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Mostra de Filme VISIBILIDADE no Cinemas Teresina

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 Os versos de  Adriana Calcanhoto sobre cinema é um farol para revelar a força poderosa dessa arte: Para ver e mostrar o nunca visto, o bem, o mal, o feio e o bonito/para insultar os arrogantes e poderosos/quando ficam como cachorros dentro d’água no escuro do cinema”. E nesse sentido de descortinar horizontes e atravessar fronteiras, a Mostra VISIBILIDADE traz filmes a serem exibidos na programação do Cinemas Teresina.

A iniciativa visa instigar reflexões no Dia da Visibilidade Trans (29/01) para  pensar  as interações entre  cidadania, Direitos,  vida sociocultural  e pessoas TRANS.  A ação acontece a partir da parceria da Distribuidora Olhar, Coletivo 086 e TrincaFilmes.

 O Coordenador do Coletivo 086, Grax Medina, ressalta a importância de levar para amantes da sétima arte as vivências trans com suas dores e delícias. Ainda aponta a presença do protagonismo  Trans na produções cinematográficas: “É uma forma de mostrar que o cinema tem lugar de fala e representatividade para  pessoas trans.  Estamos em todos espaços e profissões. É uma Mostra para agregar todas pessoas em favor da Igualdade e Diversidade bem como  somar e  compartilhar experiências e saberes.”, ressalta Medina.

Para Mais Detalhes, Veja Abaixo mais informações

MOSTRA VISIBILIDADE

Data: 28/Janeiro a 3/Fevereiro_2021

Hora?rio: sempre a?s 21h

Programac?a?o:

ALICE JU?NIOR: 28/JAN; 30/Jan e 03/FEV

FABIANA: 31/JAN e 02/FEV

MARIA LUIZA: 29/JAN e 01/FEV

Local: Cinemas Teresina - Localizado no Teresina Shopping

Por Herbert Medeiros

DJ Marisa D'Amato desconstrói conceitos da Bissexualidade

Muito antenada, a DJ Marisa D’Amato resolveu desmistificar alguns conceitos que permeiam a bissexualidade. Sempre categorizada como indecisão e promiscuidade, a profissional destaca que isso é apenas uma perspectiva limitante.

“Antes de falar sobre o que é a orientação, precisamos entender que essa sigla representa MUITAS pessoas. Bissexuais são pessoas que se atraem afetivamente, sexualmente e/ou emocionalmente por pessoas de diferentes gêneros. E vale ressaltar que a Bissexualidade não é trans-excludente e nem binarista”, diz.“Ou seja, podemos sim nós atrair por pessoas trans no geral”, acrescenta.

 “Bissexuais não deixam de ser bissexuais ou são menos bissexuais independente da relação sentimental que estiver. Não é porque eu namoro com alguém do mesmo mesmo sexo que posso me considerar lésbica. A relação atual que eu me encontro não muda o fato de me sentir bissexual”, ressalta.

 

Invisibilidade

“A invisibilidade bissexual está muito presente nas nossas vidas desde o processo de aceitação até comentários bifobicos. O fato de sentirmos atração por pessoas de diferentes gêneros perante uma sociedade monossexual, ou seja, que acredita que você só pode se atrair por apenas um gênero, faz com que a sociedade nos enxergue como pessoas muitas vezes indecisas ou então vulgares. Mas a verdade é que a orientação bissexual não é sinônimo de vulgaridade e nem de indecisão”.

“A bifobia está presente dentro da comunidade LGBTQIA+ por justamente acreditarem que não somos dignos de confiança dentro uma relação sentimental. Alguns outros realmente acreditam que temos vergonha de nos assumirmos homossexuais, como se fosse de fato uma obrigação termos que escolher entre um ou outro para nos atrairmos. Muitas pessoas LGBTQIA+ descredibilizam completamente o movimento Bi nos trazendo ainda mais invisibilidade. Mal sabem que estamos todos no mesmo barco”.

