Cidadeverde.com

Cientista piauiense descobre variações celulares nos pulmões asmáticos

Durante os 12 primeiros anos da minha vida sofri de bronquite asmática. É difícil tentar respirar e não conseguir encontrar o ar com facilidade. Foi um período terrível. A asma é a doença crônica mais comum do mundo. Além da dificuldade de respirar os asmáticos apresentam tosse, dor no peito e respiração ofegante. As vias aéreas ficam obstruídas e encharcadas de muco produzido nas células que as revestem.

Em artigo publicado esta semana na importante Revista Nature Medicine, com o título “A cellular census of human lungs identifies novel cell states in health and in asthma” (“Um censo celular de pulmões humanos identifica estados celulares na saúde e na asma”, em tradução livre) pesquisadores investigaram o perfil de células dos pulmões (parênquima pulmonar), das vias aéreas superiores e inferiores de pacientes asmáticos e de pacientes normais, para fins de comparação.

Locais de coleta das amostras celulares. Fonte: Vieira-Braga et al. (2019). Nature Medicine.

A experiência usou como amostra pacientes entre 40 e 65 anos, com histórico de uso de menos de 10 maços de cigarro/ano divididos em dois grupos: pacientes sem histórico de asma e pacientes com histórico de asma e uso de corticosteroides inalatórios. A coleta de material se deu a partir das paredes nasais e procedimentos de broncoscopias (retirada de amostras de tecido dos locais pesquisados mais profundos como vias aéreas inferiores e do parênquima pulmonar). As amostras de materiais foram submetidas a uma preparação para análise usando técnicas avançadas de citologia e sequenciamento do RNA em quase 37 mil células. O grupo de pesquisadores identificou o Transcriptoma das células das vias pulmonares. Transcriptoma é o estudo detalhado das sequências dos diferentes tipos de RNA (ribossômico, mensageiro, transportador e microRNAs). A pesquisa resultou num Atlas abordando aspectos morfológicos das células do sistema respiratório e detalhes em nível de RNA destas células.

Amostras de tecido pulmonar. Fonte: Vieira-Braga et al. (2019). Nature Medicine. 

A frente desta jornada está Dr. Felipe Augusto Vieira Braga, piauiense de Teresina, graduado em Farmácia pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) com Mestrado pela Radboud University Nijmegen Medical Center e Doutorado pela Universidade de Amsterdan, ambas na Holanda. A publicação é fruto dos resultados de sua pesquisa durante o Pós-Doutorado na Universidade de Cambridge na Inglaterra.

Dr. Felipe Augusto Vieira- Braga. Fonte: Arquivo pessoal.

Eu conversei com o Felipe, através do aplicativo Whatsapp, que me explicou que este projeto é resultado de uma parceria entre as Universidades de Cambridge (Inglaterra) e Groningen (Holanda) e é financiado pela Indústria Farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK) e que, com os resultados obtidos, torna-se possível a formulação de drogas mais eficazes para o tratamento da asma. Os resultados obtidos permitiram determinar um perfil que combina dados morfológicos das células e o perfil genético, com base na tipologia de RNA das células de quem apresenta problemas com a asma. A pesquisa também resultou na descoberta de um tipo de célula específico nos pulmões asmáticos responsável pela produção de muco. Trata-se do estado celular muco-ciliado, responsável por produzir o excesso de muco nos pulmões dos asmáticos.

Tipos celulares encontrados nos pulmões e vias aéreas. Fonte: Vieira-Braga et al. (2019). Nature Medicine.

A asma afeta cerca de 350 milhões de pessoas no mundo. Somente no Brasil estima-se que existam mais de 6,4 milhões de pacientes asmáticos. Pesquisa publicada na revista da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, por pesquisadores da PUC-RS, em 2017, aponta que entre os anos de 2008 e 2013 quase 1,1 milhões de internações em todo o país foram motivadas pela asma, com uma despesa de quase 170 milhões de dólares com estes pacientes, o equivalente hoje a 646 milhões de reais. Esta mesma pesquisa encontrou um gasto médio de 160,48 dólares por paciente, porém com tendência ao crescimento. Vale lembrar que a pesquisa utilizou apenas dados disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ou seja, não estão contabilizados recursos dispendidos por fontes privadas como planos de saúde e custeio direto com recursos particulares.

