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COVID-19: a bola da vez se chama Ômicron

Já faz alguns dias que não escrevo sobre a pandemia de COVID-19. Mas esta semana o aparecimento de uma nova variante me incentivou a ler mais sobre o assunto e escrever para os leitores do Ciência Viva. Já até falei sobre o surgimento de novas variantes. Reveja aqui e aqui. Acho que com isso ajudo as pessoas a se prevenirem e a se tranquilizarem com as informações que temos até aqui.

Foi identificada na África do Sul uma nova variante do vírus SARS-CoV2. Inicialmente foi chamada de B.1.1.529 (códigos usados pelos pesquisadores para novas variantes do vírus). Ao se perceber que esta variante se espalhou em cinco países próximos e de forma rápida, a variante recebeu a denominação de Ômicron, a décima quinta letra do alfabeto grego, que corresponde ao “O”, no nosso alfabeto, pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Esta variante apresentou a particularidade de reunir 50 mutações, sendo 32 nas proteínas “spike”, que formam aquela estrutura que interage com a superfície das nossas células e que permite o processo de contaminação.

Não há indícios que esta nova variante seja mais perigosa do que as anteriores, mas há a preocupação de que ela, de certa forma, drible o nosso sistema imunológico, sendo, portanto, mais hábil no processo de contaminação. Além dos seis países africanos (África do Sul, Zimbábue, Botsuana, Lesoto, Namíbia e Eswatini – ex-Suazilândia) onde a variante já circula com certa desenvoltura, ela já chegou a Europa, em países como Grã-Bretanha, Holanda, Bélgica e Israel e em outros continentes como Ásia (Hong Kong) e Oceania (Austrália). Isso fez com que alguns países já começassem a se mover para impedir a chegada de voos vindos do sul da África, especialmente da África do Sul que é o país mais proeminente da região, com voos para muitos países, como é o caso do Brasil que suspenderá voos a partir de amanhã (29/11), o que não adianta muito, porque se alguém se contaminou na semana passada lá e já veio para cá, o vírus já pode até está circulando por aqui. Cito a seguir algumas providências e cuidados que devemos tomar contra esta nova variante do SARS-CoV2:

1) Providencie urgentemente atualizar sua vacina. Se não tomou a primeira dose vá atrás. Se não tomou a segunda, não falte ao agendamento. Se precisa do reforço (terceira dose) não hesite em procurar os postos de vacinação.

2) Use máscaras, especialmente nos ambientes fechados. Se puder use também nos ambientes abertos. O vírus não escolhe locais para se disseminar.

3) Lave bem as mãos e reforce o uso de álcool gel. O álcool dissolve o envelope do vírus, seja da variante ômicron ou de qualquer outra.

4) Se possível, mantenha a distância e o isolamento social.

Opa! Você pode estar pensando: o que tem de diferente? Na verdade, nada. As formas de prevenção da doença são as mesmas independente da variante que a cause. Não podemos descuidar das preocupações e medidas adotadas anteriormente. A pandemia não acabou. A doença arrefeceu por causa do avanço da vacinação. Continuemos investindo em cuidados porque prevenir é sempre melhor do que remediar.

Boa semana para todos (as).

Sobre a escolha de Reitor e Vice-Reitor na UESPI

Neste período em que a Universidade Estadual do Piauí (UESPI) passa pela escolha de seu próximo Reitor é muito importante que o Blog Ciência Viva se volte para ajudar a comunidade universitária a escolher seu próximo gestor. Apesar de ter o meu lado, pois já deixei muito clara minha posição alguns dias atrás (veja aqui), hoje prestarei um serviço importante para a comunidade universitária. Vou elencar alguns pontos relativos ao processo:

1) Sobre o processo de escolha.

A UESPI tem três segmentos de eleitores: Professores, Técnicos e Estudantes. Qualquer professor ou técnico que esteja no exercício de suas funções está apto a votar, o que inclui professores afastados para cursos de pós-graduação (apesar de não estarem dando aula, estão em efetivo exercício porque foram autorizados a se afastar). Só não votam aposentados, professores e servidores cedidos para outros órgãos e estudantes que estejam com o curso trancado ou que tenham sido desligados por desistência ou por terem se formado.

