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Estudo de pesquisadores brasileiros e franceses decifra efeito do choque entre asteroides

Ao colidirem, há bilhões de anos, alguns asteroides formaram famílias compostas por fragmentos com até centenas de quilômetros, que compartilham órbitas semelhantes.

Outros asteroides, ao entrarem em um estado de rotação muito rápida, denominada rotação crítica, desprenderam fragmentos de rocha pouco massivos, com até alguns quilômetros de diâmetro, dando origem aos chamados grupos de fissão rotacional.

Até então, os grupos de fissão conhecidos não estavam relacionados com as famílias de colisão. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Guaratinguetá, por meio de um projeto apoiado pela FAPESP, indicou, porém, que alguns deles podem ter sido originados justamente de famílias de asteroides colisionais.

Os resultados do estudo, que teve participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Université de la Côte d’Azur, da França, foram publicados na revista Nature Astronomy.

“Essas descobertas mudam a maneira como se entendia a formação de famílias de asteroides”, disse Valério Carruba, professor da Unesp de Guaratinguetá e coordenador do projeto, à Agência FAPESP.

“Até então se achava que uma família de asteroides era formada a partir de uma colisão e que os fragmentos poderiam evoluir por mecanismos gravitacionais ou não gravitacionais, permanecendo com, mais ou menos, o mesmo tamanho. Agora, observamos que a colisão não é um evento pontual e que pode gerar a formação em cascata de outros grupos”, disse Carruba.

A fim de tentar identificar possíveis grupos de fissão no interior de famílias de asteroides geradas por colisões foram selecionadas quatro famílias de asteroides jovens, formadas há menos de 4 milhões de anos: Jones, Kazuya, 2011 GB11 e Lorre.

Para identificá-las foram usados métodos de reconhecimento de famílias de asteroides baseados em simulações dinâmicas de reversão de tempo, algoritmos de agrupamento de aprendizado de máquina e dados astrométricos – de posição de órbita –, obtidos a partir de observações de objetos do Sistema Solar pela missão espacial Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês).

Análises da estrutura interna dessas quatro famílias de asteroides colisionais extremamente jovens permitiram identificar vários subgrupos em seu interior.

Ao estudá-las, os pesquisadores estimaram que 6,3% da população da família 2001 GB11, 6,7% da Jones e 13,6% da família Lorre são membros de uma subfamília secundária ou terciária, como são definidos, respectivamente, subconjuntos de asteroides formados durante a primeira colisão de um asteroide e de fragmentos dessas rochas gerados em colisões subsequentes.

Ao comparar as porcentagens de membros de famílias secundárias e terciárias com as de outras famílias de asteroides com idade maior que 100 milhões de anos, constatou-se que nessas famílias a fração de subgrupos de fissão detectáveis é menor que 5%. “Provavelmente isso tem relação com o mecanismo de formação das famílias de asteroides primárias”, disse Carruba.

Momentaneamente visíveis
Ao serem formadas, as famílias de asteroides também geram uma série de fragmentos em estado de rotação acelerada por causa da colisão ou por efeitos não gravitacionais, como o de emissão da luz do Sol, conhecida como efeito Yorp, observados em famílias mais antigas. Segundo Carruba, esses fragmentos se despedaçaram e formaram uma série de grupos de fissão que só são visíveis por um determinado período. 

“Depois de 5 a 10 milhões de anos, no máximo, esses grupos de fissão começam a se separar e não podem mais ser detectados pelos métodos que costumamos utilizar. Por isso, há uma série de grupos de fissão que se formaram no passado e que não são mais detectáveis”, disse o pesquisador. 

Carruba explica que ainda não há estimativas do período de rotação de muitos asteroides integrantes de famílias de colisão. “Esse dado permitiria averiguar quais deles também poderiam ser membros de grupos de fissão”, disse.