Já dá pra ver de cara que a pesquisa desenvolvida pelo Felipe Braga e outros colegas terá um impacto positivo muito grande no tratamento dos asmáticos. Os que acordam a noite procurando ar e uma bombinha para poder continuar respirando vão agradecer imensamente o trabalho de mais um piauiense que faz a diferença por onde passa...

Boa semana para todos (as)...

De volta ao passado

Já escrevi algumas vezes sobre algumas das riquezas paleontológicas encontradas aqui em Teresina, no Parque da Floresta Fóssil, aqui mesmo em Teresina. Se quiser rever clique aqui e aqui.

Já expliquei também como as árvores da floresta fóssil ficaram preservadas ao longo do tempo. Veja aqui.

Na floresta fóssil, além dos fósseis de árvores primitivas, de um grupo muito próximo das atuais samambaias, o local resguarda também sinais de que um dia tivemos uma praia aqui na região de Teresina. Aí fico pensando no que passa nas cabeças dos incrédulos: praia em Teresina???

Quando Alfred Wegener propôs a teoria da Tectônica de Placas... Oi?!? Explico: no passado todos os continentes formavam uma única placa continental chamada de Pangeia. Voltando: quando Wegener propôs que todos os continentes estariam encaixados formando um continente gigante, muitos desacreditaram, embora as evidências fossem muito fortes e recaíssem especialmente pela conformação da costa leste do Brasil e a costa oeste do Continente Africano, por exemplo. Aliás já tínhamos falado também que descobertas feitas no interior do Maranhão apontavam para as evidências de que a Pangeia realmente existiu. Reveja aqui.

Levando em consideração que a floresta fóssil existiu por volta de 240 milhões de anos e, nesta época, todos os continentes formavam a Pangeia por estarem unidos, muito provavelmente a cidade de Teresina, onde a floresta ficava, localizava-se em proximidade com alguma região africana, certo? Certíssimo!!!

A novidade é que não precisa ser nenhum grande cientista para saber sobre isso. Um site que reúne o maior conjunto de dados sobre dinossauros de diferentes espécies na internet resolveu criar um aplicativo que mostra uma terra interativa, em relação ao passado. Veja que o ambiente do site é bem simples:

Fonte: dinosaurpictures.org.

Quer testar? Clique aqui. Coloque o nome da cidade que quer saber onde ficava e, em seguida, escolha quanto tempo quer recuar.

Se escolher Teresina e recuar para 50 milhões de anos vai ver que faz todo sentido existirem fósseis de praia no sítio da Floresta Fóssil de Teresina [o pontinho cor de rosa é Teresina].

Fonte: dinosaurpictures.org

Boa semana e até o próximo post...

Pesquisadora piauiense promove saúde pública nas periferias

  • Simone7.jpg Simone Mousinho e equipe
  • Simone6.jpg Simone Mousinho e equipe
  • Simone5.jpg Simone Mousinho e equipe
  • Simone4.jpg Simone Mousinho e equipe
  • Simone2.jpg Simone Mousinho e equipe
  • Simone_3.jpg Simone Mousinho e equipe

Ultimamente as universidades brasileiras vêm sendo muito atacadas nas redes sociais, especialmente por pessoas que desconhecem a importância de uma Universidade no seio de uma comunidade. Sou professor universitário há 25 anos e sei de muitas histórias e por vezes uso o Blog Ciência Viva para tornar públicas algumas das coisas que tenho testemunhado de perto ou de longe.

Hoje vou contar a história do Projeto Parasitoses, criado pela Professora Doutora Simone Mousinho Freire. A Dra. Simone é minha colega na Universidade Estadual do Piauí. Como sua pós-graduação é na área de doenças parasitárias ministra na Graduação a disciplina Parasitologia.

Dra. Simone Mousinho. Foto: Acervo Pessoal.

A avalanche de notas baixas dos seus alunos motivou transformar parte da atividade de Ensino em um projeto de Extensão e de Pesquisa. Na prática, a professora introduziu a responsabilidade dos estudantes a buscarem crianças na faixa etária dos 3 aos 10 anos de comunidades carentes da periferia de Teresina como Vila Wall Ferraz, Vila Maria, Cerâmica CIL e Pedra Mole, coletando material biológico (fezes) para avaliar a presença de parasitas. Surgiu assim o projeto que tem como objetivo avaliar o Perfil Sócio Epidemiológico abordando o aspecto parasitológico de crianças. Ao todo foram feitas 483 investigações parasitárias na faixa etária estudada, mas mais de 500 atendimentos, compreendendo crianças fora da faixa pesquisada e com benefício direto para mais de 800 pessoas durante o período de realização do mesmo.