A eleição será virtual. Os eleitores receberão em seus e-mails institucionais o acesso à urna virtual. O ato de votar é protegido, portanto o direito de escolha deve ser exercido sem qualquer tipo de possibilidade de verificação ou identificação. Particularmente acredito na lisura dos membros da Comissão Eleitoral Central formada por representantes dos três segmentos e fiscalizada por representantes das duas chapas concorrentes.

2) Os escolhidos comporão uma lista tríplice que será submetida ao Governador do Estado para livre escolha a partir dos indicados pelo processo de consulta.

3) Atenção às propostas e aos procedimentos dos candidatos!

O Conselho Universitário determinou, através de Edital, o conjunto de regras eleitorais, que vão desde o processo de inscrição homologação das chapas concorrentes, passando pelo processo de conquista do eleitorado, observando-se normas para propagandas, doações de campanha, gastos comprovados, debates entre candidatos etc.

A UESPI possui unidades em Teresina e mais dez municípios de Norte a Sul do Piauí: Parnaíba, Piripiri, Campo Maior, Floriano, Oeiras, Picos, São Raimundo Nonato, Uruçuí, Bom Jesus e Corrente, sendo uma das instituições com maior capilaridade no Estado e com unidades em praticamente todos os territórios de desenvolvimento. Com a pandemia a escolha será por mecanismos virtuais e parte das campanhas também, pois a ausência de aulas presenciais coloca a estudantes e professores distantes das instalações da Universidade. [Aqui pondero aos estudantes ingressantes dos anos de 2020 e 2021, que não tiveram a oportunidade de sentir a UESPI real, que se informem com professores e colegas veteranos como é a universidade que vocês estudam de fato. Logo o período de aulas retornará e vocês serão impulsionados a conhecer melhor o lugar onde vão estudar. Todo cuidado é pouco na hora de decidir para quem vocês darão o voto!].

Dentre as propostas que estão sendo divulgadas pelos dois lados – situação e oposição – destaco com maior veemência a questão da Autonomia. Por que falo nisso de modo insistente (já escrevi sobre isso em outro momento, veja aqui)? A Autonomia Universitária foi definida pela Constituição de 1988 e ratificada pela Constituição do Piauí em 1989. Até 2014, a UESPI tinha uma autonomia parcial, porque conseguia conduzir pelo menos a parte administrativa do processo. De 2015 para cá, a administração superior deixou a desejar e até uma simples progressão ou promoção de um professor ou de um servidor, embora feita observando-se todas as regras vigentes, precisa passar pelo crivo de outros entes da gestão pública estadual. Cito como exemplo o meu próprio caso: em 2019 fui promovido de Professor Associado I para Professor Associado II. A implementação ocorreu 14 meses após o ato de mudança executado pela Universidade, pela mera falta de autonomia da mesma em efetivar seu próprio ato.

A Autonomia pode ser uma faca de dois gumes: quando a gestão é fraca ou incapaz é até melhor mesmo não ser autônoma, para evitar que erros graves ocorram no processo. Mas para UESPI crescer, atender melhor aos seus estudantes, conferindo melhores condições de trabalho aos professores e servidores, é preciso ser autônoma. Um estudo que fiz com mais dois colegas, encomendado pela Reitoria da UESPI em 2015, revelou que toda vez que parte do orçamento não é executado, o prejuízo vai para as chamadas despesas de Capital, que são os investimentos como construção de salas de aula, bibliotecas, laboratórios etc.

Para que o grande público compreenda isso em ações basta lembrar que a última grande obra executada pela UESPI começou em 2013 e foi inaugurada em 2014. Estamos em 2021. Se a Universidade levar uma média de 7 anos para edificar algo, multiplicado pelo número de unidades que a universidade tem, só lá pela segunda década do século XXII a UESPI terá todas as suas unidades edificadas.

Até lá tendo a desejar boa sorte para os que precisarem desta portentosa instituição, um dos maiores patrimônios do nosso Estado. Sinceramente, espero que passe a ser gerida de forma melhor, seja por quem quer que assuma sua próxima gestão.

Espero que tenha deixado alguns pontos mais claros para os eleitores.

Boa semana para todos (as).

De Londres para o Piauí

Esta semana está ocorrendo a 37ª Reunião Nordestina de Botânica, organizada pela Diretoria Nordeste da Sociedade Botânica do Brasil, da qual faço parte com mais três colegas botânicos (já falei disso por aqui).