O artigo The population of rotational fission clusters inside asteroid collisional families (DOI: 0.1038/s41550-019-0887-8), de V. Carruba, F. Spoto, W. Barletta, S. Aljbaae, Á. L. Fazenda e B. Martins, pode ser lido por assinantes da Nature Astronomy em www.nature.com/articles/s41550-019-0887-8.

(com informações da UNESP).

Terapia gênica: passos para frente, passos para trás...

A terapia gênica é uma modalidade de tratamento ultramoderna, ainda em desenvolvimento de alguns protocolos, que tem por objetivo tratar doenças genéticas.

A ideia é simples: se você tem uma doença provocada por determinado gene (ou conjunto de genes), utilizando os recursos da terapia gênica o gene defeituoso pode ser substituído, nas células ou tecidos em que sua atuação compromete a saúde. Por exemplo: um diabético tem dificuldades de processamento da glicose, porque suas células ou não produzem quantidade suficiente de insulina (Tipo 1) ou seus receptores deixam de perceber os efeitos da insulina produzida (Tipo 2). Em um tratamento com terapia gênica, os genes responsáveis pelo dano seriam substituídos nas células dos órgãos onde eles atuam.

Para transportar o gene até a célula que o detêm os cientistas usam vetores como vírus ou outros microrganismos modificados. Um dos vetores mais utilizados é Vírus Adeno-Associado (AAV) considerado seguro por não induzir transferência do DNA que porta em cromossomos das células-alvo em que atua. Mas um estudo recente fez com que cientistas que apostavam fortemente nesse vírus pusessem suas barbas de molho.

Experimentos feitos com cães hemofílicos, tratados há um bom tempo (alguns há mais de 10 anos), revelou que o vírus causou desequilíbrio nas células alterando genes responsáveis pelo surgimento de casos de câncer. Para especialistas como o Dr. Charles Venditti, do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano, o AAV introduz um segmento de DNA flutuante que auxilia no sucesso da terapia. No caso do uso do AAV para hemofilia, como aconteceu com os cães, o vírus é direcionado para o fígado que passa a produzir um grande volume de substâncias coagulantes. A possibilidade de causar câncer gera para terapia gênica a necessidade de um freio nas pesquisas.

O Departamento que autoriza o uso de alimentos e drogas nos EUA (FDA) já tinha autorizado em 2019 o uso do AAV para o tratamento de Atrofia Muscular Espinhal em bebês. Com a possibilidade de que pode gerar câncer alguns tratamentos podem retroagir. Para alguns pesquisadores o gene transportado tem mais chance de se perder e não se incorporar ao genoma das células-alvo do que passar a fazer parte e começar a replicar-se provocando o surgimento de tumores.

De todo modo, enquanto alguns pesquisadores recuam na oferta de tratamentos experimentais usando a terapia gênica com vírus atenuados como o AAV, outros comemoram as conquistas. O interessante é que as pesquisas avançam para reduzir os efeitos provocados por doenças que antes não tinha quaisquer perspectivas de serem tratadas. Apesar da má notícia, as boas possibilidades geradas ajudam a dar esperanças para o que já trouxeram suas doenças desde quando foram gerados.

Quer saber mais sobre o assunto? Clica aqui.

Boa semana para todos (as).

 

 

Rede de repositórios

Projetos de pesquisa, além de novos conhecimentos, geram uma infinidade de dados que, se bem organizados, podem subsidiar novos estudos, originando ainda mais conhecimento.

Foi com base na maior eficiência no uso de informações de ciência que a FAPESP lançou em 16 de dezembro a Rede de Repositórios de Dados Científicos do Estado de São Paulo. A iniciativa vai disponibilizar, de modo organizado em uma plataforma aberta, dados associados às pesquisas desenvolvidas em todas as áreas do conhecimento no Estado de São Paulo.

A rede envolve as seis universidades públicas do Estado de São Paulo – Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal do ABC (UFABC) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) –, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e a Embrapa Informática Agropecuária (CNPTIA/Embrapa).

