Cidadeverde.com

Variantes do Coronavírus: você sabe como surgem e atuam?

A pandemia de COVID-19 vai ganhando contornos preocupantes quando passamos a conhecer a realidade sobre a biologia do SARS-CoV2. A imprensa anuncia o surgimento das variantes e aí resolvi falar um pouco sobre isso, para trazer informações e ajudar na compreensão do público em geral. Vou fazer isso em forma de perguntas e respostas, porque assim já notei que a compreensão melhora sobre o assunto. Vamos lá!

O que são as novas variantes do Coronavírus?

As variantes, como o próprio nome sugere, são novas formas virais. Elas resultam de mutações no material genético do vírus. De uma forma geral, o material genético é o responsável pelas características dos seres vivos. Se temos os olhos verdes, por exemplo, é porque nosso material genético conferiu esta característica. Se o material sofre mudanças, as características mudam. Assim, pegando nosso exemplo da cor dos olhos, o material genético de quem tem olhos castanhos é ligeiramente diferente de quem tem olhos verdes.

Como as novas variantes se formam?

Os vírus são parasitas celulares. Assim, para sofrer mudança em seu material genético, o vírus precisa sair contaminando mais e mais células dos seus hospedeiros, no caso aqui dos humanos. Todas as vezes que seu material genético “contamina” uma célula, está passivo de sofrer mudanças. Estas mudanças podem ser de toda a natureza, pois elas ocorrem por mecanismos aleatórios, ou seja, “na sorte”. Pode gerar mudanças que transformam os vírus em “piores” ou “melhores”. Piores seriam aqueles que ficariam defeituosos e perdessem a capacidade de se reproduzir ou de gerar problemas nos hospedeiros, o que seria muito bom para nós. Melhores se ganhassem mais poder na hora de contaminar e de se espalhar, gerando mais hospedeiros doentes, que seria ruim para nós.

As novas variantes são perigosas do que os primeiros vírus – os originais?

Não necessariamente. Como vimos na pergunta anterior pode ser que se tornem “melhores”, ou seja mais eficientes no processo de contaminação e espalhamento da doença ou não, se tornando “piores”, ou seja, mais fáceis de serem debelados por nossas defesas.

Quantas e quais variantes já foram encontradas?

Eis uma pergunta difícil de responder. Estimam-se que, atualmente, circulam cerca de 90 variantes só no Brasil. Os cientistas dividem as variantes em dois grupos: VOC (Variant of Concern, em tradução aproximada: Variante de Preocupação) e VOI (Variant of Interest, em tradução aproximada: Variante de Interesse). As mais conhecidas são as cepas: B.1.1.28; B.1.1.29 e B.1.1.33. Isso mesmo que você está entendendo: os nomes delas são formadas por combinações entre letras e números. Destas principais surgiram as que a imprensa costuma chamar com base na geografia. Por exemplo: a B.1.1.7 seria a variante da Inglaterra e a B.1.351 seria a variante da África do Sul. As duas já são consideradas VOCs. Aqui no Brasil tem a P1 que é derivada da B.1.1.28 chamada popularmente de Variante de Manaus e a P2, também derivada B.1.1.28, chamada de Variante do Rio de Janeiro. A P1 já é considerada uma VOC, enquanto a P2 ainda é considerada uma VOI. No começo de abril os cientistas identificaram a N9 que é derivada da B.1.1.33, chamada popularmente de Variante de São Paulo, e que ainda é uma VOI.

Em artigo publicado recentemente, foi revelada a existência da B.1.177, chamada de Variante da Espanha, que seria uma derivada da B.1.1.7 (Variante da Inglaterra), mas que, aparentemente deixou de circular. Artigo recente da Revista Virology identificou a existência de 17 mutações na B.1.1.7, o que pode culminar em novas variações. Nos EUA circulam as variantes B.1.427 e B.1.429, ainda com status de VOI.

Até que ponto estas variantes podem tornar as vacinas ineficazes?

