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Pesquisador brasileiro cria teste que diagnostica mais de 50 doenças

Todo pai e toda mãe já ouviram falar do teste do pezinho, um exame feito em bebês recém-nascidos que permite diagnosticar uma série de doenças, algumas que seriam fatais para o desenvolvimento pleno da criança coletando uma pequena amostra de sangue do pezinho do neném. Algumas doenças, como erros inatos do metabolismo quando diagnosticados na época certa, permitem a condução da criação do bebê com algumas restrições alimentares, por exemplo, que dar-lhe-ão uma vida praticamente normal, como é o caso da fenilcetonúria.

O médico brasileiro Antonio Condino-Neto, professor sênior do Instituto de Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) aperfeiçoou o teste do pezinho. O teste desenvolvido pelo professor Antonio abrange agora mais de 50 doenças do sistema imunológico do recém-nascido. Pelo feito, o pesquisador venceu o prêmio Dasa de Inovação Médica na categoria Inovação em Genômica, que reconheceu a importância do Projeto capitaneado pelo Professor Condino-Neto chamado Rastreio de Doenças da Imunidade pelo Teste do Pezinho, aplicado em pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), que substitui o Teste do Pezinho tradicional que diagnosticava apenas seis doenças.

O Teste do Pezinho ampliado utiliza dois biomarcadores com fragmentos de DNA TREC e KREC, subprodutos de receptores das células T e B do Sistema Imunológico. Com isso doenças mais raras, porém letais para os recém-nascidos não testados, como a Anemia de Fanconi, entram agora no rol de diagnósticos.

A contribuição do Dr. Antonio Condino-Neto vai salvar muitos crianças que, ao serem diagnosticada logo na infância, conseguirão chegar a fase adulta com menos percalços, caso não fossem diagnosticadas precocemente.

Parabéns à Ciência Brasileira!

Até o próximo post...

 

Redução de vagas

Depois que publiquei o texto falando sobre a Cota de Endereço (veja aqui), fui contatado por outras mães falando sobre a redução de vagas na Universidade Estadual do Piauí (UESPI), afinal de contas, duas importantes universidades públicas do nosso Estado, estabeleceram medidas que mexeram na quantidade de vagas para acesso ao Ensino Superior.

No caso específico da UFDPAR, ficou estabelecida uma pontuação melhorada para quem realizou e concluiu estudos em um conjunto de cidades do Piauí, Maranhão e Ceará. No caso da UESPI, o problema foi o cancelamento de um período, como consequência da falta de planejamento e da ausência de medidas, por parte da universidade, no início da pandemia de COVID-19.

A UESPI demorou muito para reagir no início da pandemia. Os semestres letivos de 2020 só iniciaram em 2021. A mídia não toca no assunto, mas na minha opinião foi uma mistura de inépcia com a eterna falta de investimentos na universidade. Lembro que na época fiquei bem incomodado com a falta de ação. Enquanto a pandemia rolava e as faculdades privadas iniciaram suas atividades de modo híbrido, na UESPI houve um “ano sabático coletivo”. Na educação básica, as secretarias de educação davam seu jeito. A UESPI, parada. O primeiro período de 2020, mesmo remoto, começou somente em janeiro de 2021.

Esta letargia teve consequências: um ano dentro do seguinte, de forma permanente. A medida de eliminar um período poderia ter sido mais bem planejada. O que aconteceu? Eliminou-se o período do calendário e, com ele, grande parte das vagas da Universidade.

A gestão universitária não é simples. Já estive na gestão e ganhei uma porção de desafetos que nem cheguei a conhecer pessoalmente. A universidade tem uma autonomia legal que não é exatamente a real. Na sua autonomia didática, a Universidade poderia suscitar alternativas que não implicassem em perdas tão grandes para comunidade. Para isso exige-se competência e coragem. Sinceramente, espero que a gestão atual consiga por os pés no chão e entender melhor sobre a importância da educação pública e correr atrás de qualidade. Se hoje existe uma reclamação pela supressão de vagas é porque a comunidade ainda valoriza a universidade pública. A Universidade deve clamar por novos estudantes. Há toda uma geração para ser formada e descoberta.

