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Motoristas de aplicativo sofrem com queda nas corridas e risco de pegar coronavírus

Foto: Roberta Aline/Arquivo/Cidadeverde.com

Assim que a reportagem entrou no carro, o motorista da Uber Eddy Lins, 44, ofereceu um pouco de álcool em gel para higienizar as mãos. "Tenho que me proteger e proteger o passageiro", explica ele, que carrega um vidro maior e outro de bolso, menor, que ganhou de um cliente.

Na última segunda-feira (23), fez dez corridas durante todo um dia de trabalho. Antes da chegada do novo coronavírus, diz ele, fazia entre 35 e 40 viagens por dia.

A disseminação do novo coronavírus no país e o fechamento de escolas e comércios que veio na sequência fizeram com que motoristas de aplicativos e taxistas tivessem um desafio duplo: precisam tanto se proteger da doença ao ter contato com diferentes pessoas quanto se virar economicamente com a queda abrupta da demanda de passageiros.

Ainda não há dados consolidados -o comércio fechou na capital na última sexta (20) e os restaurantes, na terça (24)-, mas motoristas falam em redução de até 70% no número de passageiros, estimativa corroborada pelo presidente da Uber, Dara Khosrowshahi, na última semana.

Os taxistas, que perderam espaço para os aplicativos, também reclamam da falta de clientes. João Carlos Souza, 65, trabalha há 32 anos no mesmo ponto, numa região de comércio popular da Lapa. Deixou o seu táxi na garagem desde a última sexta-feira (20), e voltou nesta quarta (25).

"Fiz três corridas que não pagam nem o deslocamento da minha casa, na região da Freguesia, muito menos o risco de pegar doença, sofrer um assalto", disse Souza.

A alta rotatividade de desconhecidos em seus carros faz com que essa categoria, considerada como essencial, seja uma das mais expostas ao vírus.

Há seis meses como motorista de aplicativo, Maria Fátima da Silva, 37, conta que a quantidade de corridas diárias despencou de 40 para no máximo seis.
Com a quarentena em São Paulo, Silva tem encontrado passageiros cujo destino mais frequente são hospitais, farmácias e supermercados.

"Eu fico em alerta aos sinais das pessoas, se tem tosse, resfriado, falta de ar. Segunda-feira a maioria das corridas foi para o hospital, usuários com fraturas pelo corpo ou quem foi fazer visitas", disse ela.

"Com a crise, eu não rejeito as poucas corridas que, ainda, temos. Preciso pagar meu aluguel"

Para continuar trabalhando com segurança, Eddy Lins estabeleceu regras: não pega mais que dois passageiros por viagem, que devem sempre andar no banco de trás, e só roda de janelas abertas. "E à noite faz um frio... ".

Após o término de cada viagem, ele higieniza maçaneta, cinto de segurança e bancos com uma garrafa de álcool que carrega. "Quando começou essa crise, perguntei ao aplicativo se poderia ser punido por recusar uma viagem com quatro passageiros, por exemplo. Eles disseram que não, então fui em frente", diz.

Eddy guarda algumas máscaras para usar caso pegue algum passageiro resfriado, o que ainda não aconteceu. "Por duas vezes entraram passageiros de máscara. Eu perguntei se estavam doentes, mas disseram que era só proteção, porque um era médico e a outra, dona de farmácia", conta.

A Uber e a 99 têm enviado lembretes para os usuários e colaboradores, como abrir as janelas e levar passageiros no banco de trás. Ambas as empresas prometeram auxílio financeiro caso o colaborador contraia a Covid-19.

A 99 diz que tem um fundo internacional de US$ 10 milhões para propor uma ajuda financeira aos motoristas. "Para calcular a quantia, a 99 vai analisar a média dos ganhos diários do motorista no período entre setembro de 2019 e fevereiro deste ano", diz a nota.

A Uber também terá uma assistência financeira. O valor será baseado na média diária nos seis meses anterior a março.

Essa demanda foi apresentada pelo Stattesp (sindicato de motoristas de aplicativos que diz abrigar cerca de 5.000 trabalhadores da categoria), que pede uma espécie de adiantamento e quer que as empresas zerem a taxa cobrada (em geral entre 20% e 25%) e que o governo isente a atividade de impostos.

"Muitos pararam de rodar. Os que se arriscam não acham cliente na rua. Também não acham álcool em gel, luva, máscara", diz Leandro da Cruz Medeiros, presidente da entidade. E resume: "A situação do nosso motorista tá ruim."

A queda no movimento fez com que o negócio deixasse de ser rentável para aqueles que trabalham com carro alugado.

Desde segunda, a reportagem flagrou filas de carros na porta de locadoras. "Já no final da semana passada, eu não consegui ganhar o mínimo, pelo menos R$ 200, para pagar meus gastos, com locação, combustível e minha alimentação", disse o motorista M.L (ele preferiu não se identificar), que na terça-feira devolveu o veículo, um Chevrolet Onix. "Vou dar um tempo para tomar uma decisão. A minha sorte é que minha companheira é funcionária de um supermercado."

Maria Fátima dirige um Renault Sandero e paga R$ 1.350,00 por mês de aluguel para uma amiga.

"Eu preciso, pelo menos, de R$ 50 por dia com a locação. Vou cumprir minha meta hoje [terça] porque pintou uma cliente particular."

As locadoras também têm traçado estratégias para não perder clientes. A Localiza, por exemplo, dá até R$ 700 de desconto no aluguel mensal, além de oferecer aluguel semanal de carros a R$ 9,90 até 5 de abril para os que rodam até 70 km por semana.

A Movida também criou condições para quem aluga veículos mensalmente, com planos de R$ 30 reais ao mês para quem roda pouco em carros mais simples e descontos de até R$ 600 para carros melhores.

CARLOS PETROCILO E THIAGO AMÂNCIO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)