Trata-se de outra pergunta bastante difícil de responder. Um dado importante é que, apesar desta “sopa de letras e números” ser complexa e imprevisível, muitas destas mutações e variações incidem sobre a mesma característica. Assim, embora com pequenas variações no agente viral, os anticorpos agiriam com a mesma eficácia. Por exemplo: das 17 mutações da Variante da Inglaterra, oito atuam sobre as espículas virais. Assim, os anticorpos para qualquer um destes oito tipos, agiriam exatamente da mesma forma, não acarretando tantos prejuízos na imunização de pacientes que estivessem sendo atacados por qualquer uma destas variações.

No fim das contas o que seria mais importante neste momento? Não relaxarmos nas medidas de isolamento social, continuarmos com cuidados usando máscaras e higienizando as mãos com álcool gel e torcendo para que cada vez mais pessoas sejam imunizadas. Quanto mais pessoas atingirem o estágio de imunização, menos os vírus circularão. Quanto menos pessoas pegarem o vírus, menos eles sofrerão mutações e, consequentemente, menos variantes surgirão.

Boa semana para todos (as).

 

O quanto perdemos

A semana que passou foi marcada por uma sobreposição de recordes de mortes em razão do descontrolado avanço da COVID-19 sobre a população brasileira, levando nosso país ao primeiro lugar em média de casos e média de mortes, num ranking absolutamente macabro, fruto de um vírus de rápida transmissão e que não perdoa a incompetência política e técnica em prover situações para combatê-lo.

Tão ruim quanto os milhares de perdas que tivemos pela COVID-19 ou por outras causas, na maioria das vezes, advinda das consequências da pandemia (muitos pacientes descontinuaram o tratamento de outras doenças que continuam fazendo estrago em muitas vidas) foi a perda lamentável do ex-prefeito Firmino Filho.

De forma prematura, este político que fez carreira na nossa cidade de Teresina, nos deixou enternecidos com sua partida. Na minha opinião, perdemos o político de maior expressão do nosso lugar. Firmino fez em quatro mandatos uma gestão administrativa calcada em uma fórmula simples, sem arrojos ou irresponsabilidades administrativas, cultivando o equilíbrio nas contas públicas sempre frágeis e provendo o que a população precisava, especialmente nos pilares de educação e saúde.

Nas suas gestões sempre optou pelo lado mais técnico, especialmente nas áreas consideradas cruciais como saúde, educação, planejamento, finanças, administração. Manteve quinhões de gestores políticos em áreas sempre menos prioritárias, para não perder a verve bem comum das gestões pós-1988, especialmente por estas bandas de cá.

Por que estou destacando a perda de Firmino? Porque em tempo de pandemia, uma crise exagerada como essa que passamos, quanto mais políticos inteligentes perdermos, pior será para todos. No fim das contas são eles que mandam, com o nosso aval. Depois de campanhas suas vitoriosas e das que apoiou, Firmino terminou sucumbindo eleitoralmente, muito provavelmente, em razão das decisões que de certa forma frearam os efeitos da pandemia na nossa cidade. Ele fez a opção pela vida, mesmo com toda a pressão dos setores que ficaram mais prejudicados. Trocou o prestígio das urnas pelo que acreditava ser mais coerente nesta experiência nova para todos: frear uma pandemia.

Fica para todos o exemplo do político que trabalhou fortemente nas áreas que discutimos aqui no Ciência Viva. Na educação soube trabalhar com técnicos capacitados e criar estratégias para demonstrar resultados claros na educação básica do município. Incentivou a ciência e tecnologia através de programas de capacitação e de incentivo aos talentos mais jovens como no Programa Lagoas Digitais, cujo nascedouro surgiu da concepção do megaprojeto das Lagoas do Norte, aproveitando alguns dos melhores pesquisadores da Ciência da Computação da UESPI como o Dr. José Bringel e o Dr. Thiago Carvalho. Na área de Meio Ambiente foi na sua gestão que muitos dos parques urbanos foram revitalizados e foi concebido o projeto do Lagoas do Norte, executado pelas gestões que o sucederam.

É impossível ficar alheio à tragédia de perda tão significativa para esta cidade e seus cidadãos. Só mesmo a politicagem mais chinfrim para não se condoer com tal perda, e ainda gastar energia ofendendo a família. Deviam reverter esta energia para trabalhar mais pela cidade que experimenta um colapso no sistema de saúde e de transporte.