A Reunião é um evento que já acontece há muitos anos, mas estava com alguns anos que não era sediada no Piauí. Com uma programação bem diversificada, calcada nas principais áreas da Botânica, o evento conta com sessão de apresentação de trabalhos científicos, concurso de fotografias, palestras, mesas redondas e minicursos, permitindo aos inscritos uma gama de oportunidades, mas de forma totalmente online. O desafio da Ciência e de outros segmentos que sofreram com o isolamento imposto pela pandemia, alterou a rotina destes eventos, acarretando algumas perdas (os participantes não viajam, não interagem presencialmente, não se confraternizam) e alguns ganhos (foi possível trazer palestrantes de diferentes lugares a custos infinitamente menores, uma vez que não se gastam com passagens, hospedagens etc.).

Na programação, a abertura do evento foi abrilhantada com a Palestra Magna proferida pelo Dr. Simon Mayo, um dos mais renomados botânicos do Planeta, principal autoridade na pesquisa de plantas da família Araceae, do grupo de pesquisadores do renomado Royal Kew Garden, o maior jardim botânico do mundo, situado na Inglaterra.

Com o título “Ciência, Sociedade e a noção de Espécies: comunicando conhecimento sobre a natureza”, Dr. Simon discorreu sobre uma das áreas máter da Botânica: a Sistemática Vegetal e os conceitos relacionados com a Evolução dos grupos de seres vivos. A Sistemática é uma parte da Botânica que reúne várias ciências com o objetivo de identificar as plantas e seus relacionamentos biológicos, sendo fundamental para quem lida com a Biodiversidade. Na sua fala, ficou muito clara sua paixão pela Botânica, sua atuação sempre presente nos estudos da Biodiversidade Brasileira e o carinho especial pelo Piauí. Logo no início falou que sua primeira grande palestra ocorreu em 1981 durante o Congresso Brasileiro de Botânica que ocorreu em Teresina e foi organizado pela Sociedade Botânica do Brasil em parceria com a Universidade Federal do Piauí (UFPI).

No chat da palestra, os elogios de estudantes e pesquisadores postados com a excitação de um evento presencial. O evento foi transmitido de Campo Maior (PI), mas o Dr. Simon estava em Londres, em tempo real. A oportunidade de oferecer um evento desta natureza para pessoas de diferentes partes do Brasil não tem preço e tem um valor inestimável. Fiquei muito feliz em ouvir o Dr. Simon e depois ter feito parte do slide em que se referenciou e agradeceu pelas parcerias aos botânicos do Piauí. Como diria o dileto amigo Alcide Filho: foi incrível!

Por mais oportunidades como esta!

Boa semana para todos (as).

 

Homenagens pelos bons serviços prestados (?!?)

A polêmica desta semana foi a devolução da Medalha da Ordem Nacional do Mérito Científico feita através de Carta Aberta assinada por 21 dos agraciados com a honraria. A entrega se deu, especialmente pela auto concessão da honraria pelo Presidente da República e para mais alguns dos seus ministros.

STOP! STOP! STOP!

Antes que os abençoados “seguimores” do líder vigente pensem qualquer coisa a meu respeito, vamos aos fatos e suas estranhezas!!!

A Medalha da Ordem Nacional do Mérito Científico foi criada em 1993 para laurear pessoas que se destacam no campo da ciência nacional. Este destaque não é e nem deve ser de natureza política (GRIFOS PARA QUE FIQUE CLARA A MINHA POSIÇÃO). Especialmente diante do notório comportamento negacionista que os auto laureados manifestam. Ao se auto proclamarem jogam-se entre os que homenageiam. Confesso que se estivesse entre os homenageados teria feito a mesma coisa. Foi uma forma de dizer: Muito obrigado, mas não somos iguais!

Já tem um tempo que observo estes movimentos de homenagens. Até hoje, como pesquisador, recebi algumas poucas homenagens. Mas queria falar sobre duas em especial, uma que reflete o real papel de pesquisador e outra que reflete o real papel das homenagens de cunho político.

Em 2008 recebi uma homenagem da Fundação Instituto Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, durante a abertura da 4ª Olimpíada de Saúde e Meio Ambiente. Como Professor Orientador de trabalhos no Ensino Médio, levava para aquela premiação, pela quarta vez consecutiva, mais um dos meus alunos. Este foi o motivo da homenagem.