A gestão precisa valorizar mais o que a Universidade tem de melhor dentro do seu corpo técnico e docente. Me chamou atenção que a Universidade não deu qualquer importância para duas professoras brilhantes que se destacaram por estes dias. A Dra. Liana Chaib, professora do curso de Direito do Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA-UESPI) foi nomeada Ministra do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e a Dra. Iraneide Soares da Silva, professora do curso de História do Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL-UESPI) foi nomeada para Comissão de Transição do Governo Lula.

A UESPI precisa valorizar mais suas mentes brilhantes e menos suas testas brilhosas. Esta é minha opinião.

Até o próximo post...

 

Cota de endereço

Na semana que passou recebi de uma professora uma indagação sobre a decisão da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPAR) de criar cotas regionais. Ela me perguntava até que ponto a autonomia universitária permitia este tipo de atitude. Fui atrás da Resolução CONSEPE nº 102 de 01 de novembro de 2022 que “implementa o argumento da inclusão regional aos cursos de graduação da UFDPAR para os candidatos que tiverem concluído o ensino fundamental e cursado todo o ensino médio em instituições de ensino situadas no entorno da área de influência dos cursos”.

Pelo que trata a resolução, os estudantes de 21 municípios maranhenses, 36 municípios piauienses e 21 municípios cearenses teriam uma bonificação de 20% na nota do SiSU, simplesmente por terem concluído seus estudos nestes municípios conforme dispõe a ementa da Resolução que citei no parágrafo anterior. Seria justa uma medida destas?

Não sei exatamente qual o percentual de estudantes atuais da UFDPAR que pertencem a estes municípios. Se a medida foi tomada, muito provavelmente um considerável número de estudantes deve pertencer a outros municípios. Me baseio nesta afirmação respaldado nas justificativas do preâmbulo da norma, especialmente evocando o Art. 3º, Inciso III da Constituição Federal, que versa sobre a erradicação da pobreza e redução das desigualdades sociais e regionais e premissas da lei que criou a Universidade e do decreto que instituiu o REUNI.

Na minha humilde opinião, o conselho que aprovou tal medida cometeu um atentado contra as pessoas que não se enquadram na regra. Atropelou-se logo de cara a própria Constituição Federal que no seu Art. 5º diz: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes (...)” [GRIFOS MEUS].

Li a matéria no site da UFDPAR que fala em cotas. Apesar de parecido, não é a mesma coisa. As cotas sociais e raciais foram criadas para corrigir ou pelo menos tentar corrigir, a grande dívida que nosso país tem com o povo negro. Temos 300 anos de escravidão, explorando a força laboral dos negros e dando-lhes menos oportunidades. A criação destas cotas, que completaram recentemente 10 anos de adoção no país, permitiu que estas pessoas também tivessem acesso. Sou completamente favorável a esta política de ações afirmativas. Inclusive, durante todo o período que orientei iniciação científica, sempre fiz questão de receber estudantes cotistas. Nunca perdi um projeto. Pelo contrário. Formei vários estudantes como pesquisadores que hoje andam completando suas formações em cursos de Mestrado e Doutorado pelo país e muitos já no mercado de trabalho.

Acho que esta medida precisa ser melhor pensada pela UFDPAR. Trata-se de uma medida excludente e que inclusive prejudica estudantes cotistas. Esta é minha opinião.

Até o próximo post...

BQ.1: por que devemos nos preocupar com a COVID-19?

Muitas vezes pessoas que sabem que sou professor de Biologia me interpelam sobre a COVID-19 e algumas das medidas que foram ou ainda seguem em vigor como forma de prevenção da doença. Apesar de não ser a minha especialidade (estudo mais sobre Ecologia de Plantas e Ciências Ambientais) leio e procuro facilitar a vida de quem me pergunta. Esta é a principal missão do Ciência Viva. Então vamos esclarecer alguns pontos.

