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Elvira & Júlia

Nonato Oliveira

Cheiro e Gosto de Piauí

As cores vibrantes das pinturas do artista plástico Nonato Oliveira são marca registrada de Teresina. Ele é considerado uma das maiores referências da arte do Nordeste.

Raimundo Nonato de Oliveira nasceu em São Miguel do Tapuio, em 11 de dezembro de 1949. 
Desde criança já se identificava com a arte. Naquela época não tinha acesso a tintas, fazendo uso, como alternativa, de algumas plantas para fabricar suas cores próprias. Aproveitando as sobras de material de construção de seu pai, o pedreiro Sabino, Nonato fez o seu primeiro painel. Enquanto Sabino fazia o reboco de um dos quartos de sua casa, Nonato pegou uma faca e aproveitou para fazer recortes na parede, fendendo aos poucos as figuras das pessoas próximas a ele, além de animais como burros e pássaros. Já a partir daquele momento atraiu a admiração de todos em sua volta. 
Uma das grandes influências de Nonato é o seu tio Mestre Dezinho, artista renomado no Nordeste. Em Valença do Piauí, cidade natal de Dezinho, Nonato trabalhou com o tio e aprendeu bastante, inclusive sobre a temática regionalista que adota atualmente.
Com 17 anos fez uma série de quadros sobre a Guerra de Canudos, que o levou a uma exposição no Rio de Janeiro. As obras lhe renderam uma bolsa de estudos na Europa, onde chegou a trabalhar como ajudante do pintor espanhol Pablo Picasso: "Ficava olhando ele pintar. Fiquei na França com ele o tempo inteiro até o dia de sua morte", diz Nonato.


 O artista plástico segurando um desenho que Picasso deu a ele de presente.

No canto direito está a caricatura de Nonato.

Ao longo de 50 anos de carreira, Nonato coleciona diversos tipos de arte, de murais públicos até esculturas e monumentos. Com obras espalhadas por vários estados do Brasil e tendo feito exposições no âmbito internacional (como Portugal, Itália e Estados Unidos), ele ganhou o apreço de uma imensidão de pessoas. 
Com seus traços únicos e seu colorido forte, busca retratar o cotidiano do povo nordestino por meio da cultura popular, da religiosidade, do folclore, entre outros.


 Quando perguntado sobre o amarelo presente como tom de pele em suas obras, disse: "o amarelo é porquê as pessoas passavam muita fome, ficavam doentes e acabavam por ficar com a pele amarela".

Durante a conversa descontraída foi comentado também sobre a demolição de alguns dos imensos murais públicos que Nonato havia feito. Em virtude da modificação dos imóveis para construção de uma imagem de cidade moderna, Teresina tem perdido cada vez mais o colorido do artista. Tendo, principalmente, muita paixão pelos murais, fica bastante triste ao perder alguma de suas obras. Dentre os que foram postos abaixo estava o seu preferido, que demoliram pra fazer o Shopping da Cidade. "Próximo ao troca-troca havia um de mais de 100 metros de comprimento com 3 metros de altura que contava a história do Mercado Velho, das pessoas que frequentavam lá. É falta de interesse do próprio governo em manter. Deviam investir muito mais nos artistas piauienses, pois não ajudam nem valorizam ninguém", relata.
Além de Teresina e algumas cidades do interior do estado, também há murais espalhados por Fortaleza, São Luís, Belém, Goiânia, São Paulo, Madri (Espanha) e Lisboa (Portugal). 


 Mural presente na avenida Marechal Castelo Branco.


Quadro encontrado na Rádio São José dos Altos, dado por Nonato para Elvira Raulino.

Nonato é, de fato, parte da identidade do Piauí. Não tem nada mais a "cara" de Teresina do que as pinturas de Nonato Oliveira, que mostram pessoas simples do dia-a-dia cercadas por cajus, milhos e mangas, e pintadas com o amarelo cor de sol que identifica muito bem a alma do povo piauiense: a palidez amarelada que marca a dura realidade do nordestino não chega nem perto da cor vibrante do espírito de cada um, que transmite força e alegria.


Nonato passa o dia inteiro pintando, entre retoques e secagem.


O cantinho do pintor.