Em 2014 recebi uma homenagem da Câmara Municipal de Teresina. Medalha do mérito legislativo. Fiquei muito feliz com o reconhecimento da cidade que nasci e onde sempre morei. Depois, para minha frustração, fui informado pelo Vereador que me indicou que o meu mérito maior foi ter atendido o telefone primeiro do que outro indicado por ele. Como aceitei a homenagem, ganhei (dá pra imaginar minha cara?).

Parabenizo imensamente os cientistas que através de carta aberta devolveram a homenagem. Eu não estou entre os homenageados (provavelmente nunca estarei), mas me senti representado por vocês.

Sou sempre a favor de homenagens aos que de fato merecem. Como ando descrente de tudo, ao tomar conhecimento sobre esta situação, fico feliz por saber que entre os meus pares, ainda existe muita gente íntegra.

Boa semana para todos (as).

Tá quente por que tá queimando? Ou tá queimando por que está quente?

Por: Aníbal Cantalice

Morar no Piauí e não conhecer o famoso B-R-O-BRÓ, seria quase uma heresia. A expressão vem da junção das últimas sílabas dos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro, que são os mais quentes do ano. É nessa época do ano que o piauiense se prepara para grandes ondas de calor e para as demais consequências que o período pode trazer. Dentre as consequências naturais está a falta de chuvas, alto índice de evapotranspiração (ciclo que envolve a mudança da água líquida no solo e nas plantas para a atmosfera em estado gasoso), fazendo com que o ambiente fique mais seco e propício para que aconteçam queimadas.

Queimada. Fonte: Brasil de Fato.

Então a resposta é fácil “tá queimando porque está quente!”. Se você olhar por esse lado, SIM. O que nós chamamos de inverno vai chegando, o clima vai ficando cada vez mais quente, deixando as plantas secas e o próprio calor faz com que as matas peguem fogo. Mas se o natural é assim, por que a cada ano que passa parece que se ampliam os focos de incêndio? Se você está pensando nisso, você está certo. O mês de setembro normalmente é o que apresenta o maior número de focos de incêndio. Só neste último setembro foram registrados 5106 focos de incêndios no Piauí, ou seja, um aumento de 45% quando comparado à 2020 e a 38% em relação à 2019, sendo que somente em 2010 tivemos um número de focos maior que esse¹.

O que acontece é que grande parte das queimadas são ocasionadas pelo ser humano nas mais diversas formas, desde a uma simples bituca de cigarro jogada para fora do carro em uma área com vegetação próxima até o ato de queimar a vegetação a fim de abrir espaço para a produção de gado, expansão agrícola ou apropriação de território, sendo estas três últimas as causas mais frequentes de incêndio no Piauí e no Brasil. Um dos casos mais graves e extremamente noticiado foi o incêndio que aconteceu na região do Pantanal, que teve como causa a ação humana². O aumento das queimadas ocasionados pelo ser humano, embora ocorram em áreas locais, não é uma ação única, ou seja, acontece em todo o território brasileiro e mundial.

Esse aumento de queimadas implica de diversas formas o ser humano, formas essas que às vezes não refletimos muito, ou pelo menos não nos colocamos como culpados. A principal delas é a perda da vegetação natural, que por sua vez é responsável por diversos processos ecológicos, sendo a manutenção e regulação da temperatura uma delas. Por exemplo, estudos recentes mostraram que a diminuição da vegetação entre 2000 e 2010 levaram a um aumento médio de 0.38ºC nas regiões tropicais, bem como se a devastação continuasse e tivéssemos uma perda de 50% das florestas tropicais o aumento seria entre 1.0ºC e 1.5ºC ³. Com isso, a temperatura aumenta e o ambiente fica propício para novas queimadas.

Então dessa vez parece que a resposta para a nossa pergunta seria “ta quente por que tá queimando!”. Se você olhar por esse lado, SIM. As florestas são queimadas, e por falta de árvores o balanceamento do clima é prejudicado e as temperaturas aumentam. Mas, é aí... Qual é o certo? Que lado você escolhe da história? Se essa pergunta fosse para mim, biólogo, com pesquisas em conservação da natureza e ciências sociais aplicadas, eu escolheria não ter um lado, mas sim entender que existe um processo natural que estamos intensificando, querendo ou não para o nosso bem-estar, apesar de temporário. Eu aconselharia mudarmos nossa abordagem. Começar a pensar em um bem-estar duradouro e combater esse número de queimadas que só vêm aumentando.