“A ciência, entendida como um bem público, exige comunicação e o acesso aos resultados de projetos de pesquisas deve ser pleno, sem restrições, para que privilégios não sejam criados. A Rede de Repositórios de Dados Científicos do Estado de São Paulo vai dar conhecimento e acesso público não só aos pesquisadores, mas também para o contribuinte paulista que paga para que pesquisas sejam realizadas no Estado de São Paulo”, disse o presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago.

Por meio da plataforma será possível ter acesso aos dados gerados em pesquisas científicas, independentemente de sua publicação em artigos científicos. Para o pesquisador que gerou os dados, a Rede de Repositórios aumenta a visibilidade da sua pesquisa, permitindo o seu compartilhamento e reúso em novas pesquisas.

Entre os exemplos de dados que estão disponibilizados na primeira versão da Rede de Repositórios de Dados Científicos do Estado de São Paulo estão um banco de dados contendo toda a rede de drenagem da hidrografia brasileira sob a forma de grafos e um repositório de imagens de sintomas de doenças de plantas disponibilizado pelo CNPTIA-Embrapa.

Open Science
“Iniciativas que buscam facilitar a integração e a colaboração entre pesquisadores têm dois resultados principais: o melhor progresso da ciência e a maior eficiência no uso de recursos que custeiam a pesquisa. A nova rede tem esse intuito. É uma iniciativa pioneira e bem sintonizada com as práticas de Open Science. Ela vai dar um grande impulso para o desenvolvimento científico do Estado de São Paulo”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

De acordo com Brito Cruz, a rede se associa a outras três iniciativas realizadas pela Fundação no âmbito de Open Science.

A primeira ocorreu em 1997, com a criação do Scientific Electronic Library Online (SciELO), plataforma que reúne periódicos brasileiros e estrangeiros de acesso aberto. A segunda, implementada em 2010, foi a recomendação de que toda pesquisa financiada com dinheiro público devesse ser publicada em periódicos de acesso aberto, de acesso gratuito. O resultado foi que, em 2018, o Brasil foi o país com o maior número de artigos científicos publicados em acesso aberto em todo o mundo.

A terceira iniciativa mencionada por Brito Cruz é o programa de equipamentos multiusuários que estimula o compartilhamento de equipamentos de alto custo entre diferentes laboratórios.

Buscador de metadados
“Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas. Estamos lançando uma iniciativa pioneira na América Latina, que vai aumentar a visibilidade da ciência no Estado de São Paulo. A colaboração entre as instituições participantes para a criação desta rede começou em 2017 a partir da exigência, pela FAPESP, de um Plano de Gestão de Dados entre os anexos obrigatórios de propostas submetidas”, disse Claudia Bauzer Medeiros, professora do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante da Coordenação Adjunta da FAPESP para o Programa de Pesquisa em eScience e Data Science.

“Um Plano de Gestão de Dados faz parte das boas práticas de pesquisa, com o planejamento, desde o início de uma proposta, sobre quais dados serão produzidos e como serão gerenciados, compartilhados e preservados”, disse Medeiros.

Medeiros, coordenadora do Grupo de Trabalho que a FAPESP instituiu para a criação da Rede, destacou o grande trabalho realizado pelas instituições participantes.

“Cada instituição desenvolveu o próprio repositório, criou grupos permanentes internos para sua gestão e trabalhou intensamente para que, ao final, todas pudessem se integrar. Esta integração é viabilizada por um portal único, que diariamente busca informações sobre os dados de cada instituição e disponibiliza essas informações [metadados] de forma integrada. O apoio institucional e o trabalho dos membros do grupo foram essenciais para chegarmos onde chegamos tão rapidamente”, disse.

O portal – um buscador de metadados  – foi desenvolvido pela USP e permite busca por instituição, autor, assunto, ano ou palavras-chave. “Essa iniciativa é um avanço enorme. Evita que muitos dados importantes, seja pela qualidade, caráter histórico ou raridade, se percam. Estamos trabalhando também na questão cultural sobre a importância de gerar esses dados”, disse Medeiros.