A BQ.1 é uma subvariante da ômicron. A variante Ômicron, sem qualquer dúvida, foi a mais virulenta das formas da COVID-19, pois conseguiu infectar muitas pessoas que tinham escapado das variantes anteriores. Felizmente, embora muito contagiosa, a ômicron se mostrou menos agressiva em termos de sintomas. Aliado a esta sintomatologia mais branda somou-se o fato de que muitas pessoas, pelo menos aqui no Brasil, já estavam devidamente imunizadas, com pelo menos duas doses (1ª dose e o reforço) quando ela começou a circular. Apesar de menos mortal, de qualquer forma, estamos falando de um agente patogênico que elege um sistema para atuar, o que de certa forma, remete para uma imprevisibilidade assustadora.

No seu processo evolutivo, o vírus vai produzindo novas variantes e subvariantes a partir de mutações em seu material genético. A cada nova infecção, o vírus pode sofrer mutações e o sucesso destas mutações permite que o vírus prolifere. As mutações podem ser bem-sucedidas ou não, sob o ponto de vista evolutivo. Para nós, a grande vantagem, é quando uma mutação destas reduz a capacidade do vírus se espalhar. E assim caminha o vírus no seu processo evolutivo. Como sua reprodução é rápida, rapidamente percebemos esta evolução em tempo real.

A natureza biológica do vírus nos permite interferir neste mecanismo de evolução. É quando nós interrompemos o ciclo reprodutivo dele. Os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios, ou seja, só conseguem se reproduzir se estiverem dentro de uma célula, pois usam os recursos das células para gerarem suas estruturas.

Deste modo, só conseguiremos estancar esta evolução dele, interrompendo o seu ciclo reprodutivo. E como fazemos isso? Nos protegendo, evitando aglomerações e nos imunizando, através do uso de vacinas.

Pense nisso, caso esta nova leva de SARS-CoV2 venha a bater novamente em nossas portas.

Até o próximo post...

A SBPC e a Ciência no Piauí

Por Raimundo Lenilde

Pensar o desenvolvimento de qualquer nação e, no caso do Brasil, de qualquer estado, é pensar em conhecimento científico e avanço tecnológico. Nesse contexto, foi realizado no dia 08 de novembro de 2022 a reunião da SBPC no Piauí com o objetivo de reativar a nossa secretaria regional da SBPC e de contribuir com discussões fundamentais para o estado do Piauí no tocante ao Desenvolvimento científico, ao avanço tecnológico, ao fortalecimento do sistema de pós-graduação no Piauí bem como as discussões sobre financiamento de pesquisas e popularização ciência.

O evento contou com a presença do Prof. Dr. Renato Janine Ribeiro, que é professor da Universidade de São Paulo, ex-ministro da educação e atual presidente da SBPC. Contou ainda com a presença dos reitores da UFPI, UESPI, representante da reitoria do IFPI e representante da FAPEPI, além de integrantes da Associação Nacional de Pós-Graduação, ANPG.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) é uma entidade civil, sem fins lucrativos ou posição político-partidária, voltada para a defesa do avanço científico e tecnológico e do desenvolvimento educacional e cultural do Brasil. Desde sua fundação, em 1948, a SBPC exerce um papel importante na expansão e no aperfeiçoamento do sistema nacional de ciência e tecnologia, bem como na difusão e popularização da ciência no País.

Sediada em São Paulo, a SBPC está presente nos demais estados brasileiros por meio de Secretarias Regionais. Representa mais de 160 sociedades científicas afiliadas e mais de 5 mil sócios ativos, entre pesquisadores, docentes, estudantes e cidadãos brasileiros interessados em ciência e tecnologia.

Anualmente, a SBPC realiza diversos eventos, de caráter nacional e regional, com o objetivo de debater políticas públicas de C&T e difundir os avanços da ciência. Por meio das Secretarias Regionais, são realizadas ainda outras atividades de difusão científica. A entidade também contribui para o debate permanente das questões relacionadas à área por meio de diversas publicações, como o Jornal da Ciência, a revista Ciência e Cultura, o portal na internet, e a edição de livros sobre temas diversos relacionados à ciência brasileira.

