutas, verduras, legumes, grãos e cereais integrais e pobres em gordura, principalmente as de origem animal, não só ajuda a diminuir o risco de câncer, como também o risco de outras doenças crônicas como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares. Também tem sido apontada uma relação positiva entre o alto consumo energético total e ingestão de carne vermelha, gorduras e leite e maior risco de câncer da próstata.