Uma semana melhor do que a que passou para todos (as).

O que a pandemia me ensinou

Estes dias de pandemia tem me deixado bastante reflexivo sobre o valor de determinadas coisas, pessoas e atitudes. Venho ponderando situações que alternam meu estado entre apreensão, medo, indignação e outro sentimentos que povoam meu dia, recolhido às minhas escolhas e minhas alternativas, focadas no trabalho, mas com uma sensível perda de produtividade cerceada por todos os sentimentos que ocupam meu cotidiano. Venho aprendendo muito e queria deixar algumas coisas registradas neste espaço.

Ouvi um dia desses, de uma pessoa muito amiga, que o mais difícil na perda, provocada por esta doença terrível, é a sensação de impotência e a dificuldade em não poder sequer se despedir de quem se ama, não rompendo com o ciclo da vida, dados os riscos de contaminação.

Ouvi de um parente próximo que, o desespero provocado pela doença, faz o doente pedir pela morte, já que não há uma alternativa, quando as coisas começam a piorar bastante. Imagino como deve ser porque sofri muito com asma na infância e garanto: não tem nada pior do que puxar o ar e ele não vir.

Aprendi com uma aluna antiga, hoje médica, lamentando pela prematura morte da mãe e arrependida por ter ficado tão distante dos pais para tentar garantir uma segurança que não existe, porque ainda que tenha encontrado a mãe meia dúzia de vezes no ano passado, não conseguiu evitar que ela se contaminasse e partisse sem poder sequer se despedir.

Tenho refletido muito com tudo isso e fico estarrecido com o quanto as pessoas, do alto da sua mesquinhez, ainda não conseguem enxergar que a situação está muito ruim. Que defendem seus políticos de estimação, mesmo sabendo que não temos vacinas suficientes porque não foram compradas e que as vagas nos hospitais escassearam porque a hora de manter leitos extras em hospitais de campanha era agora quando um novo pico avança e elimina a todos sem distinção. Os que tem mais recursos procuram centros mais avançados. Às vezes dá certo. Às vezes, não.

Achei sórdida a atitude de empresários que pagaram por uma dose de placebo de vacina em um golpe em Minas Gerais dado por uma espertinha que enganou empresários vendendo vacina “feita” de soro fisiológico. Devem ter se sentido “passados para trás” quando tentavam passar o resto do povo pra trás.

Quero aproveitar para dizer, entre outras coisas, que não existe tratamento precoce. Que eu desejaria muito que existisse, porque seria a salvação da humanidade, neste momento em que, até os países que estão vacinando fortemente, mas não conseguiram manter por mais tempo suas medidas de restrição, estão sofrendo nova avalanche de casos, como é o caso do Chile, por exemplo.

As novas – boas e más – notícias reforçam que deveríamos estar mais atentos para este momento e aproveitar as melhores lições, pois o fato é que não está sendo fácil para ninguém. Tenho fé de que se conseguirmos avançar e atingir a imunidade de rebanho (quando tivermos de 70% a 80% de vacinados ou contaminados curados), a situação será melhor controlada.

Tenhamos fé!

Boa semana para todos (as).

Na onda das “lives”

Há um saldo bastante negativo quando comparamos o antes e o depois provocado pela pandemia de COVID-19. Perdemos muito mais do que ganhamos. A perda de vidas humanas, especialmente aqui no Brasil, onde ainda existe um considerável número de pessoas que ainda nem acredita que existe uma pandemia, até uma briga política inimaginável, entre os “vacinistas” e os “precocistas”, para não usar adjetivos mais ofensivos contra determinadas pessoas. Quando escrevo estas linhas acabamos de bater mais de 300 mil mortos. Recordes sobre recordes. O número de mortes desta última sexta-feira em todo país foi equivalente a um valor maior do que a população de 26 municípios piauienses. Li isso em uma rede social e fiquei mais triste.

Das coisas boas que aconteceram, consequência desta pandemia, tem sido os cada vez mais frequentes encontros proporcionados pela internet e pelas redes sociais. Dia desses participei da banca de uma estudante de Mestrado da UFPI com um professor direto do Reino Unido. Sabe aqueles pesquisadores que você sonha em conhecer e estava “ao meu lado” na banca, ajudando a avaliar o trabalho? Isto não seria possível se não fosse esta situação na qual nos encontramos.