As atividades do projeto foram totalmente custeadas por doações. Além dos insumos para realização dos exames o projeto culminava com o dia “D”, no qual profissionais de diferentes áreas, todos voluntários, como médicos, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos se encontravam com a comunidade para realização de palestras, distribuição de medicamentos contra parasitoses, atividades lúdicas e atividades de educação, especialmente voltadas para orientações sobre como prevenir as doenças parasitárias e outros cuidados relativos à higiene. Em cada encerramento os beneficiados recebiam um kit formado por sabonete, pasta de dentes, escova de dentes, pente e chinelo, além do fornecimento de um filtro para a família atendida.

Como tudo que é bom dura pouco, este ano foi o último do projeto. Conversei com Simone que está satisfeita com os resultados, pois conseguiu a adesão de seus alunos que melhoraram seu desempenho na disciplina, mas cansou de correr atrás de doações, especialmente para esta finalização. Este ano, em razão da crise, não conseguiu nem o ônibus da Universidade para transportar os estudantes. Em razão da greve, com o esvaziamento do Campus, os estudantes foram à luta e pediram dinheiro nos sinais da cidade.

Participantes do projeto arrecadam recursos em um dos cruzamentos de Teresina. Foto: Projeto Parasitoses.

Esta é a realidade de muitos pesquisadores que trabalham, mas por vezes não conseguem ser reconhecidos nem pelos seus pares da academia, o que dirá da sociedade como um todo. Não é o caso da Simone. Tem o respeito dos seus colegas, alunos e ex-alunos e de crianças que podem ter tido sua vida salva com esta grandiosa ação.

Parabéns Dra. Simone Mousinho!

Boa semana para todos(as)...

Pesquisa detecta genoma do Pirarucu

Uma das coisas que mais me impressionou quando visitei a cidade de Belém (PA) foi conhecer o Pirarucu, dado o seu tamanho superlativo. O peixe é considerado o que tem uma das maiores taxas de crescimento entre as espécies que vivem na água doce.

Pesquisadores da UNESP associados com pesquisadores alemães realizaram estudos visando identificar o processo de sexagem do Pirarucu ainda na fase de alevinos. A pesquisa resultará na possibilidade de selecionar planteis para criação da espécie para fins de repovoamento e de criação com fins alimentares.

Fonte: Agência Brasil, EBC.

A pesquisa iniciou em 2015 com a parceria entre o geneticista alemão Manfred Schartl da Universidade de Würzburg e o geneticista brasileiro Rafael Nóbrega da UNESP de Botucatu (SP). A pesquisa resultou na descoberta de que o Pirarucu (Arapaima gigas) tem um sistema de determinação sexual parecido com o humano, que apresenta cromossomos sexuais distintos para o homem (XY) e semelhantes para mulher (XX).

A pesquisa foi além disso: com amostras de nadadeiras de 30 machos e 30 fêmeas coletados em uma fazenda no Acre, foi possível descobrir o genoma da espécie, em laboratórios de universidades francesas. O macho tem DNA com 666 milhões de bases e as fêmeas tem 664 milhões. O material foi comparado com outras 10 espécies de peixes com genoma conhecido e o seu parente mais próximo foi uma espécie de Aruanã encontrado na Ásia (espécies de Aruanãs também ocorrem nos rios Amazônicos). O pirarucu e o aruanã, de acordo com a pesquisa, dividem um ancestral comum que viveu há 200 milhões de anos atrás.

As pesquisas resultaram em publicação na Scientific Reports da Nature e revelou também a existência de 105 genes responsáveis pelo crescimento do animal, que pode atingir até três metros de comprimento e 220 kg de peso. As descobertas ajudarão a incrementar a criação em cativeiro, já que em razão dos parcos conhecimentos sobre o ciclo reprodutivo do animal a atividade não era muito explorada.

Até o próximo post...