A avaliação da comissão organizadora quanto a realização do evento da secretaria regional da SBPC no Piauí, foi muito positiva além de muitos comentários dos presentes no auditório e de participantes de forma remota que totalizam mais de 250 participantes, tendo em vista que foram disponibilizadas 250 inscrições e todas foram preenchidas.

 

A Galeria

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  • CEE2.jpeg Ex-Presidentes do Conselho Estadual de Educação do Piauí
    Francisco Soares Santos Filho

Na semana passada, dia 27 de outubro, compareci na sede do Conselho Estadual de Educação do Piauí, a convite da Professora Gildete Milu, sua atual Presidente, para a reinauguração da Galeria dos Ex-Presidentes do Conselho Estadual de Educação. Após alguns anos que tinha sido elaborada, a galeria requeria uma restauração, pois alguns quadros estavam avariados em função de uma infiltração no período chuvoso.

O momento também requeria o ingresso de dois ex-Presidentes que não haviam sido “empossados” ao posto de ex-Presidente: Profª Margareth Santos e este professor que vos escreve.

Toda ida ao CEE-PI para mim é uma festa porque estive 12 anos a serviço daquela casa e sempre fui um conselheiro muito presente, apesar das outras muitas ocupações. Conheço praticamente todos os servidores e tenho amizade verdadeira com muitos dos atuais componentes da casa.

Para que o leitor do Ciência Viva compreenda: o CEE-PI é formado por pessoas que representam segmentos da educação e também pessoas de elevada capacidade técnica que sejam escolhidas pelo Governador do Estado, submetidas ao crivo da Assembleia Legislativa e depois empossadas por um mandato de quatro anos. Ao todo são 13 conselheiros titulares e três suplentes. O CEE-PI é responsável pela regulação de todo o sistema estadual de educação, compreendendo as redes públicas (ensino fundamental dos municípios que não possuem conselho municipal, ensino médio e educação profissional da Rede Estadual e mais o Ensino Superior da Universidade Estadual do Piauí) e privada (educação infantil nos municípios que não possuem conselho municipal e escolas da educação básica).

A nova galeria conta com estampas de 13 presidentes: Mons. José Luiz Cortêz (falecido), José Camilo da Silveira Filho (falecido), José Gayoso (falecido), Juraci Mendes, Iveline Prado, Eliana Sampaio, Socorro Cavalcanti, Wilson Seraine, Fonseca Neto, Maria Xavier, Carlos Alberto Pereira, Francisco Soares e Margareth Santos.

A solenidade foi bastante concorrida, com a presença de conselheiros, ex-conselheiros, servidores, professores e estudantes da Colégio Helvídio Nunes. Não se fez presente ao evento o Secretário Estadual de Educação e nem representante da pasta.

Na oportunidade fiz uma fala que reproduzo a seguir.

Boa semana para todos e todas.

 

[1]Sras. e Srs. Conselheiros e demais presentes,

 

Gostaria de agradecer este momento de júbilo no qual se reinaugura parte da memória do Conselho Estadual de Educação do Piauí, numa alusão expressa à Galeria com as estampas do ex-Presidentes desta casa, na presença das pessoas que mais se envolvem no cotidiano do Colegiado que são os seus membros e os seus servidores.

Trago todos a uma reflexão sobre o momento que vivemos, no qual a educação nunca foi tão necessária. Necessária inclusive para se entender que as trevas da falta de educação, que pareciam ter um caminho sem volta desde os tempos do Iluminismo, por algum motivo, que nos foge a lógica, sucumbiram a um mundo onde, de forma despudorada, os estúpidos voltaram à tona como bem ilustrou, pouco antes de sua morte, o gênio Umberto Eco: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”. Assim, reflitamos: a educação nunca foi tão importante.