Outra coisa tem sido a possibilidade de dar aulas ou palestrar para pessoas geograficamente distantes e terminar contribuindo para levar a estas pessoas um pouco de conhecimento ou posições opinativas. De 09 de março, até amanhã, 29/03, terei participado de quatro encontros ao vivo discorrendo sobre temas importantes, todos relacionados ao escopo dos temas que discutimos aqui no Ciência Viva.

Mesa Redonda. Fonte: FGV.

Em 09 de março, atendendo a um convite do ex-Ministro da Educação Henrique Paim e por indicação da Diretora do Instituto Dom Barreto, Marcela Rangel, estive discutindo em uma mesa sobre Carreira Docente. Foi muito bom debater com o Secretário de Educação do município de Suzano (SP) sobre o assunto. Em 26 de março estive palestrando sobre Educação e Meio Ambiente para professores e gestores da Prefeitura Municipal de Novo Oriente do Piauí (PI), uma cidade bastante organizada e que está correndo atrás para conseguir o Selo Verde da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (SEMAR-PI).

Fonte: Secretaria de Meio Ambiente de Novo Oriente do Piauí (PI).

Ainda no dia 26 de março, só que a noite, a convite do Dr. Rodrigo Polisel, fundador do Canal Brasil Bioma, no YouTube falei um pouco sobre a Vegetação Litorânea do Nordeste do Brasil. Ajudei muitos colegas de todo o Brasil a conhecer particularidades dos ecossistemas costeiros com informações descobertas a partir da minha e de outras pesquisas às quais me associei.

Fonte: Canal Brasil Bioma

Nesta segunda, dia 29 de março, fecho o ciclo de março, desta vez falando sobre a Ciência e a onda de Negacionismo que se instalou no nosso país, agravando mais a situação da pandemia. Desta vez conversarei com o Professor Raimundo Dutra, professor da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) que sempre convida pesquisadores para discorrer sobre temas interessantes e do momento.

Fonte: Instagram do Professor Raimundo Dutra.

Enquanto as coisas não voltam ao “normal”, seguimos trabalhando na perspectiva de informar e esclarecer dentro de diferentes temas para os quais costumo a me dedicar. Penso que a divulgação científica é uma das janelas que permitirá que parte da população brasileira consiga discernir o que está acontecendo e que se jogue luz para os caminhos destes becos de escuridão. É óbvio que esta luz não atingirá a todos, pois neste contexto existem muitos cegos que não querem ver. É o pior tipo de cego que existe: aquele que não quer ver.

Se quiser assitir a conversa com o Biólogo Rodrigo Polisel acesse o vídeo abaixo:

Se quiser rever a discussão sobre Plano de Carreira Docente, acesse o vídeo abaixo:

Boa semana para todos e todas.

Um ano de incertezas

Esta semana completou um ano que nossa vida mudou radicalmente em função da pandemia causada pela COVID-19. A impressão que tenho, depois de um ano, é de que foi um pesadelo em forma de looping, que entramos e não conseguimos sair mais. Trata-se de uma impressão focada especialmente nas nossas particularidades em passar a pandemia em um país gigante e com todas as peculiaridades, como o Brasil. Explico o porquê.

A doença foi nova para todos os povos e se espalhou rapidamente por causa do tipo de transmissão, sendo a globalização uma das causas do rápido espalhamento. Da possibilidade de contato com cidadãos de regiões bem longínquas e do agente patogênico, um vírus que se difunde pelo ar e é bem aceito por células da mucosa bucal, nariz ou olhos. Como toda doença nova, foi necessário conhecer sua etiologia e criar protocolos para o tratamento e para barrar sua disseminação. Para alguns povos, detentores de hábitos como o uso de máscaras e a obediência às condutas em casos de emergências, o enfrentamento da pandemia foi bem menos traumático do que no Brasil.