Participaram da cerimônia de lançamento da Rede de Repositórios Sylvio Roberto Accioly Canuto , pró-reitor de Pesquisa da USP; Maria do Carmo Kersnowsky, da UFABC; Munir Skaf, Pró-Reitor de Pesquisa da UNICAMP; Carlos Frederico de Oliveira Graeff, pró-reitor de Pesquisa da UNESP; Maryangela Geimba de Lima, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA); João Batista Fernandes, pró-reitor de Pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Lia Rita Azeredo Bittencourt, pró-reitora de Pesquisa da Unifesp; Silvia Maria Fonseca Silveira Massruhá, chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária (CPTIA/Embrapa).

Todos apresentaram como suas instituições estão desenvolvendo seus repositórios e a importância da rede para as pesquisas nelas realizadas.

(Com informações da FAPESP e da UNESP)

3ª Guerra Mundial: como seria aos olhos da tecnologia?

A polêmica da semana fica por conta de uma das maiores autoridades mundiais, o Presidente dos EUA, Donald Trump, que autorizou bombardeio e matou o importante comandante iraniano Qassem Soleimani e outras pessoas, dentre elas o líder miliciano iraquiano Abu Mahdi al-Muhandis que andava no mesmo comboio. A polêmica agora gira em torno dos apoios que cada país, supostamente, daria para os lados envolvidos na querela, com os pronunciamentos de gigantes como Rússia e China. A parte as questões de natureza política, visto que, muito recentemente o Irã descobriu enormes reservas de petróleo, o que fortaleceria economicamente o país que hoje se recupera de uma extensa guerra contra o Iraque e os seus próprios direcionamentos de natureza religiosa que mudaram fortemente a sociedade iraniana (há toda uma ideia de que a descoberta de petróleo é na verdade o estopim para esta nova desavença, o que faz todo o sentido), indago com uma questão: como seria uma guerra que envolvesse vários países num cenário de avanços tecnológicos em que vivemos?

Não custa lembrar que evoluímos bastante nossa relação com as comunicações e que a globalização pôs muita gente de todo lugar espalhada pelo mundo inteiro. Falo isso porque dada a facilidade em nos comunicarmos hoje, as informações correm e se espalham em tempo real. O mundo hoje está totalmente diferente em relação ao mundo na década de 1940, quando o avanço do Nazismo e do Fascismo fez crescer a necessidade de se invadir territórios e toda a 2ª Guerra foi traçada. Vivemos tempos muito diferentes e com tecnologias armamentistas inimagináveis. Na década de 1990, por exemplo, na guerra do Kuwait, chegou para o mundo uma tecnologia usada pelas tropas americanas para não se perder no deserto: o GPS. Logo a tecnologia usada apenas pelos exércitos passou para o domínio popular e hoje aplicativos de smartphones acessam o sistema de posicionamento global criado e utilizado atualmente com fins bélicos.

Na semana que passou a revista Science publicou um estudo realizado pelas Forças Armadas dos EUA que procuram “limpar” satélites de comunicação e outros com fins militares que estariam “contaminados” com partículas resultantes de átomos com alta capacidade radioativa, alguns destes provenientes de testes nucleares feitos na Terra, mas com forte influência nestes importantes recursos tecnológicos. Ou seja: pesquisa aplicada para aumentar as defesas que servem a praticamente todas as nações.

Um dado interessante é que a tecnologia traz outros recursos que podem ser usados nos ataques em guerras, como o que matou o general do Irã. Em seu livro “21 conselhos para o século XXI”, o israelense Yuval Harari faz uma comparação interessante: enquanto nas guerras de duas décadas atrás um bombardeiro era guiado por um piloto, que levava bombas destruidoras, mas num vacilo, poderia ser abatido por baterias de mísseis antiaéreos, na atualidade trabalha-se com Veículos Aéreos Não Tripulados, os VANTs, popularmente chamados de Drones, que podem fazer o trabalho de um piloto de caça sem, entretanto, causar perdas de vidas humanas caso seja derrubado. No caso do drone que abateu o líder iraniano trata-se de uma arma de guerra bem avançada tecnologicamente: o MQ9 Reaper (este é o nome do brinquedinho do Exército dos EUA) pode levar até uma tonelada de armas, pode ser comandado a longa distância (como este que atacou no Aeroporto de Bagdá, no Iraque, mas era pilotado de alguma base militar dos EUA) e tem uma autonomia de 27 horas. Veja abaixo um vídeo mostrando cenas como o MQ9 Reaper.

