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A fisioterapeuta que chama paciente pelo nome e "leva" ar para quem tem Covid-19

Izabella Pimentel
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É difícil sentir a desesperadora falta de ar provocada pelo coronavírus e não reconhecer a fundamental importância deles: os fisioterapeutas. Se pelo  senso comum  o trabalho destes profissionais se resume apenas  a pedir que os pacientes movimentem braços e pernas,  saiba que são eles os personagens indispensáveis para que os doentes com Covid-19 voltem a respirar.

O #AfetoColetivo desta semana destaca o trabalho da fisioterapeuta da UTI do setor Covid-19 do Hospital Getúlio Vargas (HGV),  Denise Cardoso, 33 anos. Formada em Fisioterapia há 10 anos, a profissional acredita que o coronavírus está trazendo à tona para a sociedade  a notoriedade dos fisioterapeutas no tratamento da doença. 

Fotos:ArquivoPessoal

Denise é fisioterapeuta há 10 anos e trabalha na UTI Covid-19 do HGV

"Essa pandemia veio para mostrar para o mundo a importância que  o fisioterapeuta tem.  Não é simplesmente mexer um braço, mexer uma perna, mandar uma pessoa respirar três vezes fundo e soltar. Não. A gente toca no paciente, chega perto do paciente, a gente  faz exercícios, baseados realmente na ciência. Fisioterapeuta é uma dos profissionais que realmente está ali colado no paciente", disse Denise. 

São os fisioterapeutas os responsáveis por programar os tão "disputados" ventiladores mecânicos, que levam ar para pacientes que não conseguem respirar sozinhos, de forma espontânea.    

"Muita gente  questionava: Denise pra que  tu dá plantão?  É só porque a fisioterapia é responsável pela parte respiratória do paciente.  As pessoas não tem noção da  importância  do fisioterapeuta na parte de respiratória porque tem ainda aquela crença que os médicos prescrevem as medicações e a enfermagem aplica. A fisioterapia não só mexe no ventilador. Para você mexer  no ventilador mecânico precisa estudar muito a questão da fisiologia respiratória . A gente faz cálculos, nós  calculamos os parâmetros a serem utilizados em cada paciente.  Não é simplesmente jogar um vento dentro do paciente que o milagre acontece. tudo isso é estudado, calculado", explica a fisioterapeuta Denise. 

O trabalho do fisioterapeuta não acaba quando o paciente recebe alta. Quando os doentes com Covid-19 precisam ficar entubados a musculatura respiratória é afetada e os fisioterapeutas ajudam na reabilitação da força e resistência destes músculos.  Denise Cardoso ressalta que a fisioterapia é necessária antes, durante e, principalmente, depois dos problemas respiratórios. 

Paciente pelo nome 

Denise é daquelas profissionais que marcam a memória do paciente. A técnica em enfermagem Elaine Aragão, que contraiu o coronavírus e chegou a ir para UTI, saiu do hospital agradecendo a fisioterapeuta. "Não me deixou esmorecer", disse Elaine ao Cidadeverde.com no dia da alta. 

E não é à toa. Denise Cardoso gosta de aprender o nome dos pacientes e tratá-los de forma humanizada. O  hábito de se referir a um paciente como o "doente do leito tal" não é adotado pela fisioterapeuta. 

"Eu, particularmente,  gosto de aprender o nome do paciente. Eu gosto de saber porque estou lidando com gente, pessoas, um filho que a mãe está desesperada em casa para saber notícias, o pai de uma filha que está desesperada sem saber se ele vai voltar para casa", conta Denise.

Denise diz que a Covid-19 é como se fosse uma "roleta russa" onde, muitas vezes, pacientes que não são do chamado grupo de risco conseguem sobreviver e outros que, aparentemente tinham mais chances, acabam morrendo.  É, por isso, que ver um paciente se recuperar desperta em Denise “uma emoção muito grande”.

"Quando vejo essas pessoas saindo bem dá um alivio.  É um  bicho de sete-cabeças, mas a gente vê que é possível vencer. A gente já deu alta para paciente que a gente olhava e pensava que o paciente não tinha condições de sobreviver.  A gente consegue fazer com que dê certo.
 É um sentimento inexplicável você ver um paciente seu, uma pessoa que dependia de você, sair bem. Isso ai não tem explicação.  É uma coisa absurda, um sentimento de satisfação[...] você  saber que fez a coisa certa. Saber que ajudou aquela pessoa conseguir a sua saúde, que você não ajudou só aquela pessoa, mas ajudou uma mãe, um pai, um filho, um avô ou avó  de alguém.  É de uma emoção muito grande porque é o seu trabalho. Você estudou para poder ajudar o próximo. Quando vê que aquele paciente venceu e recebeu alta é como se um pedaço de você, como se fosse um filhos seu que você ta levando para o mundo. Muito satisfatório isso. Fazer o seu melhor e ver que o seu melhor foi o melhor para aquele paciente é sensacional, " descreve Denise.
 

Saudade dos seus

Denise não abraça os pais e o sobrinhos, que ela tanto ama, há mais de dois meses. Morando em hotel, ela só vê sua mãe e pai quando vai deixar em casa as compras de supermercado, já higienizadas, que ela faz para eles.  É um cuidado para que o seu Francisco e dona Maria Íris, que possuem mais de 60 anos de idade, não tenham risco de contraírem o coronavírus. 

Em plantões exaustivos onde fica cerca de seis horas sem beber e comer para não retirar os Equipamentos de Proteção Individual , só quando chega no hotel que ela pode conversar com os familiares e matar a saudade por meio de videoconferência. Denise também tem saudade de cachoeiras. A pandemia comecou logo quando elas encheram.

 

" É dificíl, vejo meus sobrinhos crescendo à distância. Queria muito dar um cheiro nos meus sobrinhos. Meus lindos, "banana, fofia e peleto". Tão pequenos e já tendo que enfrentar uma barra dessas. Mariana e Sofia eu sei o quanto sentem falta das amizades da escola, das reuniões de família (tudo que mais gostavam é reunir família Cardoso e Carvalho). Pietro, completa 1 ano agora em junho, titia morre de saudade de apertar essa gostosura. Meus três amores... Titia ama mais que tudo. Quando  tudo isso passar, vou poder receber os abraços que não tive no meu aniversário, sorrir sem máscaras e apertar vocês. Reunir toda a família e rir muito. Pai e mãe, amo vocês", diz Denise aos seus.