A educação precisa dar passos largos rumo à universalização e fazer sentido para os que a recebem. Estamos em um mundo em evolução, no qual a tecnologia é importante, mas não é suficiente para mover-se sozinha. Precisa do componente principal que é o humano. E o humano sem a veia emancipatória da educação não passa de um animal como outro qualquer.

Vivemos um momento no qual, em escala mundial, defendem-se reformas na educação. O que foi definido desde 2011 pelo educador finlandês Pasi Sahlberg como Global Educational Reform Movement – o GERM ou Movimento Global de Reforma Educacional, bem representado pela sigla em inglês, que remete a uma “contaminação” necessária, muito mais tangida pela corrida por resultados expressos nos exames de escala mundial como o PISA, do que por qualquer outra razão.

Esta contaminação pelo GERM impõe uma carga considerável aos organismos reguladores e no caso do Brasil, aos colegiados que regulamentam as regras do jogo, especialmente na concepção de novos currículos, que gerem menos do mesmo: gerem uma escola capaz de dar significado para o estudante do que o mesmo deve aprender. Neste sentido, nos debatemos quase sempre, com o “medo” do novo. O medo de ousar. De fazer diferente, de tentar e se não der certo, recuar. A escola às vezes recua antes da hora, pelo medo de ousar. O medo de fazer diferente e os resultados não alcançarem o esperado. E quem está do lado de cá do balcão, os conselheiros que analisam os novos currículos, tem que ter o espírito do desbravador, o olhar da inovação.

Aqui aprendi muito sobre ousar. Acho que alguns dos meus pareceres mostram um pouco desta ousadia. De propor o diferente, de esperar a qualidade, mas não esperar pelo mínimo.

Aprendi com cada um dos que aqui convivi que a educação tem que prover o melhor para todos, sempre. Tive, na minha caminhada aqui, exemplos fabulosos de pessoas com quem aprendi a valorizar a regulamentação da vida escolar de estudantes, aspectos da oferta da educação especial, sábias saídas para regularização de ofertas de cursos da educação básica em instituições públicas e privadas, ou da educação superior oferecida pela Universidade Estadual do Piauí. Aqui, nesta escola, aprendi o real sentido da palavra educar. Não há um só dia que as lembranças dos 12 anos que passei como conselheiro aqui não me ajudem em uma situação do meu cotidiano de professor, do meu cotidiano de cidadão, do meu cotidiano de empreendedor na área de inovação para a educação.

Fiquei bastante feliz pelo convite para estar aqui. Desejo sucesso pleno a este Conselho e aos conselheiros que hoje servem esta Casa. Agora, temos privilégio de ter como Governador um Professor. Embora, não conheça as agruras da vivência de uma sala de aula na Rede Pública, nunca tenha necessitado viver com os recursos que sustentam nossas carreiras, é conhecedor da educação de qualidade. Teve a oportunidade de ter professores capacitados e de viver o melhor dos mundos, enquanto estudante. Rogo para que tenha a sensibilidade e o discernimento de entender que este Estado só superará seus atrasos históricos se investir de verdade na Educação. E isso passa por esta Casa.

Gratidão a todos e todas.

 

 

 

 

 

[1] Fala proferida na sessão de reinauguração da Galeria do Ex-Presidentes do Conselho Estadual de Educação do Piauí, lida no dia 27 de outubro de 2022.

Professor: orgulho ou preconceito?

Das coisas que mais me orgulho na vida: 1) ser professor; 2) do sucesso dos meus alunos; 3) de pertencer a uma família que já está na quinta geração de professores e 4) ter filhos professores. A sala de aula me proporcionou muitas coisas que considero verdadeiras preciosidades. Elementos enriquecedores para minha vida. Mas nem tudo nesta profissão é motivo de alegria e satisfação. Vou dividir com os leitores do Ciência Viva um episódio dadivoso e outro nem tanto.