Aqui, além do espalhamento da doença, tivemos que lidar com um negacionismo patrocinado por políticos importantes e pela disseminação de Fake News, especialmente utilizando-se as redes sociais - palco de ataques de lado a lado, em uma disputa que extrapolou os limites da razoabilidade. Tem sido difícil administrar a situação, especialmente quando há uma parcela razoável de mal-informados incentivando o uso de um suposto tratamento precoce que, até o momento em que escrevo este texto, não se revelou como eficaz. Pelo contrário: o próprio laboratório de um dos medicamentos usados fez questão de vir a público oficialmente para desmentir a eficácia levantada. Veja aqui.

O isolamento social necessário atingiu vários setores, em especial a economia e a educação. No tocante à economia, vindo para a realidade brasileira onde há um escorchante sistema tributário e um significativo número de ocupações informais a coisa não está sendo fácil. É muito difícil aceitar um “ficaemcasa” se você está com a geladeira vazia, ou se está sem emprego e sem perspectiva. Assim, o ideal é, quem dispor de melhores condições, estender a mão para os que mais precisam. O desaquecimento da economia e a redução dos postos informais ampliou o abismo econômico entre as pessoas.

A educação, sem qualquer dúvida, foi o mais afetado de todos os segmentos, em especial para os estudantes mais jovens. As redes e escolas de todo o país procuraram se adaptar ao novo mecanismo de aulas que combina atividades presenciais em regime de revezamento com atividades remotas. As escolas privadas têm primado pelo cumprimento dos protocolos de segurança sanitária o que, de certa forma, tem barrado a taxa de contaminação. Nas redes públicas, as atividades presenciais não puderam ainda ser retomadas. Assim, para o estudante da rede pública existe uma espécie de “salve-se quem puder”. Nas universidades, as atividades remotas têm funcionado relativamente bem, à medida do possível e nas boas graças da internet, que às vezes resolve não funcionar. Até agora não entendi por que na Universidade que eu trabalho esperou nove meses para formatar o período de aulas para atividades remotas.

Há um ano estávamos, eu e alguns membros do Conselho Estadual de Educação do Piauí, preocupados com a validação dos estudos feitos no formato remoto. Em 26 de março saiu o primeiro parecer orientando os procedimentos para o funcionamento das escolas do Sistema Estadual de Ensino. 10 dias depois do decreto que suspendeu as atividades presenciais. Em maio, entregamos à sociedade outro parecer, desta vez orientando a forma de registrar as atividades e o calendário. Nosso trabalho colocou o Piauí como um dos primeiros estados do país a se preocupar com a educação em tempos de pandemia.

Passado um ano das consequências advindas da primeira onda da COVID19 muitas coisas mudaram. Apesar do conhecimento sobre a doença e o modo de combatê-la terem se ampliado, ainda carregamos sobre os nossos ombros um período nebuloso e carregado de incertezas.

Boa semana para todos(as).

 

 

 

SARS-CoV2 da discórdia

A revista Science desta semana levanta uma questão polêmica em torno da pesquisa sobre o SARS-CoV2, o vírus causador da COVID-19. Uma pesquisadora da Universidade de Santa Cruz na Califórnia (EUA) chamada Angie Hinrichs, desenvolvedora de software que trabalha na pesquisa sobre a Evolução do vírus da maior pandemia deste século, reclamou que a empresa GISAID (que significa Global Initiative on Sharing All Influenza Data) havia bloqueado o seu acesso aos dados gratuitos sobre o SARS-CoV2. A GISAID mantêm um conjunto portentoso de informações genéticas com 700 mil amostras genômicas oriundas de 160 países do vírus da COVID-19 e de forma inexplicável vem bloqueando o acesso de alguns pesquisadores, como fez com Hinrichs em dezembro de 2020.

De acordo com nota emitida pela empresa, a GISAID alega ter a confiança de vários pesquisadores que depositaram seus dados junto à empresa. Segundo a nota, a GISAID suspende usuários quando percebe que as informações podem sair da segurança e se perder, sendo usadas para outras finalidades. O grande problema é que Hinrichs estuda o rápido mecanismo evolutivo do SARS-CoV2. O vírus já tem algumas variantes que podem comprometer a eficácia das vacinas desenvolvidas até aqui. Assim a contribuição da GISAID na pesquisa de Angie Hinrichs seria fundamental. Mas a briga aí pode ter em jogo milhões de dólares na possibilidade de descobertas que levem ao aperfeiçoamento de drogas e de novas vacinas. O grande problema é que deveriam brigar depois, porque a humanidade está precisando da descoberta agora.