Uma coisa é certa: se se desencadeia uma guerra vamos ver muitas mortes do lado que estiver menos resguardado pela tecnologia.

Boa semana para todos (as).

Brasileiro resolve mistério de Machu Picchu

Quem já foi a Machu Picchu no Peru já deve ter feito esta pergunta: por que os Incas vieram construir uma cidade toda de pedra numa altitude de mais 2300 metros acima do nível do mar? Os Incas são os únicos povos que se tem notícia que construíram um reino em tão elevadas altitudes. Todas as grandes civilizações do mundo construíram seus impérios mais pertinho do mar.

O mistério para tão intrigante pergunta pode ter chegado ao fim graças a pesquisa de um geólogo gaúcho, Rualdo Menegat, do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Menegat teve um insight sobre a possibilidade dos Incas terem aproveitado uma falha geológica para construírem a cidade com rochas mais “moles” ou mais friáveis. A cidade de Machu Picchu fica exatamente num local com estas características. Menegat fez quatro excursões para a região e examinou várias imagens de satélite, de vários canais. Seu trabalho apresentado na Sociedade Americana de Geologia já foi publicado em 15 idiomas e ganhou notoriedade em revistas como a Science.

Para o cientista brasileiro, os Incas identificaram a facilidade de conseguir água (nos aquíferos que se originavam nas rochas fraturadas) e a firmeza e facilidade em trabalhar com as rochas como vantagens para construção de tão impressionantes edificações, consideradas entre as maravilhas do Império Inca datada do Século XV.

A pesquisa do geólogo Rualdo Menegat é mais uma importante contribuição brasileira para o conhecimento mundial.

Até a próxima...

Infâncias roubadas

Pouca gente sabe para que serve e muitos passam longe de entender as funções, a importância e os métodos de trabalho de um Conselho de Educação. Sou membro do Conselho Estadual de Educação do Piauí desde 2008 representando o segmento da Secretaria de Estado da Educação e resolvi com este texto esclarecer algumas coisas.

Os conselhos, de uma forma geral, são órgãos de participação popular que servem para atuar no chamado controle social. No caso dos conselhos de educação, um dos objetivos principais, passa por criar normas específicas ou de orientação que ajudam a dirimir problemas de toda ordem, mas, sobretudo, atuam para garantir direitos. Muitas das normas gerais são esmiuçadas por resoluções e, por diversas vezes, o como fazer determinada função é definido por resoluções de orientação. O mais importante, como disse, é fazer valer o direito ao acesso à educação.

2020 será o meu último ano de atuação no CEE/PI. De acordo com a legislação, cada conselheiro tem direito a um mandato de quatro anos e a duas reconduções por igual período, perfazendo um total de 12 anos. Em 2019, pela confiança dos meus pares, passei pelo exercício da Presidência, que era o último degrau que pretendia subir. Não por vaidade, mas para poder ver um pouco dos bastidores e das responsabilidades na gestão do colegiado de regulação do Sistema Estadual de Educação.

O espectro de atuação do Conselho é muito amplo. A autorização de escolas públicas e privadas da Educação Básica (Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação Profissional), de escolas de redes municipais de cidades que não adquiriram sua autonomia e da educação infantil públicas e privadas situadas em municípios não autônomos, chegando até o credenciamento e recredenciamento e a autorização de funcionamento de cursos de graduação das universidades pertencentes ao Sistema Estadual de Educação (no caso do Piauí, a UESPI). Mas o foco maior, sempre, é a garantia dos direitos aos estudantes, de todos estes níveis que citei.