Para isso, precisamos nos sensibilizar que qualquer queimada precisa de supervisão adequada e antes disso de autorização dos órgãos municipais do meio ambiente, que descuidos como uma pequena bituca de cigarros ou a queima de um lixo podem gerar um grande estrago ao meio ambiente. Uma das coisas mais importantes é termos consciência que somos os culpados pelas degradações ambientais, e que somos nós que devemos reparar e mitigar as consequências da nossa existência à natureza em uma busca sensata e racional, não esperando um milagre divino ou científico como uma cura imediatista e milagrosa.

Para denunciar queimadas, você pode acionar os números da Polícia Civil (147) e Polícia Militar (190), ambos gratuitos. Para mais contatos de órgãos e entidades que cuidam de denúncias ambientais, entre em: https://www.greenpeace.org/brasil/faca-uma-denuncia-ambiental/

Vamos entrar juntos nesta luta para reduzir as queimadas?

 

 

 

¹ Banco de Dados Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE);

² Relatório da perícia do Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional (Ciman-MT)

³ PREVEDELLO, Jayme A. et al. Impacts of forestation and deforestation on local temperature across the globe. PloS one, v. 14, n. 3, p. e0213368, 2019.

 

Seu pet entende: “vamos passear?”

Dia desses assisti a um vídeo daqueles que viralizam nas redes sociais, no qual uma moça ficava falando como se estivesse se comunicando com alguém e o cachorrinho dela atrás brincando com uma almofada, enquanto ela filmava. Aí ela falou a palavra “passear” e ele parou e inclinou a cabeça como se estivesse mais atento. Em seguida ela falou a palavra “petisco” e ele continuou “prestando atenção” no diálogo dela com o smartphone. Na sequência ela falou em “praia” e ele então veio para o ombro dela.

A cena toda demonstra o quanto alguns cães são bastante inteligentes. Agora, uma pesquisa publicada na Revista Animal Cognition e repercutida na Revista Science, jogou luz no que achávamos engraçado e que, na nossa experiência com animais inteligentes concluíamos, ainda que empiricamente, que eles estavam realmente entendendo, confirmou esta premissa. Segundo a pesquisadora Andrea Sommese da Universidade Eötvös Loránd de Budapeste na Hungria, a pesquisa realizada com grupos de cães da raça Border Collie (mesma raça do Galileu, morador pet aqui da nossa casa) revelou um padrão interessante em animais treinados para buscar os seus brinquedos.

Os Border Collies responderam com mais exatidão (quando comparado com outros grupos de cães) à busca de brinquedos corretos, a partir da rotulagem feita pelo nome ensinado e quase a metade dos cães tiveram o comportamento de inclinar a cabeça quando acionados pelos comandos de voz (43%). Segundo a pesquisadora e seus assistentes o movimento, que é uma das coisas mais cativantes que os cães fazem para os seres humanos, tem como objetivo estabelecer um foco maior de atenção ao que foi mencionado no comando. Diferente do que o senso comum anunciava, de que os cães viravam a cabeça para ouvir melhor ou para perceber melhor alguns tipos de ruído.

A descoberta foi feita por acaso. O grupo que trabalha com o tema inteligência canina, procurava conhecer detalhes do comportamento de algumas raças no aprendizado de comandos, e percebeu este comportamento em alguns animais pesquisados.

Resta o video para que entendam o comportamento de como ele vira a cabeça. O “modelo” do vídeo é o Border Collie Galileu que nos foi presentado pelo Prof. Hermes Castelo Branco. Galileu chegou na nossa casa em 2016, hoje é conhecido como um “lord” (pois não gosta de se “misturar” muito com os outros visitantes pet). Tem medo de chuva (quando está dentro de casa), mas adora se molhar na chuva quando está fora de casa. Gosta muito de brincar e é um animal bastante acolhedor com todos os que visitam nossa casa.