Episódio 1

No início deste mês minha mãe necessitou de cuidados médicos. O sufoco da internação e de termos uma família pequena, faz com dependamos muito, uns dos outros para nos dividirmos em atenção, quando nossos pais precisam de suporte. O certo é que minha mãe precisou de uma intervenção cirúrgica e minha irmã não conseguiu falar com o médico. Para vermos os detalhes do procedimento, precisávamos conversar e, então a enfermeira me conseguiu o nome e, imediatamente, lembrei que tinha sido meu aluno, mas não tinha seu contato. Com a ajuda de amigos comuns consegui o número e meio acabrunhado incomodei-o pelo Whatsapp com o seguinte início de conversa: “Doutor, não sei se ainda lembra de mim, mas fui seu professor...” Alguns minutos se passaram e foram rompidos com um: “É claro que lembro de você, meu líder...” Tudo correu da forma esperada, com a máxima atenção devida.

Episódio 2

Regularmente recebia visita de um senhor que vendia galinha caipira e capote. Ele vinha quinzenalmente, aos sábados. Em geral comprava várias unidades das iguarias, lotando meu refrigerador, levando para meu pai ou meus filhos. Sempre foi muito tranquila a relação com este vendedor. Um dia ele apareceu na minha casa dizendo precisar de uma ajuda para adquirir uma peça para seu carro. Pediu um adiantamento que se traduzia em umas 20 peças das que me vendia. Perguntei quando viria devolver e ele disse: “dia X e pode confiar, professor!” O dia X passou, semanas, meses se passaram, e eu já tinha dado por perdido quando ele aparece para vender. Lembrei-o da dívida, e ele prontamente, descontou em produtos o que eu havia emprestado. Depois disso, nunca mais apareceu. Certo dia me encontrei com ele na rua, quase meio-dia, ainda com sua caixa de produtos lotada (acho que não tinha conseguido êxito até ali). Ele me abordou insistindo para que eu comprasse. Aí disse que não queria, e que havia perdido a confiança nele. Num ímpeto de raiva, ele se vingou: “Não vendo meus produtos para quem não tem dinheiro: você é um professorzinho sem recursos... Meus clientes são juízes, desembargadores...” e foi embora...

Como se pode ver, o senso comum, que ainda impera fortemente na nossa população, devido, principalmente à baixa escolaridade, joga o professor às traças, sem qualquer preocupação sobre o valor da nossa profissão. Já para aqueles que, puderam ter acesso e notaram o quão imprescindíveis são os professores para sua formação, para sua caminhada, sobra o reconhecimento.

Precisamos estar atentos sobre a valorização docente. A escola é a segunda casa da maioria dos jovens. Sair precocemente da escola, abre uma perspectiva gigante para a criança e adolescente, se perder no meio do caminho. O professor, embora essencial para a formação de jovens e adultos, ainda é uma classe vilipendiada. O próprio professor precisa entender da sua importância e do seu compromisso ético na função de agente de transformação da sociedade. Com o seu trabalho, um dia, poderá ser valorizado pela maioria.

A nossa profissão ainda é motivo de orgulho, mas também de preconceito.

Feliz 15 de outubro! Feliz dia do Professor e da Professora.

Até o próximo post...

E o Nobel de Medicina e Fisiologia vai para...

O Instituto Karolisnka anunciou no dia 03 de outubro o agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 2022. O escolhido foi o pesquisador sueco Svante Pääbo.

Svante Pääbo. Fonte: Instituto Max Planck.

Svante Pääbo é pesquisador radicado no Instituto Max Planck na Alemanha. Desde a década de 1990 se dedica em isolar e comparar o DNA de hominídeos. O primeiro grande desafio de Pääbo foi criar uma metodologia que permitisse estudar o DNA extraído de peças antigas, sem a possibilidade de contaminação com o DNA dos pesquisadores que manipulam o material.

Pääbo é médico e biólogo por formação, mas inicialmente dedicou sua carreira à Arqueologia. Sua pesquisa colheu frutos muito interessantes para história evolutiva do homem. É do seu grupo o desenvolvimento da Paleogenômica, o estudo dos genomas, ou conjunto de genes, de espécies já extintas. Na lista de contribuições importantes estão o Genoma do Homem de Neanderthal, um hominíneo que conviveu em paralelo à nossa espécie.