Em 2019 atuamos muito fortemente na garantia dos direitos das crianças que estudam nas redes municipais e também daquelas que possuem necessidades especiais, para as quais dedicamos uma atuação junto ao Ministério Público Estadual, segmento que atua nos direitos das pessoas com deficiência. Para garantia das crianças das redes municipais estabelecemos parceria com o Tribunal de Contas do Estado e teremos um ano de 2020 mais producente na oferta do direito básico à educação.

A ação do CEE, como vimos, é muito maior do que parece quando vista pelo lado de fora. O mais importante, ao garantir o direito à educação, é impedir que crianças que não nasceram em berço de ouro, ou que precisem de cuidados maiores, dadas suas particularidades, não tenham, na falta de atenção necessária, suas infâncias roubadas.

 

O Último post de 2019

Com este texto o Ciência Viva encerra sua ação em 2019. A missão de fazer a transposição didática de temas que envolvem Ciência, Meio Ambiente, Educação e Tecnologia finalizou mais um ano levando meu olhar e a minha opinião sobre tantos temas. Desejo a todos (as) os que gastam parte do seu tempo acompanhando meus textos um profícuo ano de 2020, finalizando já a segunda década do século XXI.

Forte abraço e boa semana para todos(as).

Mudanças climáticas: uma pauta sempre atual

Vez por outra a imprensa anuncia os avanços ou regressões nos acordos internacionais sobre mudanças climáticas. Outro dia o presidente do Estados Unidos anunciou a saída do país do Acordo de Paris, criando uma confusão diplomática associada às questões ambientais. Atualmente os EUA e a China lideram a emissão de poluentes na atmosfera com 18% e 20%, respectivamente.

O Acordo de Paris foi um acordo assinado por representantes de 195 países em setembro de 2015. O Acordo entrou em vigor em novembro de 2016 com a ratificação de 55 países que, juntos, representam mais de 50% dos emissores de gases que, de acordo com os cientistas que fazem parte Painel Internacional das Mudanças Climáticas, são responsáveis pelas alterações climáticas mundo afora.

Na semana que passou, em viagem de férias, pude perceber a força do tema em países que sofrem na pele as consequências das alterações climáticas. Quando chegávamos em Lisboa a aeronave não conseguiu pousar e arremeteu, nos levando para um aeroporto no sul de Portugal. Ao chegarmos no hotel os noticiários mostravam os estragos causados pelos temporais que assolaram o país com um considerável número de desabrigados e quase meio milhão de pessoas sem energia elétrica em função das fortes chuvas e o transbordamento de rios e outros cursos d’água.

Especialistas entrevistados foram enfáticos em apontar a importância dos acordos internacionais para contornar questões climáticas que envolvem o desequilíbrio entre as estações do ano. O exemplo citado foi o próprio estado português que sofre com o excesso de chuvas nas regiões norte e central e uma escassez de chuvas no sul, chegando a comprometer até a disponibilidade de água para consumo em algumas propriedades.

As mudanças em curso levam ao desequilíbrio e por isso tem-se alterações tão drásticas como excesso de chuvas em uma região e carência de chuvas em outras. O Acordo de Paris prevê a redução de emissões para que, o conjunto dos países poluidores, consigam atingir a meta de poluir menos, impedindo que a média da temperatura global alcance valores bem abaixo dos 2°C.

A nossa geração precisa olhar com cuidado estas questões, especialmente com a possibilidade de produção de fontes alternativas de energia sem comprometer o futuro da Terra. Se não tivermos estes cuidados, as próximas gerações terão sua sobrevivência comprometida.

Boa semana para todos (as).

O misterioso adereço das múmias

A semana passada a Revista Science publicou sobre um adereço estranho que aparecia nas pinturas egípcias e que os arqueólogos nunca tinham conseguido decifrar exatamente o que era, pois não encontravam nada associado junto ao corpo da múmia.