Aproveito este post para lembrar às pessoas que gostam de cães e gatos que aproveitem a campanha de vacinação contra a Raiva. A raiva mata o animal e pode ser transmitida através da saliva a humanos. Esta “onda política” de condenação de obrigatoriedade de vacina pode matar. A Raiva é considerada uma doença incurável.

Até o próximo post.

Por que a UESPI precisa de mudança?

A Universidade Estadual do Piauí (UESPI) é uma das maiores instituições de ensino superior da esfera estadual do Brasil. Aliás é bom que se diga que já foi bem maior, com a capilaridade que alcançou o gigantesco tamanho de mais de 40 unidades, inclusive em estados vizinhos como Maranhão e a Bahia. A UESPI já chegou a ter o concurso vestibular mais disputado do país, mas isso em um passado em que, ao tempo que a expansão era audaciosa, parte do que a IES ofertava não tinha tanta qualidade, pois grande parte do corpo docente era formado por professores provisórios. Eram cerca de 150 professores efetivos e mais de 1500 provisórios. Mas mesmo sem oferecer tanta qualidade, a universidade chegou aonde seria inimaginável chegar.

Depois desta expansão, a universidade passou por uma fase de organização de seus cursos e realizou grandes concursos públicos entre 2002 e 2012, que foram bem atrativos, pois a instituição ganhou um plano de cargos, carreiras e salários. Os concursos selecionaram profissionais de diferentes partes do país, para seus mais de 20 cursos-tipo, entre licenciaturas e bacharelados, reduzindo seu tamanho apenas para municípios-polo, de Parnaíba a Corrente. Entre 2010 e 2013, a UESPI viveu seu melhor momento. Conseguiu ampliar seu orçamento e organizou todos os seus cursos de graduação, tendo ampliado sua pós-graduação de cursos lato sensu para cursos stricto sensu.

De 2014 para cá a universidade passou por uma disrupção na sua gestão. As conquistas administrativas obtidas no quadriênio anterior foram sendo gradativamente perdidas, chegando ao ponto que a mínima autonomia entrou em declínio. Os sinais fortes são visíveis: desde este período a Universidade não apresenta Biblioteca Central, por exemplo. Para se recredenciar, junto ao Conselho Estadual de Educação, assinou contratos com Bibliotecas Digitais. Passado o momento do recredenciamento, estudantes e professores não conseguiram mais acessar estas bibliotecas. Com tanto tempo de gestão ausente, as estruturas que já eram frágeis, mais frágeis se tornaram. Nem precisa falar em estruturas “sofisticadas” como laboratórios didáticos e de pesquisa. Basta precisar ir a um banheiro na Universidade para perceber que já se tem quase uma década de letargia.

A universidade passa agora por um processo de escolha de seu dirigente máximo. Ainda não estão formalizados os lados, mas de cara se posicionam o candidato da situação, com uma hashtag “uespiemfrente” e um candidato de oposição, gritando “uespiquermudança”. Sou pela mudança. Acredito que a alternância no poder pode ser uma saída para, de fato, a UESPI avançar, ir pra frente.

A disrupção fez a universidade regredir bastante, em praticamente todos os indicadores. Respeito bastante quem apoia o grupo atual, especialmente aqueles que pretendem continuar na gestão mantendo suas funções gratificadas. Faz parte. Afinal professores e técnicos estão com seus salários sem correção desde 2014. E muita gente pode dizer que a culpa é do governo ou do governador, mas o que aflige a universidade inteira é uma falta de perspectiva.

Não depende do Governador, por exemplo, a universidade ter um calendário. É o mínimo e o básico. Aliás neste quesito a UESPI passa por uma crise enorme de identidade. Não sei se os dirigentes já conseguem compreender que a UESPI é uma IES do Sistema Estadual de Ensino. Isso porque em 2020 estruturaram um calendário que não seguia as premissas básicas da LDB: o período que era pra ter 100 dias tinha pouco mais de 40 dias, porque os dirigentes se baseavam em uma normativa voltada para universidades e institutos federais. Isso é desconhecimento da lei, puro e simples. No período da pandemia a Universidade parou. Isso porque os dirigentes ficaram patinando. A IES levou 60 dias para instituir um comitê de crise para ver o que fazer. Resultado: acabou em setembro de 2021 o segundo período de 2020. Não sei se a UESPI aguenta mais quatro anos disso. O modelo tá aí. O Reitor atual diz de norte a sul que é diferente do seu aliado de antes. Manteve o mesmo grupo de dirigentes – apenas mudando a cadeira que sentam: quem sentava num tamborete foi para uma poltrona, quem sentava na poltrona foi para a espreguiçadeira. Assim caminha a UESPI.