 

Monogamia

O fato de nos atrairmos por pessoas de diferentes gêneros faz com que muitos acreditem que não somos fiéis a uma relação ou então que precisaremos viver numa relação poligâmica para ficarmos 100% satisfeitos. O que poucos entendem é que fidelidade é uma questão pessoal é subjetiva e não tem nenhuma relação com a orientação bissexual, assim como não somos sinônimo de poligamia. Nada contra aos relacionamentos poligâmicos, mas não tem também nenhuma relação com a bissexualidade. O que muito me impressiona são pessoas nos julgarem como infiéis como se heterossexuais, lésbicas, gays, entre outros, não traíssem seus parceiros”.

 

É preciso necessariamente gostar mais de um gênero do que de outro?

“Não existe um termômetro para seguirmos à risca que precisamos gostar o mesmo tanto de um quanto de outro. Tem pessoas que se atraem mais por homens cis, mulheres cis, pessoas não-binarias e por aí vai”, diz.

Existem pessoas trans bissexuais?

“Existem sim, inclusive uma das pessoas que me inspirou a estudar e falar hoje em dia sobre bissexualidade foi uma pessoa bissexual não-binária”, contou.

Sentir atração apenas pelo físico de uma pessoa me torna bissexual?

Pode ser que sim, ou não também. Eu acredito que sentimento é algo muito subjetivo, eu poderia afirmar que várias pessoas que eu conheço poderiam ser/são bissexuais, mas daí eu já estaria fazendo exatamente o mesmo que fazem com pessoas Bi, nos julgando e dizendo o que realmente devemos fazer/sentir e ser. Existem várias orientações e acredito que para você se identificar com alguma é necessário entender quais são elas. Não quero forçar ninguém a se assumir bissexual, mas eu posso sim usar a influência que eu tenho para dar voz ainda mais ao movimento Bi. Eu não quero converter ninguém, quero apenas que me reconheçam como quem realmente sou”, falou.

Fonte: ObservatórioG

Os 10 Compromissos das Empresas com Promoção dos Direitos LGBTI+

1. Comprometer-se, presidência e executivos, com o respeito e com a promoção dos direitos LGBTI+. 

2. Promover igualdade de oportunidades e tratamento justo às pessoas LGBTI+. 

3. Promover ambiente respeitoso, seguro e saudável para as pessoas LGBTI+. 

4. Sensibilizar e educar para o respeito aos direitos LGBTI+.

5. Estimular e apoiar a criação de grupos de afinidade LGBTI+. 

6. Promover o respeito aos direitos LGBTI+ na comunicação e marketing. 

7. Promover o respeito aos direitos LGBTI+ no planejamento de produtos, serviços e atendimento aos clientes. 

8. Promover ações de desenvolvimento profissional de pessoas do segmento LGBTI+. 

9. Promover o desenvolvimento econômico e social das pessoas LGBTI+ na cadeia de valor. 

10. Promover e apoiar ações em prol dos direitos LGBTI+ na comunidade.

 

Fonte: Fórum Brasileiros de Empresas e Direitos LGBTI+ 

Receita de Ano Novo - Carlos Drumond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido

(mal vivido talvez ou sem sentido)

para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;

novo

até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegramas?)

 

Não precisa

fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido

pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar

que por decreto de esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.

 

Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.

Poemas de Natal para saborear boas novas: fraternidade, solidariedade, prosperidade

Poesia de Natal – Cora Coralina

Enfeite a árvore de sua vida

com guirlandas de gratidão!

Coloque no coração laços de cetim rosa,

amarelo, azul, carmim,

Decore seu olhar com luzes brilhantes

estendendo as cores em seu semblante

 

Em sua lista de presentes

em cada caixinha embrulhe

um pedacinho de amor,

carinho,

ternura,

reconciliação,

perdão!

 

Tem presente de montão

no estoque do nosso coração

e não custa um tostão!

A hora é agora!

Enfeite seu interior!

Sejas diferente!

Sejas reluzente!

 

Poema de Natal, de Vinicius de Moraes

 

Para isso fomos feitos:

Para lembrar e ser lembrados

Para chorar e fazer chorar

Para enterrar os nossos mortos —

Por isso temos braços longos para os adeuses

Mãos para colher o que foi dado

Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer

Uma estrela a se apagar na treva

Um caminho entre dois túmulos —

Por isso precisamos velar

Falar baixo, pisar leve, ver

A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre um berço

Um verso, talvez de amor

Uma prece por quem se vai —

Mas que essa hora não esqueça

E por ela os nossos corações

Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre

Para a participação da poesia

Para ver a face da morte —

De repente nunca mais esperaremos…

Hoje a noite é jovem; da morte, apenas

Nascemos, imensamente.