As figuras traziam imagens de pessoas com um cone, proporcionalmente do tamanho de uma xícara, na cabeça das personagens presentes em pinturas de túmulos. As teorias para explicar o adereço eram várias, todas associadas à posição social.

Em uma descoberta recente dois exemplares do adereço foram resgatados. Trata-se de um suporte feito de cera de abelha que adornava os cabelos das pessoas. Muito provavelmente traziam na mistura bálsamos que ao longo do tempo iam derretendo e mantendo a pessoa cheirosa e purificada. Todavia, testes químicos não revelaram a presença de substâncias com estas características associadas à estrutura. As descobertas arqueológicas foram na cidade de Akhetaten, onde registra-se a existência efêmera de um reinado, mas com muitas descobertas peculiares. Estes adornos foram descobertos em um túmulo com cerca de 3.300 anos de idade.

De uma forma ou de outra, os egípcios ainda guardam muitos mistérios nos seus rituais e na sua forma de relacionamento social. Ainda há muito o que se descobrir sobre este povo milenar e misterioso. Se você quiser saber mais sobre esta pesquisa acesse aqui.

Bom domingo para todos (as)

O Brasil na “PISA”

Na semana que passou a OECD divulgou a versão sumarizada do relatório com o resultado do PISA (programa internacional de avaliação de estudantes) realizado em 2018, sob a responsabilidade de Andreas Schleicher, estatístico-chefe, responsável pela coordenação da compilação de dados das provas realizadas por estudantes de 78 países, membros da OCDE ou convidados.

Para os educadores brasileiros, nos quais me incluo como um dos preocupados com os resultados dos estudantes do Brasil nenhuma novidade em termos de melhoria para qualquer dos indicadores avaliados. O PISA avalia o desempenho em Leitura (ou Letramento), Matemática e Ciências, e a nossa posição continuar beirando as últimas.

O resultado fixa a existência de nove níveis ou subníveis: Abaixo do Nível 1, Nível 1 (que subdividido em “a”, “b” e “c”), nível 2, nível 3, nível 4, nível 5 e nível 6. No certame atual o maior nível atingido foi o 4, liderado pela China (BSJZ, que representa a sigla em inglês para quatro grandes cidades chinesas, onde estão inclusas Pequim e Xangai) e por outras regiões também pertencentes à China como Macao e Hong Kong. Além destas possessões chinesas Singapura também apareceu entre os primeiros.

Os estudantes brasileiros permaneceram se arrastando entre o Nível 2 (Letramento) e o Nível 1 em Matemática e Ciências. Comparando as médias obtidas agora em 2018 com relação a 2015 tivemos crescimentos ínfimos. Em Letramento aumentamos em 1,47% a média. Em Ciências conseguimos aumentar apenas 0,75% e em Matemática o aumento foi de 1,85%. Nos três casos diferenças pouco significativas que podem refletir, por exemplo, obra do acaso.

A novidade do momento são beócios da Direita culpando a Esquerda, e os beócios da Esquerda reafirmando que agora é que vai piorar, num estica e puxa pra lá de cansativo e sem qualquer avanço em termos de resultados melhores. Os mais brincalhões conseguem fazer piada de que o nosso resultado foi ruim, mas ficamos na frente da Argentina, isso porque em Letramento nossa média foi 413 enquanto a dos portenhos foi 402, em Matemática nossa média foi de 384, enquanto os argentinos amargaram 379 e em Ciências empatamos com 404. O que não significa nenhuma vantagem, pois somos a oitava economia do Mundo enquanto a Argentina é a 22ª. Vendo por este lado estamos muito atrasados, ou pelo menos tanto quanto nos Hermanos.

Em um mundo em evolução, arrastar-se entre os piores gera uma tremenda desesperança. Na minha opinião os gestores em educação deveriam colher os bons exemplos e tentar segui-los. Já que fica difícil se comparar aos países que estão no topo da avaliação que o façam pelo menos com países mais próximos como o Chile, cujo resultado não foi tão bom (se manteve nos níveis 2 para Letramento e Ciências e no nível 1 para Matemática), mas foi muito melhor do que o dos estudantes brasileiros, de qualquer forma. Saber o que eles vêm fazendo talvez já faça uma pequena diferença, já que esta escada não dá pra subir correndo.