(Com informações do Notícias UNESP)

05 de junho: um dia para pensarmos sobre o futuro

Na semana que passou comemoramos o Dia Mundial do Meio Ambiente, em 05 de junho. A data foi estabelecida por uma resolução (a XXVII) da Organização das Nações Unidas (ONU) de 15 de dezembro de 1972. O dia 05 de junho foi escolhido numa alusão a Conferência de Meio Ambiente que ocorreu de 05 a 16 de junho de 1972 em Estocolmo, Suécia. Neste evento tratou-se, pela primeira vez, dos problemas ambientais que já acometiam a Terra naquela época e que já começavam a despertar as preocupações dos países desenvolvidos.

A data foi criada para que todas as pessoas criem uma consciência sobre a necessidade de proteger o planeta, seus recursos e tente equacionar os seus problemas ambientais. Mas quais são mesmo os principais problemas ambientais da Terra?

Eu me fiz esta pergunta e resolvi transmiti-la para o Oráculo da modernidade: o Google. Lá encontramos muitas páginas no gigantesco mundo virtual com tentativas de listar os grandes problemas ambientais que afetam nosso planeta. Desde páginas que cuidavam de temas mais específicos como a extinção de uma dada espécie de organismo, que mesmo não sendo uma espécie essencial para a sobrevivência da Terra merece viver, até questões mais amplas. Consegui separar alguns destes problemas que passo a resumir, a seguir.

1) Crescimento demográfico

Desde o século XIX que o inglês Thomas Malthus já preocupava o mundo com indagações sobre o aumento da população e possível escassez de alimentos. A população humana continua crescendo, a ciência deu um jeito de produzir alimentos suficientes para todos, embora a distribuição seja desigual e muita gente morre de fome pelo mundo. Mas de fato estamos diante de um problema.

Gráfico mostrando o crescimento da população humana com estimativas até 2050.

2) Urbanização acelerada

A distribuição das pessoas de modo desigual também é um impacto negativo, o que reduz a qualidade de vida além de impactar o meio ambiente, principalmente pela crescente necessidade de recursos financeiros, disponibilidade de energia e poluição liberada.

3) Desmatamento

A remoção da cobertura vegetal de diferentes lugares, principalmente maciços florestais como a Amazônia, por exemplo, põe em risco muito além das espécies que vivem nestes lugares. Alteram o ciclo da água e mexem de forma quase instantânea com o equilíbrio do clima do Planeta.

4) Poluição

Poluir significa quebrar a harmonia ambiental, especialmente gerando elementos residuais que promovam a contaminação da água, do ar e do solo, principalmente. A poluição preocupa diferentes segmentos da ciência. Existem muitas maneiras de poluir o ambiente, mas para não sermos muito prolixos nesta fala vamos falar apenas do plástico.

Já existe, entre os cientistas, uma certa unanimidade da existência de um “continente” flutuante formado por lixo plástico no Oceano Pacífico. O plástico, que foi criado para substituir bens com alguma durabilidade, passou a ser gerado com a finalidade de ser também descartável, e isso se transformou num grande problema. O plástico é praticamente indestrutível, uma vez que sofre degradação e se converte em partículas de plástico. Pesquisa conduzida por Kieran Cox, da Universidade de Victoria, no Canadá, aponta que ingerimos, em média, 50 mil partículas plásticas por ano. Por isso, em datas como 05 de junho precisamos ajudar na conscientização das pessoas a fazerem menos uso de plástico, por ser algo quase indestrutível e criado pela mão humana.

Fonte: Diário do Nordeste

Em maio deste ano, o mergulhador Victor Vescovo, usando um submarino especial, mergulhou no Challenger Deep, o ponto mais profundo das Fossas Marianas, batendo o recorde com a profundidade de 10.927 metros, mas com uma triste constatação: encontrou lixo plástico no ponto mais profundo dos oceanos da Terra. Veja aqui.

5) Perda da Biodiversidade

Não se sabe ao certo quantas espécies estão desaparecendo, porque não se sabe ao certo quantas espécies existem. O que se sabe é que, por diversas razões, vinculadas ao desmatamento, a poluição em diversos ambientes e à destruição de habitats, muitas espécies estão sujeitas e outras estão desaparecendo. As estimativas, baseadas em casos concretos é que variem de 0,01% a 0,1% ao ano. Aí você pode estar pensando: é muito pouco! Nada disso! Se as estimativas para o número de espécies que existem nos diferentes ambientes do globo são de 100 milhões, na melhor das hipóteses (0,01%), se você gastou uma hora para ler e maturar as ideias deste texto, pelo menos uma espécie deixou de existir totalmente neste período de tempo. Na pior das hipóteses (0,1%), 11 espécies deixaram de existir totalmente na face da Terra, no mesmo intervalo de uma hora.