E assim segue a universidade que comemora uma lei estadual que institucionaliza o que era para ser uma política interna. Vi a campanha: Auxílio Alimentação Estudantil agora é lei. E me perguntei: precisava um programa da universidade ter que virar lei para ser implementado? Faz falta a autonomia. Até o conceito de autonomia, parece incompreendido.

Como diria um pesquisador, amigo meu, na UESPI ninguém morre de tédio, porque todo dia tem uma coisa nova. Dificilmente positiva, mas sigo com fé, na mudança.

#uespiquermudança

Boa semana para todos (as).

 

 

AquaRio: o fundo do mar sem se molhar

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Já imaginou fazer uma visita no fundo do mar? “Nadar” entre os peixes de diferentes espécies, incluindo tubarões e arraias e observar outros animais como anêmonas-do-mar, gorgônias e corais? Uma experiência incrível, né? Você pode fazer isso em pontos de mergulho em diferentes lugares. Mas se quiser fazer isso sem se molhar fica fácil, basta visitar o AquaRIO, na Praça Muhammad Ali, Via Binário do Porto na Gamboa, Rio de Janeiro, uma área que foi requalificada para o período da Olimpíada de 2016 e é chamada de Porto Maravilha.

O AquaRio, considerado o maior aquário da América do Sul, reúne uma coleção de mais de 350 espécies vivas de diferentes animais aquáticos encontrados no mar, em um ambiente bem adequado para se aprender sobre a vida marinha, os hábitos de alguns animais deste ambiente e boas lições sobre a ecologia de algumas espécies. Uma escola diferente para se aprender sobre o mar e a vida marinha. As crianças que visitam ficam encantadas com os animais que veem nos aquários. Chamam muita atenção os exemplares de peixe-palhaço e do peixe cirurgião-patela, especialmente por causa dos personagens que se baseiam nos espécimens da vida real: Nemo e Dory, do clássico desenho da Disney.

Este foi o segundo aquário de grande porte que tive a oportunidade de visitar. Em 2014 conheci o Oceanário de Lisboa. Guardando-se as devidas proporções o AquaRio não deixa a desejar em relação ao Oceanário. No acesso ao AquaRio, o visitante inicia a visitação pelo terceiro andar e percorre o espaço em torno de vários aquários, muitos dos quais interligados, proporcionando um ambiente “natural” para os espécimens de animais presentes. Além de visualizar os animais através de paredes de vidro, num dado momento o visitante passa por um túnel de vidro, “mergulhando” literalmente no maior de todos os aquários com várias espécies de peixes, dentre eles pequenos tubarões e raias de várias espécies.

Sinta um pouco do que é visitar o maior dos aquários do AquaRIO. Imagens: F.S.Santos-Filho

Se tiver oportunidade de visitar o Rio de Janeiro não perca a chance de conhecer o AquaRio. É um passeio inesquecível e que vale a pena, especialmente para crianças de todas as idades.

Até o próximo post...

 

 

 

 

 

Mais um cientista na pista...

Aprendi com minhas professoras de jornalismo (Ana Flavia Soares, Jordana Cury e Yala Sena) que um bom título pode render muitos views, foi o que me moveu a usar o título acima, pois temos mais um cientista passando a se dedicar ao público leitor dos portais e blogs.

O Portal Cidade Verde ganhou mais um colaborador da área científica. Frise-se: mais um pesquisador que, entre suas diversas atividades, usa o espaço gentilmente cedido pelo Grupo Cidade Verde para falar um pouco da ciência que desenvolve. Faço questão de deixar claro porque este é um trabalho voluntário e sem remuneração por opção do pesquisador. Quem lida com ciência tem, entre suas missões, a tarefa de fazer atividades extensionistas, que se traduzem em transformar conhecimento acessível. Fazer transposição didática do que se ensina e se pesquisa para o público em geral. Fortalecer o acesso a todos. Uma forma de educar informalmente.