 

Discórdia lá, discórdia cá...

Enquanto pesquisadores e grandes instituições disputam dados para trabalhar na solução para COVID-19, aqui no Brasil a onda de negacionismo patrocinado pelo Poder Executivo deu uma arrefecida (creio, sinceramente, que partiu de uma ação do judiciário... Mas o Ciência Viva não entra no lado político), fazendo com que já se trabalhe a ideia da Vacina como uma arma! A bem da verdade a vacina age como uma defesa para o organismo: os antígenos do vírus modificado fazem o organismo desenvolver defesas contra o vírus. Termina sendo uma arma (não seria bem um Zé Gotinha segurando uma seringa em forma de metralhadora...).

 

Uma notícia boa de verdade!

Uma outra novidade é que SourceTech Química fechou parceria com o pesquisador da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) / Universidade Federal do Piauí (UFPI), Dr. Francisco das Chagas Alves Lima, e vai bancar um aprofundamento na exploração dos alcaloides do jaborandi como falamos aqui há algumas semanas atrás. Veja aqui.

O SARS-CoV2 tem levado muitas pessoas queridas, mas tem muita gente lutando e trabalhando para ele parar de levar vantagem. Viva a Ciência! Ciência Viva!

Até o próximo post...

 

 

 

COVID-19: a avassaladora segunda onda

Desde o início da pandemia de COVID-19 já se previra a ocorrência de repetidas levas de picos de doentes e de mortes no mundo inteiro. Falava-se em achatar a curva (e nós já falamos disso aqui) porque a velocidade das infecções sufocaria os sistemas de saúde como aconteceu em vários lugares do mundo como na Itália, para não citar outros. No Brasil não seria diferente. O descuido do início em manter as cidades funcionando como se a doença fosse uma simples “gripezinha” provocou a primeira grande explosão de casos ainda no primeiro semestre de 2020. Os governantes não perceberam a importância do fenômeno e muitos cuidaram como uma boa oportunidade de usar recursos para fins nada republicanos.

Diminuir as interações sociais, usar máscaras de proteção e higienizar bem as mãos têm sido premissas incentivadas desde o início do processo de disseminação do vírus. Uma turba de ignóbeis tem tratado estas medidas como desnecessárias. Aliás os mesmos que condenam o uso das vacinas, desconfiados do pouco tempo de maturação delas por parte de laboratórios, especialmente quando estes, com toda razão, baseados no tempo curto, não querem assumir quaisquer ônus sozinhos por causa do uso intempestivo destas vacinas, por mera necessidade de barramento da doença, como vem sendo feito e com grande sucesso nos países que assumiram a dianteira na imunização de seus cidadãos.

O Brasil, uma das maiores potências mundiais na produção de vacinas, se colocou como um dos últimos a providenciar aquisições e, em razão de uma desmedida disputa de cunho político-eleitoreiro tem colocado seus cidadãos em risco permanente: seja por não dispor de vacinas para todos, seja por incentivar o uso de medicamentos sem qualquer tipo de embasamento científico ou mesmo por não dispor de condições de atendimento médico-hospitalar em todos os lugares.

A segunda onda chegou e tem sido avassaladoramente pior do que a primeira, com um pico altíssimo de doentes e condições de acolhimento a estes doentes bem piores, visto que, em muitos lugares, os hospitais de campanha, criados como uma alternativa para suprir carências de leitos permanentes, foram desativados. Agora suspeita-se que as novas variantes do vírus estejam pegando uma parcela da população antes poupada pelas primeiras cepas virais: os mais jovens. Esta tendência é explicada pela seleção natural. Se o vírus de uma cepa interrompe seu ciclo matando seu hospedeiro, este vírus está fadado a ser eliminado. As mutações, permanentes alterações do material genético viral, vão proporcionando novas características aos vírus. Os vírus mutantes em organismos mais jovens podem debilitar mais estes grupos e até não eliminá-los, mas os utilizam como veículo para proliferação e continuidade do ciclo. É a natureza em curso, o tempo todo.