Uma reflexão importante a ser feita e que ajuda a manter a ideia de que precisamos fazer algo pelo nosso Planeta, especialmente em busca do Desenvolvimento Sustentável, necessário para minimizar estes e outros problemas ambientais é trabalhar a conscientização dos nossos filhos. Um vídeo bem conhecido e que trabalha a questão ambiental focada no Consumo é uma importante forma de começarmos a refletir e fazer com que nossas crianças reflitam sobre o futuro da Terra. Assista História das Coisas no link abaixo:

Temos que nos preocupar não somente com o Planeta que vamos deixar para os nossos filhos, mas sobretudo com os filhos que vamos deixar para administrar o futuro da vida do nosso Planeta. Afinal de contas só temos uma Terra.

Até o próximo post...

 

Dona Aranha e seu “Aranho”: proibido para menores!

Numa semana em que algumas notícias de machismo extremo povoam nossas timelines, como no caso do estudante que esmurrou a árbitro de futebol porque tomou um cartão vermelho, em um torneio realizado na cidade de Parnaíba (veja matéria aqui) e que um dos "craques" da seleção brasileira de futebol expôs fotos íntimas e diálogos de uma mulher, ainda que para se defender de uma acusação de estupro (veja matéria aqui), a página da National Geographic postou um vídeo muito interessante onde machos de espécies de aranha amarram as fêmeas após a relação sexual. Calma!!! Não é caso de estupro!

Explico. Em grande parte das espécies de aranhas ocorre um fenômeno chamado Canibalismo. O macho, após a cópula, ou ainda durante o ato, passa a ser devorado pela fêmea. Como visto por muitos cientistas, na maioria das espécies isto é considerado como ato altruísta do macho, que literalmente dá sua vida para perpetuar seus genes através dos seus filhotes. Outros pesquisadores defendem que, na verdade é uma estratégia egoísta, porque ao entreter a fêmea deixando-a que o devore garante que seus genes se perpetuem através dos seus descendentes.

O macho amarra a fêmea para não ser devorado. Fonte: National Geographic.

Pelo sim, pelo não, a espécie demonstrada no vídeo da National Geographic consegue copular e garantir filhotes e ainda, de quebra, sobreviver: amarra a fêmea com sua teia antes de copular. Os cientistas chamaram a teia de fios de seda de “véu de noiva”. Certamente que é um recurso evolutivo desta espécie, inclusive para poder diversificar a disseminação de seus genes, uma vez que pode gerar descendentes com outras fêmeas, o que não acontece com espécies como a viúva negra, por exemplo, que invariavelmente, se alimenta do seu macho.

Veja o vídeo aqui

É a natureza inventando das suas...

Boa semana para todos (as)

(A partir de informações colhidas no site da National Geographic)

Os 100 anos do eclipse que mudou a compreensão da Física

Nos tempos sombrios de hoje onde os gurus sem eira e nem beira duvidam até que a Terra é esférica, a comemoração do dia 29 de maio último foi considerada, por mim, um alento para as futuras gerações. Para quem não sabe, nesta data foi comemorado o centenário do Eclipse Solar que serviu para confirmar a teoria da relatividade de Einstein.

Segundo esta teoria o binômio espaço-tempo forma uma espécie de tecido maleável que pode sofrer alterações em função do tamanho e peso dos corpos celestes. Um vídeo do Discovery Channel pode mostrar de modo didático o que Einstein comprovou por meio de cálculos publicados em 1916. Veja o video:

Com a aproximação deste eclipse solar a Sociedade Real Astronômica da Inglaterra organizou duas expedições que pudessem, durante o eclipse, tentar comprovar a teoria de Einstein. Uma expedição foi direcionada para Ilha do Príncipe no Arquipélago de São Tomé e Príncipe no Golfo da Guiné, África e a outra direcionada para Sobral no Ceará. A expedição da Ilha do Príncipe deu com os burros n’água porque caiu uma chuva torrencial no horário do eclipse. No ano passado eu já tinha até contado esta história. Veja aqui.