 

O Que Fizeram do Natal, de Carlos Drummond de Andrade

Natal

O sino toca fino.

Não tem neves, não tem gelos.

Natal.

Já nasceu o deus menino.

As beatas foram ver,

Encontraram o coitadinho

(Natal)

mais o boi mais o burrinho

e lá em cima

a estrelinha alumiando.

Natal.

As beatas ajoelharam

e adoraram o deus nuzinho

mas as filhas das beatas

e os namorados das filhas

foram dançar black-bottom

nos clubes sem presépio.

 

Esperança – Mario Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas as sirenas

Todas as buzinas

Todos os reco-recos tocarem

Atira-se

E — ó delicioso voo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

Outra vez criança…

E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

 

REAPI integra ação: Bosque da Memória em Teresina - Tributo às vitimas do Covid-19

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O magistral poeta Carlos Drumond de Andrade aponta nos versos a seguir as artimanhas da realidade presente em sua concretude adversa e desafiadora, convocando a [email protected] um agir sensível ao bem coletivo: “Estou preso à vida e olho meu companheiros/Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças/Entre eles, considero a enorme realidade/O presente é tão grande, não nos afastemos/Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

A poética de Drumond alimenta ações cotidianas como o Ato Bosque de Memória Rio Parnaíba, iniciativa solidária realizada neste domingo (13) em Teresina/PI  para  lembrar as vitimas da Covid-19 e aos agentes de saúde protagonistas no enfrentamento à doença. O plantio de árvores durante o evento expressa a simbologia da vida e seus constantes fluxos eternos.    

A Rede Ambiental do Piauí(REAPI) integra a ação idealizada pelo coletivo de ONG’s da Mata Atlântica do Brasil. O evento aconteceu na Avenida Maranhão, próxima a Ponte Nova.

 

Por Herbert Medeiros

Sexo e Religião: conturbado (e violento) casamento

Fazia muita falta uma pesquisa que tratasse de maneira sistemática e isenta a relação entre o sexo, a religião e a política. Na vida religiosa há uma dimensão individual e íntima, mas também uma dimensão social de “pertencimento” ao grupo, de identidade relativamente aos “outros” – os que não partilham da mesma crença – e um amplo espaço de uso político da sexualidade, outra dimensão íntima profundamente enraizada. Através dos sentimentos religiosos e das profundas pulsões sexuais, a política encontra instrumentos poderosos de manipulação. “Tanto os mórmons do século XIX como os fundamentalistas de hoje sentiram e sentem na pele, de diversas maneiras, a necessidade que o ser humano tem de regular a vida sexual alheia segundo a sua própria convicção religiosa”, escreve o autor. Não se trata aqui de um ataque às religiões ou de divagações sobre a sexualidade, mas sim de uma análise científica dos usos deformados dessas duas dimensões tão importantes da nossa vida.

 

 

 

 

 

 

 

O norueguês Dag Endso é pesquisador da Universidade de Bergen, especialista na relação entre religião e sexualidade. O livro já foi traduzido em 11 idiomas. Pesquisa muito exaustiva, bem documentada, e escrita de forma clara, sem pedantismo e sem evitar questões escabrosas. Levanta uma dimensão em grande parte irracional dos nossos comportamentos, inclusive evidenciando o seu peso na política e nas relações sociais. A mensagem, claramente, é de tolerância, mas também de denúncia. E o resultado é preencher um espaço de conhecimento muito insuficientemente trabalhado. Alguém tem dúvidas sobre o uso político desses sentimentos pelas religiões eletrônicas modernas? Em nenhum momento se trata de um ataque à espiritualidade ou aos sentimentos amorosos, mas sim de uma explicitação de como ambos têm sido apropriados nas lutas pelo controle social e o poder político.