Outra grande descoberta foi a detecção do material genético de um fragmento ósseo encontrado em uma caverna na Sibéria. Apesar de ser somente um pedacinho de um dos dedos, graças à perícia da equipe de Pääbo, foi descoberto que se tratava de uma nova espécie de hominineo, que ficou conhecido como Homem de Denisova. O estudo permitiu identificar uma nova espécie (chamada de Homo longi), sem que, no entanto, tivesse qualquer informação morfológica, uma vez que a identidade foi revelada apenas molecularmente. Um estudo publicado na revista Cell em 2018, revelou que o Homem de Denisova andou contribuindo com os genomas de humanos da nossa espécie, com fortes evidências de genes em populações da Ásia e da Oceania.

Assim Svante Pääbo, pelo conjunto de sua portentosa obra, foi reconhecido como merecedor do Prêmio Nobel. Além das honrarias protocolares, embolsou cerca de R$ 4,8 milhões do fundo criado por Alfred Nobel. As contribuições para a Biologia Evolutiva do Homem foram de fato reconhecidas.

Até o próximo post...

 

 

Um matemático no poder

Neste último domingo (02 de outubro) o Brasil escolheu seus gestores e legisladores para os próximos quatro anos. A escolha foi desde os mandatários do país e dos estados, até os legisladores estaduais e federais e 1/3 da composição do Senado Federal.

No Piauí foi eleito Rafael Tajra Fonteles (PT), para suceder ao Governador Wellington Dias. Mas quem é Rafael Fonteles? Para a grande maioria dos eleitores que o escolheram, Rafael é “candidato do Wellington” ou o “menino do Lula”, como apregoaram os marqueteiros na intenção de colar o nome de um técnico que nunca tinha sido candidato a cargos eletivos, aos líderes de votos nos mais diferentes rincões do Piauí. Mas eu conheço o Rafael da forma mais legítima: por três anos fui seu professor de Ciências e Biologia na escola.

Rafael é de uma geração de ótimos alunos do Instituto Dom Barreto. Em 1997, eu trabalhava no IDB como professor de Ciências e Biologia e, logo na sexta série do Ensino Fundamental, encontrei com esta turma de bons alunos. Não eram somente estudantes que tiravam boas notas. Boas notas era consequência de uma corrida que eles mesmos estabeleciam para obtenção de resultados. Estes resultados iam além do próprio ambiente escolar, uma vez que estes meninos e meninas competiam em Olimpíadas do Conhecimento, nas mais diferentes áreas, mas com destaque para Matemática, Química e Física.

Esta turma fez o percurso escolar se destacando em praticamente tudo o que faziam. No ensino médio, já por volta de 2001/2002 (se minha memória não me trai) estes estudantes chegavam com tudo para o Vestibular e o resultado não foi diferente: muitos aprovados. Mas Rafael se destacou dos demais: diferente do que a maioria escolhia, Rafael optou por Matemática. Uma vocação que veio do berço, uma vez o Prof. Nazareno Fonteles, seu pai, era médico, mas também professor de Matemática. Rafael entrou na Universidade quebrando uma série de paradigmas. Por ser um estudante de altas habilidades, a UFPI aprovou um regime especial de avaliação por causa dele e que vem servindo a todos os estudantes com altas habilidades, até então.

No regime aprovado, nas disciplinas específicas, o estudante optava por cursá-las ou simplesmente ser avaliado por uma banca de professores que cobriam todos os conteúdos em uma única prova. Foi assim que Rafael encerrou o curso de Matemática em quatro períodos e com direito a Láurea Acadêmica, uma condecoração dada para os estudantes que terminam o curso com resultados expressivos. Uma vez me confidenciou o saudoso Prof. João Benício Melo, da grande facilidade de Rafael em lidar com temas complexos da Matemática.