Em Sobral, embora tenha amanhecido nublado, foi possível a comissão de cientistas fazer medições do magnetismo terrestre e da eletricidade atmosférica e contemplar por cinco minutos e 13 segundos o eclipse que teve início perto das 9h da manhã. O feito ocorreu no dia 29 de maio de 1919 e foi comandado pelo físico brasileiro Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional e pelos ingleses Andrew Crommelin e Charles Davidson.

Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional que comandou a equipe de pesquisadores que vieram a Sobral para acompanhar o eclipse. Fonte: Wikipedia.

As fotos do feito e as discussões culminaram com o anúncio de que a Teoria de Einstein suplantara a teoria do britânico Isaac Newton, como se pode ver em um anúncio da imprensa britânica da época.

Anúncio de jornal britânico após a comprovação da Teoria de Einstein. Fonte: Canaltech.

Para brindar a descoberta Einstein, em agradecimento, disse: “O problema que minha mente formulou foi respondido pelo luminoso céu do Brasil”.

Nesta semana que passou as comemorações em Sobral (CE) foram intensas, inclusive com a reinauguração do Museu do Eclipse pela Prefeitura da cidade.

Boa semana para todos(as).

Pint of Science estará de volta em Teresina

Na semana passada escrevi aqui no Ciência Viva sobre o Pint of Science, considerado atualmente o maior festival de divulgação científica do mundo (veja aqui).

Falava da importância do evento que transformou o Brasil, em 2019, o país com o maior número de cidades, ao mesmo tempo em que justifiquei a minha indisponibilidade junto com outros dois pesquisadores em continuar organizando o evento aqui na nossa cidade.

Alguns pesquisadores entraram em contato se solidarizando, mas um amigo e pesquisador de grande importância no cenário local topou o desafio de organizar o evento em 2020. Passei os contatos e a Coordenação Nacional, através da pesquisadora Natalia Pasternack Taschner deu sinal verde para que o processo desencadeasse novamente em Teresina.

A organização do evento a partir do 2020 ficará com o pesquisador Antônio Sales Oliveira Coelho (lattes). Prof. Antonio, com quem tive o prazer de participar de uma mesa redonda sobre Evolução, é bacharel em Física pela UFPI, tem Mestrado e Doutorado em Física pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e atua como professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Se tudo der certo comporão o grupo também os Doutores Danilo Azevedo e Alexandre Maciel, que por sinal foi palestrante do Pint of Science – Teresina em 2018, todos vinculado à Universidade Federal do Piauí (UFPI). E reafirmo, com o nosso apoio e expertise à disposição: Francisco Soares e Dr. Thiago Carvalho (UESPI) e Dr. Hermes Castelo Branco (UFPI).

O mais importante é que em 2020 teremos Pint of Science novamente em Teresina! Um brinde à Ciência!!!

 

Quando a ética ameaça ciência

A capa da revista Science publicada nesta última sexta-feira (24 de maio de 2019) mostra um fóssil de um escorpião em âmbar, de uma beleza singular, mas abordando uma questão ética de grande importância.

Imagem da cauda de um bebê dinossauro. A imagem retrata a formação das penas desta espécie. Fonte: Science.

Para quem não sabe o âmbar é uma resina produzida por uma árvore, e esta resina foi fossilizada, ganhando a consistência e status de um mineral. Algumas árvores, como os pinheiros, produzem um volume muito grande de resina. Os pinheiros que habitavam algumas regiões do planeta tiveram sua resina conservada ao longo do tempo, convertendo-se neste tipo de fóssil, de rara beleza e que ajuda a conservar organismos que ficaram envolvidos pela resina e terminaram fossilizando junto com ela. O âmbar já esteve em evidência nas telas do cinema. Para lembrar um pouco o enredo do filme Parque dos Dinossauros, o DNA que gerou o ressurgimento dos dinossauros foi extraído de insetos que se alimentavam do sangue destes dinossauros e que estavam conservados em pedras de âmbar. Relembre um pouco deste filme assistindo o trailer abaixo:

A questão ética citada pela reportagem de capa retrata um pouco do cotidiano do paleontólogo chinês Xing Lida, da Universidade de Geociências da China em Pequim, que visita mercados como o Tengchong na China onde são vendidos fósseis em âmbar extraídos em zonas de mineração nas fronteiras entre a China e Mianmar, onde há um conflito pela separação de territórios.