O grande problema é que, dada sua simplicidade, os vírus se modificam muito rapidamente. Bem mais fácil do que mudar a cabeça dos tolos e a percepção dos políticos que, mesmo no caos, não deixam tirar proveito da situação. Proveito político ou econômico. Enquanto isso o SARS-CoV2 vai vencendo a guerra com vantagem.

Pense bem ao escolher e defender políticos que são bem piores do que este vírus. O vírus pelo menos está evoluindo.

Até a próxima!

Cemitério de pets de 2000 anos é encontrado

Outro dia vi um anúncio de que Teresina ganhará um cemitério de pets, o que não me causou nenhuma surpresa visto que muitas pessoas nutrem o hábito de ter animais de estimação, gerando este tipo de demanda (a funerária). Os pets, aliás, movimentam um mercado em expansão mundo afora visto que muitas pessoas têm nos animais uma válvula de escape para preencher a solidão e o cotidiano. De fato, cães e gatos, principalmente, são companhias encantadoras.

O que parece ser uma novidade na Capital do Piauí, já existia há pelo menos 2.000 anos no Egito. Encontrado em 2011 sob o que seria um lixão romano, foi revelado mais recentemente um cemitério de pets na costa egípcia do Mar Vermelho um conjunto de 600 covas de animais domésticos. 90% das covas trazem gatos e pelo formato como foram encontrados os esqueletos, levou cientistas a acreditarem que seriam enterrados de modo proposital, e não simplesmente jogados em valas.

Gato enterrado com coleira de cobre. Fonte: Revista Science.

Alguns corpos estão enterrados em sarcófagos cerâmicos ou sob restos de tecidos. Alguns animais trazem adornos de cobre ou de ferro como se fossem colares, coleiras ou outros tipos de adornos. A pesquisa vem sendo conduzida por pesquisadores de instituições canadenses, belgas e polonesas na região de Berenice, onde funcionou na Antiguidade um agitado porto romano, por onde chegavam e partiam produtos comercializados entre a Índia, Arábia e Europa.

Gato numa espécie de "sarcófago" cerâmico. Fonte: Revista Science.

De acordo com alguns estudiosos do assunto, moradores da região de Berenice valorizavam muito o trabalho de gatos visto que, por se tratar de uma região portuária, deveriam existir muitos ratos. A relação entre o homem e os animais de estimação não é tão nova assim. Além de gatos, as covas também trazem cães e macacos, especialmente filhotes de cães ou animais do tipo “toy”.

As sociedades, por vezes, se repetem em hábitos ao longo de suas respectivas existências. A ciência está aí exatamente para elucidar estes fatos.

Boa semana para todos (as).

A alegria de aprender brincando

Se tem um segmento que ficou seriamente prejudicado neste período de pandemia foi a educação das crianças. Os mais velhos rapidamente se ajustaram e puderam ter sua rotina de aulas auxiliada pelos recursos de tela como computadores, tablets e smartphones que garantiram as aulas não presenciais com certa qualidade. Mas não os mais jovens. Os pequenos da educação infantil ou do primeiro segmento do ensino fundamental, de acordo com os especialistas, dependem de uma boa dose de afeto e um papel de atenção redobrada dos professores.

Como diria o poeta romano Lúcio Sêneca, “a educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida”, e este nível de cuidados vem sendo preocupação recorrente de professores e das organizações escolares. O ensino híbrido, sobre o qual já comentamos aqui, combina momentos presenciais com momentos de educação a distância, sempre guiados pelo protagonismo dos professores. Mas os mestres estão tendo que lidar com uma série de ferramentas novas, o que inclui um aparato tecnológico de gravar aulas e tentar incluir, o máximo possível, todas as crianças.

Em todas estas reviravoltas têm sido, de grande relevância, a adoção de metodologias ativas, que fazem com que a criança vire o protagonista do ambiente de aprendizagem, com a dificuldade de que nem sempre estão na escola, em razão da pandemia. Ampliando as possibilidades de uso de recursos do tipo mão na massa, para que as crianças, mesmo em casa, possam aprender, têm sido uma forma de inclusão, obviamente com a participação e o engajamento dos pais.