Ditas estas palavras e feitos estes esclarecimentos apresento-lhes o Prof. Dr. Marcos Lira, que assina, desde a semana passada o Blog Energia Ativa (https://cidadeverde.com/energiaativa). Marcos Antonio Tavares Lira é Doutor em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFPI; Mestre em Ciências Físicas Aplicadas pela UECE; Graduado em Engenharia Elétrica pela UFC; Graduado em Licenciatura Plena em Física pela UECE. Professor do curso de Engenharia Elétrica da UFPI e dos cursos de Mestrado em Engenharia Elétrica (UFPI), Mestrado em Climatologia (UECE) e Doutorado em Desenvolvimento e meio Ambiente (UFPI).

Conheci o Marcos Lira quando estávamos organizando o Pint of Science em 2018. Foi empatia imediata porque pensamos ciência de forma muito parecida. O Portal Cidade Verde ganhou um blogueiro preparado e os leitores vão poder tirar muitas dúvidas sobre uma questão muito importante que é a disponibilidade de energia. E a ciência também ganhou mais este divulgador. Salve, Marcos Lira!

Boa semana para todos (as).

 

 

Médico piauiense converte hobby em achados científicos

A natureza tem o poder de atrair atenções e olhares curiosos desde que o mundo é mundo. Com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, como diria o baiano Glauber Rocha, um médico piauiense resolveu ir a fundo na ideia de praticar fotografia e observar aves, e a brincadeira está virando uma coisa séria.

Furriel. Fonte: Alexandre Adad Alencar.

Com uma carreira consolidada como cardiologista e hemodinamicista, o médico piauiense Alexandre Adad resolveu “caçar” passarinho com uma arma diferente. De posse de uma câmera fotográfica moderna, Adad usa parte dos seus finais de semana buscando matas nos arredores de Teresina com a ideia de perseguir e capturar imagens das aves da nossa região, e expõe seus feitos nas redes sociais.

Pica pau de topete vermelho. Fonte: Alexandre Adad Alencar.

Só que o que começou como curiosidade domingueira causou uma inquietação: fotografar as aves e identificá-las. A busca pela identificação revelou coisas bastante interessantes. De repente, após consultar bibliografias e sites especializados, Adad começou a descobrir que algumas das aves das suas lentes tem uma distribuição para muito além das florestas estacionais deciduais de Teresina.

Choca-da-mata. Fonte: Alexandre Adad Alencar.

“Aqui tem espécies que são mapeadas para Amazônia, como o “bem-te-vi rajado” me falou quando comentei que deveria postar suas fotos também no WikiAves, um site especializado em registro de aves do Brasil. A bem da verdade muitas das aves que só tem registro para Amazônia ou para o sudeste do Brasil não tem por aqui pela simples falta de pesquisadores e outros curiosos, como Alexandre Adad. Apesar do Piauí ter expoentes da pesquisa da Avifauna do Brasil, como o biólogo Anderson Guzzi e os alunos que vem formando no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente, o PRODEMA, da UFPI, é muita diversidade para pouca gente dar conta de tanta beleza.

Ferreirinho-estriado. Fonte: Alexandre Adad Alencar.

Adad encontrou além do “bem-te-vi rajado”, um casal de choca-barrada, casaca-de-couro, ferreirinho-estriado, furriel, garrinchão-pai-avô, espécies de pica-pau e algumas aves mais comuns como cancão, canários da terra e bem-te-vis, todas em árvores das matas ainda preservadas na cidade de Teresina (PI).

Bem-te-vi-rajado. Fonte: Alexandre Adad Alencar.

A atividade de Alexandre Adad tem outros adeptos como o economista piauiense Felipe Mendes que tem brincado com as lentes de suas câmeras e compartilhado com seus amigos de redes sociais imagens incríveis. Aliás o Dr. Felipe já foi incentivado várias vezes a publicar seus achados para além do Facebook e do Instagram. Seria muito bom que tivéssemos mais “Alexandres e Felipes” para mostrar mundo afora nossas riquezas e encantos que sobrevivem à sanha de destruição das nossas matas.

Pipira-vermelha. Fonte: Alexandre Adad Alencar.

Parabéns, Dr. Alexandre Adad! Pelo seu profissionalismo como médico e agora como observador de aves.

Dr. Alexandre Adad Alencar: Fonte: Arquivo pessoal.

Bom domingo para todos (as).

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