Até a próxima!!!

 

Estudos de uma vida inteira

No último dia 29 de novembro, no Auditório Dárdano de Andrade Lima na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), a Dra. Carmen Sílvia Zickel defendeu seu Memorial para obtenção do título de Professora Titular da UFRPE.

Esta defesa é o coroamento de uma vida inteira dedicada à pesquisa e a formação de recursos humanos, missão de muitos dos professores que fazem parte de um seleto grupo que atua nas universidades brasileiras, considerados os principais centros de produção de conhecimento e responsáveis por cerca de 95% de todo o conhecimento produzido no nosso país.

Embora massacrados pela falta de uma política de investimentos sólida e que garanta fluxo de recursos para manutenção de bolsas de cursos de formação como Mestrado e Doutorado e, ultimamente achincalhados pelo desorientado que ocupa o Ministério da Educação, são os professores que atuam nos programas de pós-graduação que retroalimentam a formação de pessoal para as universidades, num ciclo quase infinito de geração de conhecimento.

Mas quem é a Doutora Carmen Zickel?

Paulista de Campinas, torcedora da Ponte Preta e fã incondicional da Banda irlandesa U2, Carmen Zickel é bióloga com formação na área botânica formada pela UNICAMP e que desde o início dos anos 1990 se instalou na UFRPE. Começou estudando grupos de plantas, mas a sua paixão pelas praias despertou o desejo de conhecer as estratégias ecológicas das plantas no ambiente de Restinga (vegetação que ocorre na região litorânea), no qual fatores como a escassez de água, o excesso de sal no solo, os ventos, são preponderantes e limitadores da sobrevivência de muitas espécies. Carmen passou a orientar pesquisadores que atuaram em diferentes frentes de diferentes regiões do litoral nordestino.

Seus estudos e de seus discípulos registram informações dos litorais do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Bahia. Conhecimento sobre a Flora e a estrutura da vegetação dos estratos lenhoso e herbáceo, além de estudos ecológicos mais específicos traduzem o conhecimento de plantas do maior litoral do Brasil: o litoral nordestino.

Zickel tem no currículo 22 orientações de iniciação científica, 9 orientações de trabalho de conclusão de curso, além da formação de 14 doutores, 23 mestres, e duas supervisões de pós-doutorado, abrangendo temas das áreas de botânica taxonômica, ecologia vegetal e mais recentemente filogenia de grupos de plantas, com foco principalmente na família Sapotaceae que apresenta muitas plantas na lista das espécies em risco de extinção.

Faço este importante registro para meus leitores do Ciência Viva porque fui o quarto Doutor formado pela Dra. Carmen Zickel. Conheci Dra. Carmen em 1998 quando tive a oportunidade de ser aluno da disciplina de Ecologia de Campo, durante o meu Mestrado em Botânica. Em 2005 prestei concurso para ser orientado por ela no Doutorado da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e defendi minha tese no início de 2009. De lá pra cá, quase 50% de tudo o que produzi academicamente foi em parceria com ela. Em 2008 fui indicado por ela para participar de uma mesa redonda durante o Congresso Nacional de Botânica, em Natal (RN), onde tive a grande honra de dividir mesa com os maiores especialistas em Restingas do Brasil, o que considero um dos maiores desprendimento de Carmen Zickel como pesquisadora: ao invés de aceitar o convite, indicou um discípulo, o que é extremamente incomum no meio acadêmico. Isto demonstra um pouco do jeito de ser desta pesquisadora.

A UFRPE ganhou mais uma brilhante professora titular e nós, os seus discípulos, nos enchemos de orgulho. A conquista dela também é a conquista de cada um de nós. E como canta o Bono Vox: “... It’s a beautiful day / Don’t let it get away…”

Boa semana para todos (as).

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