Neste contexto, algumas escolas do Brasil, passaram a contar com o serviço de plataformas como o The Lab Edu, um laboratório virtual que traz atividades no formato de experiências que podem ser feitas no ambiente escolar e que são fortemente indicadas para serem feitas em casa, dado que são atividades de mão na massa, guiadas pelo método científico e fundadas no aprendizado STEAM. O STEAM surgiu nos EUA na década de 1990 e hoje é amplamente difundido na educação de países desenvolvidos como Alemanha, França, Portugal, Singapura, Austrália e Finlândia. O STEAM reúne o aprendizado em Ciências e Matemática usando os recursos da Tecnologia, Engenharia e da Arte.

O mais interessante é que as atividades do THE LAB EDU quando encaixadas na programação pelas professoras e guiadas pelos pais na sua execução reservam para crianças momentos de deleite, pois a atividade de aprender não precisa ser dolorosa, podendo gerar momentos de descontração e brincadeiras. Faz parte da alegria de aprender brincando!

Como diria Aristóteles, um dos pilares da filosofia ocidental, “a educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces”.

Boa semana para todos (as).

As novas variantes do SARS-CoV2

Tem sido dúvida recorrente e termina sendo uma preocupação a mais para as pessoas que temem os efeitos da COVID-19 o aparecimento de novas variantes para o vírus SARS-CoV2. Hoje resolvi explicar um pouco sobre isso, e responderei perguntas que já me foram feitas por pessoas que acham que sei alguma coisa sobre o assunto. Vamos lá!

1) O que são estas tais variantes do vírus da COVID-19?

Os organismos detentores de material genético estão sujeitos a um fenômeno denominado Mutação. As mutações são eventos aleatórios que, por vezes, alteram a sequência do material genético dos organismos. O SARS-CoV 2 é um vírus que possui como material genético o RNA, um ácido nucleico formado por uma só fita, o que torna muito fácil a ocorrência de mudanças ou mutações. As novas variantes do vírus são resultantes das mutações no material genético original.

2) Quais são as causas destas mutações?

Estas mutações que ocorrem no SARS-CoV2, em geral, ocorrem por mecanismos aleatórios. O ritual de reprodução viral que o faz depender de uma célula que o hospede exerce uma influência sobre a montagem e a desmontagem do seu material genético. Nesta coisa de montar e desmontar, ele pode formar uma nova sequência, dando origem a um novo material, formando uma variante do vírus original.

 

3) Estas variantes novas são mais perigosas do que o vírus original?

Não dá para garantir que sejam mais perigosas. Dá para garantir que também são elegíveis pela seleção natural para continuar atuando sobre os hospedeiros, ou seja, contaminando-os e desenvolvendo os sintomas da doença. Na minha opinião pode até ser que as novas variantes sejam menos agressivas, visto que, na relação entre um parasita e seu hospedeiro, a morte do hospedeiro por ação do parasita bloqueia o ciclo de sobrevivência do parasita. Assim, novas variantes podem ser mais infectantes, mas creio que não sejam mais perigosas, por uma lógica coevolutiva.

 

4) A vacina serve também para as novas variantes?

Se a nova variante modificar seu material genético de modo mais discreto, é possível que a mesma vacina consiga imunizar o hospedeiro de modo bem eficiente. Se a nova variante apresentar diferenças significativas no envelope lipídico e nas espículas proteicas que o constituem (duplo envelope lipídico que forma o “corpo do vírus”), pode ser que o efeito de imunização seja menor.

 

5) As vacinas podem ser modificadas para imunizar contra as novas variantes?

Isso é totalmente possível e a ciência trabalha permanentemente para isso no caso dos vírus que sofrem muitas mutações como o vírus da Influenza. Por isso precisamos nos vacinar anualmente contra esta virose. Certamente iremos ter que nos vacinar durante muitos anos contra a COVID-19 e suas sucedâneas.

Ficamos por aqui nestas explicações. Até a próxima.

Boa semana para todos(as).

Posts anteriores