Lida adquire fósseis no mercado negro e usa o material como testemunho de muitas de suas pesquisas, especialmente as que retratam dezenas de espécies que viveram no período Cretáceo e, cuja descrição, só foi possível porque os mesmos foram encontrados em fósseis de âmbar ou comprados de forma escusa ou emprestado por colecionadores que também os adquiriram de forma indevida.

Tanai, Estado de Kachin, no nordeste de Myanmar, é uma região muito rica em minas de âmbar, e este é o mais rico suporte para conservação de tecidos moles de animais que viveram a milhões de anos na região, segundo a paleontóloga Victoria McCoy da Universidade de Bonn na Alemanha.

Região onde são encontrados (em vermelho) e comercializados (em azul) os fósseis em âmbar. Fonte: Science.

As questões éticas permeiam vários segmentos da Ciência, mas julgar o comportamento destes cientistas é muito complicado. Só para se ter uma ideia, apenas em 2018 foram incorporados ao conhecimento científico 321 novas espécies, descritas a partir do achado nas amostras de âmbar. Só desta reunião são 1195 espécies encontradas. Seria justo para humanidade não acessar este conhecimento por que esta região é dominada por exércitos que, inclusive, usam os recursos destas minas para financiar sua atividade de guerrilha pela independência?

Cada um julgue como achar melhor. A minha opinião é que Xing Lida, que inclusive já arriscou a vida visitando as áreas de mineração de âmbar nesta zona de conflito, está fazendo sua parte em mostrar para o mundo uma riqueza do passado que é vendida no mercado negro. Ao divulgar seus resultados, Lida consegue popularizar algo que não seria acessível se não fosse sua incursão pelo mundo do crime. Para mim, Xing Lida é um herói.

Boa semana para todos (as).

Pint of Science Brasil em 2019

Hoje é o último dia de realização do maior festival internacional de divulgação científica do planeta: Pint of Science. Ao pé da letra, Pint se traduz como um determinado volume de cerveja, ou seja, uma “dose” de Ciência.

O festival é organizado por uma fundação criada por pesquisadores ingleses que sentiram a necessidade de levar ao grande público um pouco do que se faz em termos de conhecimento científico dentro das universidades. Este ano o evento atingiu números incríveis, mundo a fora: 24 países distribuídos pela Europa (13), Ásia (2), Oceania (2), Américas (6) e África (1). No Brasil 85 cidades das cinco regiões, consagrando-se como o país com o maior número de cidades onde o evento acontece nos dias 20, 21 e hoje, 22 de maio, sob a liderança da pesquisadora Natália Pasternak Taschner. Sempre três dias, em no mínimo dois bares ou restaurantes, palestras com pesquisadores de diferentes áreas falando, de forma totalmente informal, sobre ciência.

Em 2019 foi a quarta vez que o evento foi realizado no Brasil, com o sucesso estupendo de público. O evento aconteceu pela primeira vez por aqui em 2016. Gradativamente, o evento alcançou todas as regiões do país, chegando ao Nordeste em 2017, onde foi realizado em três cidades: Natal, Salvador e Teresina. Sim, o evento aconteceu por aqui por dois anos consecutivos: 2017 e 2018. Estive com mais dois pesquisadores a frente do evento. Em 2018 alcançamos por aqui um público superior a 800 pessoas nos três dias de evento em dois estabelecimentos parceiros.

Problemas de ordem organizacional, o que incluiu a falta de apoio de algumas instituições importantes, nos fez abrir mão de continuar organizando o festival aqui em Teresina. Possivelmente, liderado por outros pesquisadores, é provável que o festival retorne em 2020 aqui em Teresina: o início da divulgação do evento em nível nacional atraiu pesquisadores renomados a tentar organizar o evento este ano, mas sem tempo hábil para a organização no padrão exigido para o nível do evento.

De qualquer forma resolvi tocar no assunto porque, graças ao envolvimento na atividade de divulgação científica resolvi transformar esta relação no projeto que gerou o Blog Ciência Viva! Assim, mesmo de longe, um brinde à Ciência!!!

Posts anteriores