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Não podemos nos cobrir de medo, diz profissional que trabalha “cara a cara” com o coronavírus

Fotos: Arquivo/Ccom


Hérlon Moraes e Izabella Pimentel
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O Laboratório Central de Saúde Pública do Piauí, o Lacen, se tornou um local de extrema importância no combate ao coronavírus no estado. É de lá que saem os resultados dos testes feitos na população que vão orientar as autoridades sanitárias a tomar decisões para conter o avanço da covid-19. O Lacen analisa amostras de todos os hospitais do Piauí, inclusive da rede privada. A média de solicitação de exames chega a 200 por dia. Diante de tantos casos positivos, quem trabalha literalmente “cara a cara” com o coronavírus não esconde o medo de levar o vírus pra casa.

“Tendo em vista que o LACEN recebe e processa todas as amostras advindas de todos os serviços de saúde do estado, e tendo em vista que atualmente estamos notando um alto percentual de amostras positivas, o laboratório torna-se ambiente de alto risco de contaminação. Isso deixa os profissionais que manipulam diretamente as amostras muito mais vulneráveis. Por conta disso, mesmo fazendo uso adequado de todos os equipamentos de proteção individual, o medo de nos contaminarmos e levarmos o vírus para nosso ambiente familiar é constante”, afirma o coordenador de Biologia Molecular do Lacen, Adelino Soares.

Adelino é mais um profissional da saúde pública que trabalha na linha de frente contra o coronavírus. Natural de Castelo do Piauí, é caçula de uma família de sete irmãos. Esposo da enfermeira Lívia Lima, com quem teve duas filhas, é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Segundo ele, trabalhar com o diagnóstico molecular para detecção do material genético do novo coronavírus, o SARS Cov2, é um desafio diário.

“Enfrentamos muitas dificuldades para cumprir nossa missão de analisar e emitir parecer sobre a presença ou ausência do vírus nas amostras analisadas. A rotina é bastante dinâmica, desempenhamos nossas atividades sempre tendo que se adaptar a mudanças em reagentes, kits, protocolos, volumes de reagentes, formas de apresentação, variados genes alvos, etc. Desse modo, todos os dias aprendemos e ensinamos coisas novas”, disse ao Cidadeverde.com.

O laboratório de biologia molecular que hoje é dedicado a atender a demanda de testes para o coronavírus, antes era responsável pelos testes de paternidade por DNA, atendendo às solicitações da Defensoria Pública, Tribunal de Justiça e Ministério Público do Estado do Piauí. Além de paternidade, o laboratório era responsável pelo serviço de diagnóstico molecular de meningites, pesquisa de genes de resistência a antimicrobianos, diagnóstico molecular de dengue, zika e chikungunyia. 

“Com a pandemia, todos esses serviços foram suspensos, visto que todos utilizariam a mesma estrutura física e equipamentos”, explica.

A equipe do Adelino é composta por sete profissionais de nível superior, incluindo biólogos, biomédicos e farmacêuticos, além de vários profissionais de nível médio. Todos em treinamento constante.

“Os maiores desafios que enfrento atualmente são: do ponto de vista profissional, manter em funcionamento um serviço que é como uma cadeia de produção, mas que precisa de um cuidado quase que paternal. Um cuidado e uma atenção quase que individualizada a cada uma das peças que entram nessa linha de produção. Todas as etapas dessa produção devem estar funcionando corretamente para que se tenha o produto final, o laudo, confiável. O acompanhamento de todas as etapas do processo é necessário para garantir a qualidade do resultado final. Do ponto de vista pessoal, o maior desafio é manter-se psicologicamente saudável, mesmo com toda a pressão. É blindar-se das notícias falsas, buscar amparo na ciência e não se deixar cobrir de medo”, afirma.

O coordenador disse que já chegou a ficar em isolamento por 14 dias após uma viagem de treinamento a Belém, no Pará, mais precisamente no Instituto Evandro Chagas.

“Foi onde recebi o treinamento para utilização do kit disponibilizado pelo Ministério da Saúde, na época, para o diagnóstico molecular do coronavírus. Cheguei a Teresina do dia 18 de março e no dia seguinte já foi implantado o diagnóstico molecular para detecção do vírus responsável pela COVID 19. Foi um período bastante difícil, existia uma pressão bastante grande no trabalho, por resultados, uma rotina árdua e ao chegar em casa não poder receber o carinho, o abraço, das pessoas que amo", lembra.

“Felizmente este período passou e, atualmente, chegar em casa depois de um dia de trabalho intenso, sem sentir nenhum sintoma que lembre a doença, é como retornar de uma longa viagem, e poder abraçar livremente as pessoas que amo, obviamente depois de seguir todo o ritual de tomar banho fora de casa e deixar as roupas e calçados também do lado de fora, como medida de prevenção. A casa, o lar, é como o paraíso, onde me sinto seguro, protegido, distante do inimigo, que é o vírus”.

O coordenador, que também se arrisca na costura e mantém uma pequena oficina de brinquedos, pede aos colegas que estão na linha de frente que sigam firmes.

“Nosso papel é extremamente importante, independente da função que desempenhamos. Nosso trabalho, e nossa responsabilidade, só aumenta a cada dia. E precisamos mostrar para a sociedade o nosso valor, o valor das instituições públicas, visto que a grande maioria das pessoas, mesmo aquelas que possuem fortunas realizam seus testes ou de familiares no laboratório público. O valor dos servidores públicos de verdade, que não se omitem em desempenhar o seu papel, mesmo com precárias condições de trabalho, remuneração defasada e sobretudo muitas vezes injusta para com aqueles mais capacitados”, finaliza.

Padrão ouro

Os exames para Covid-19 no Lacen são feitos através do PCR- considerado o  método "padrão ouro" para diagnosticar o coronavírus. Os resultados ficam prontos entre 24 a 48 horas. Atualmente não há demanda reprimida no laboratório.

Adelino explica que o Ministério da Saúde disponibilizou equipamentos de extração automatizada aos Lacens do país para ajudar os laboratórios a fazerem a extração das amostras  mais rápida e, assim, dar uma panorama mais real dos casos de Covid-19. Com isso, a capacidade de testagem foi ampliada. 

"Estamos funcionado 24 horas. O setor de recebimento de amostra, o setor de extração de amostra e o setor de virologia molecular funcionam 24 horas. As amostram que chegam estão sendo analisadas", garante o coordenador.