A questão vai muito além do cristianismo. Diz a Bíblia no Deuteronômio: “Se se encontrar um homem dormindo com uma mulher casada, todos os dois deverão morrer: o homem que dormiu com a mulher, e esta da mesma forma. ” Mas muito anterior à Bíblia, o Código de Hamurabi, igualmente escrito por inspiração divina, cerca de 1.700 anos antes de Cristo, explicita como uma mulher infiel deve sucumbir com seu amante. A busca do controle da nossa intimidade sexual se encontra nas mais variadas religiões, abrindo espaço para a discriminação. “Não devemos subestimar a segurança e a autoconfiança que resultam da possibilidade de inferiorizar outros seres humanos com base no que são e com quem fazem sexo.”

Hoje em Israel ainda se proíbe o casamento de judeus com pessoas não judias, e o hinduísmo proíbe a sexualidade entre pessoas de castas diferentes, mas com diferenças: “Homens não podem fazer sexo com mulheres de castas superiores, mas homens de castas mais altas podem fazer sexo com mulheres de castas inferiores, contanto que não se casem com elas. ” (251) O peso da sexualidade no controle interno das comunidades evangélicas, e o seu aproveitamento político são igualmente fortes, em plena era da sociedade do conhecimento. Vários países ainda condenam homossexuais à morte. É papel dos políticos interferir na intimidade dos sentimentos místicos e amorosos das pessoas e das famílias? Sem dúvida que não, mas são instrumentos políticos poderosos, como vemos no Brasil de hoje, na Turquia de Erdogan, na Polônia de Kaczynski, nos Estados Unidos e tantos outros países. É um uso oportunista tanto da sexualidade como dos sentimentos religiosos.

“Regras religiosas que definem quem pode fazer sexo com quem, sejam elas baseadas em gênero, cor, etnia, casta ou religião, têm um ponto em comum: reforçam o princípio, vital para tantas religiões, de que existem diferenças essenciais entre pessoas; reforçam a percepção de que essas diferenças são necessárias, e de que os seres humanos têm um valor vinculado à identidade que têm, ou aparentam ter. Gênero, cor da pele, etnia, casta ou religião são atributos que determinam o valor de alguém com base em uma perspectiva religiosa; regras sexuais contribuem para a manutenção desses atributos e valores. Quem quer que ouse desafiá-las não apenas causará uma ruptura dessas diferenças sagradas, mas também se excluirá desse sistema, extrapolando os limites de uma identidade que lhe é atribuída de antemão.”

A mulher costuma ser a principal vítima. “Uma pesquisa da ONU realizada no Afeganistão em 2006 mostrou, por exemplo, que cerca de metade das mulheres que estavam na prisão era sob a acusação de fazer sexo pré ou extraconjugal – mas a causa real para muitas dessas mulheres era ter sido vítima de estupro”. O Islã é a religião de quase um quarto da população mundial (1,8 bilhão de crentes). Endsjo mostra através de numerosos exemplos que a interpretação religiosa do comportamento sexual varia muito segundo os países islâmicos e suas tradições culturais, e faz-se uso dos textos religiosos de maneira diferenciada. Ou seja, a religião não é necessariamente a causa das deformações, mas sim um dos caminhos poderosos de controle da intimidade e do comportamento social e político.

A realidade evolui no mundo, e o autor mostra as mudanças em diversas religiões. “A hipótese do divórcio se tornou tão auto evidente na vida de tantos cristãos que a maioria deles nem vê problemas na condenação irrestrita que Jesus fazia a ele. A postura cristã em relação ao divórcio é, portanto, um excelente exemplo de como as proibições religiosas podem ser ignoradas por completo assim que deixam de ser relevantes para os fiéis.” (143) A distância entre o que recomendam ou proíbem as religiões e as práticas são profundas, mas a política continua a fazer amplo uso das proibições. “Somente em 2003 a Suprema Corte dos EUA invalidou as leis estaduais que proibiam o sexo oral e anal entre homens e mulheres”. (149) Obviamente os políticos fariam melhor se dedicando a construir escolas e estradas do que discutir quais posições sexuais devem ser autorizadas ou proibidas. Mas em política, apropriar-se da intimidade das pessoas funciona. 