O desafio de Rafael agora é outro. Com uma complexidade maior do que qualquer equação diferencial, ele tem o desafio de usar sua inteligência privilegiada para fazer desenvolver o Piauí. Sem qualquer demérito aos seus opositores, se Rafael usar sua capacidade de estancar sangrias e estimular o desenvolvimento nas áreas básicas (saúde, educação, segurança pública e infraestrutura) e no desenvolvimento econômico para geração de emprego e renda, o Piauí pode dar o salto qualitativo para além das propagandas oficiais.

Dentre os desafios, Rafael precisa conhecer a Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É importante que ele faça diferente de todos os seus antecessores com a instituição do Estado do Piauí que forma pessoas nas mais diferentes áreas. Se até o final de seu Governo, Rafael fizer uma visita ao Campus Poeta Torquato Neto, será o único que, por aproximadamente três décadas, teve a iniciativa de conhecer de perto o “chão” da Universidade.

Espero que Rafael Fonteles consiga fazer um pouco mais pelo Estado do Piauí. Ele representa o desejo popular revestido agora com uma boa dose de capacidade técnica. Sucesso!!!

Boa semana para todos (as).

Genes para sementes já existiam nas samambaias

A maior parte das plantas que conhecemos apresentam raiz, caule e folhas como órgãos vegetativos e flores, frutos e sementes como órgãos reprodutivos. Mas nem todas as plantas têm todas estas estruturas reprodutivas. As Angiospermas (Angio=vaso; Spermae=semente – sementes guardadas em um “vaso”, alusão ao fruto) são as que possuem o conjunto completo (flor, fruto e semente). Fora as angiospermas temos vários grupos de plantas que, didaticamente, são chamadas Gimnospermas (Gimno=nu; Spermae=semente), que possuem semente, possuem estruturas que fazem o papel da flor, mas não possuem frutos. As plantas que possuem sementes são chamadas de Fanerógamas ou Espermatófitas.

Completam o Reino Vegetal as plantas que não possuem sementes, chamadas didaticamente de Criptógamas, que reúnem grupos chamados de Briófitas (conhecidos popularmente como Musgos) e Pteridófitas (as mais conhecidas destes grupos são as samambaias). Feitas as apresentações iniciais voltamos para o título: samambaias – plantas sem sementes – forneceram os genes para produção de sementes das plantas com sementes!

Artigo publicado na revista Science sob o título “Genes for seeds arose early in plant evolution, ferns reveal” (Genes para sementes surgiram no início da evolução das plantas, revelam samambaias, em tradução livre) mostra que ao se montar o genoma de três espécies de samambaias e uma espécie de Cycas (um tipo de Gimnosperma) foram encontrados genes que nas samambaias participam da produção do esporo (suas estruturas reprodutivas) também estão presentes nas angiospermas atuando na estrutura das sementes e do pólen. Ou seja: o mesmo gene que regula a reprodução nas samambaias também atua nas angiospermas.

A descoberta reforçou uma ideia que já existia, mas que nunca tinha sido provada, pois praticamente não se investe na pesquisa de genomas que não tenham finalidades com aplicações comerciais. A descoberta reforça o mecanismo de linhagem evolutiva entre as plantas, especialmente no sentido de confirmar que as estruturas mais primitivas derivam estruturas mais complexas, mas visando funções similares: reprodutivas. A descoberta foi do biólogo chinês Hongzhi Kong, um dos líderes da pesquisa, pela Academia Chinesa de Ciências. Os quatro novos genomas também estão mudando as visões sobre se as plantas experimentam a transferência horizontal de genes. Sabe-se que os micróbios trocam genes o tempo todo, ajudando-os a se adaptar a novas condições, mas os organismos multicelulares pareciam emprestar genes apenas raramente. No entanto, os genomas das samambaias e cicadáceas contêm um número surpreendente de genes de bactérias e fungos. “É notável que vemos genes de origem bacteriana e fúngica em plantas vasculares”, disse Kong à Science.

Aos poucos o que antes era uma forte suspeita vai se confirmando. Assim caminha a ciência.

Boa semana para todos (as).

 

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