Endsjo traz com força o argumento de que as regras religiosas constituem um vetor importante da construção de identidades, gerando o sentimento de pertencimento de que tanto precisamos, e que tanto pode excluir: “Uma regra religiosa para definir quem pode fazer sexo com quem é uma das formas mais poderosas de reforçar identidades diferentes” (248). O autor se refere a racismo sexual: “Não há dúvida de que a defesa do racismo sexual, baseada em princípios bíblicos, está viva e é extremamente resistente. ” (249) “A tendência de certos grupos de pessoas a construir e reforçar sua identidade ao perseguir e demonizar outros grupos é um conhecido fenômeno histórico e sociológico. É aqui que poderemos encontrar a rationale fundamental por trás do racismo e das perseguições religiosas, étnicas e de minorias sociais que de alguma forma discrepam da maioria… Há pessoas que se destacam e estabelecem seus objetivos somente ao demonizar e perseguir outros grupos.”

A hipocrisia que existe na aplicação das regras é impressionante, o que ajuda a entender, por exemplo, o peso histórico do racismo nos Estados Unidos. Sob pretexto de que Deus criou as raças separadas (desde Babel), proibiu-se os contatos sexuais entre elas. Mas “na prática, a proibição era voltada primeiramente ao sexo entre homens negros e mulheres brancas, e contra o reconhecimento legal de qualquer relação entre pessoas de etnias diferentes. Da mesma maneira como senhores de escravos tinham livre acesso ao corpo de suas escravas negras, homens brancos continuavam a ter assegurada a possibilidade de fazer sexo com suas empregadas domésticas. Dessa forma, a convicção religiosa e racista mostrava que não era assim tão consistente. ”

Vale a pena lembrar aqui o livro de Neil Postman, Amusing Ourselves to Death, que parte da análise dos meios de comunicação de massa para apontar a expansão da manipulação política da religião, e cita uma declaração de Billy Graham, personagem importante do showbusiness religioso: “A televisão é a ferramenta mais poderosa de comunicação já criada pelo homem. Cada um dos meus programas ‘especiais’ em horário nobre é divulgado por quase 300 estações através dos Estados Unidos e do Canadá, de forma que num único programa minha pregação atinge milhões mais do que Cristo na sua vida inteira. ” (Postman, 118). Isto era em 1983. Hoje temos muito mais TV, e temos as mídias sociais, a comunicação direcionada, a invasão da privacidade e tantas formas mais sofisticadas de manipulação.

A manipulação dos sentimentos pode ser muito lucrativa. A Forbes americana, que estuda a formação de fortunas no mundo, apresenta na sua lista de bilionários brasileiros o Edir Macedo, que ostentava em 2019 uma fortuna de 1,41 bilhão de reais. Se parasse de ganhar dinheiro e gastasse um milhão de reais por ano, levaria 1400 anos para gastar esta fortuna. E essa indústria já elege os seus políticos. (Forbes, 2020, p. 110) Na era da comunicação total e individualizada, as deformações podem atingir um patamar muito mais elevado.

E há o reverso da medalha. Em plena pandemia, em novembro de 2020, a iniciativa Economia de Francisco permitiu que milhares de jovens de mais de uma centena de países passassem três dias debatendo novos rumos para o planeta, uma outra economia, questões ambientais e de desigualdade, num processo de construção do bem comum, criando pontes entre diversas religiões, buscando novos rumos de tolerância e convívio. A igreja da libertação teve imensos impactos positivos de conscientização. Nas mais variadas religiões vemos emergir com força o resgate da espiritualidade como caminho para um mundo mais civilizado.

De toda forma, termos acesso a um estudo em profundidade de como o uso político e comercial da nossa intimidade espiritual e amorosa se manifesta nas diversas religiões e em diversas épocas, nos ajuda a entender as dinâmicas sociais e políticas no sentido mais amplo. O tema tem sido muito subestimado, inclusive ridicularizado, ou evitado pela dimensão polêmica. Endso enfrenta o desafio de maneira séria e competente, apresentando os dados, evitando as simplificações ideológicas. E o livro é muito bem escrito e traduzido, leitura que flui. Sobretudo, ajuda a entender que a política e a luta pelo poder constituem processos que vão muito além da racionalidade.

 

Fonte: Site Outras Palavras

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