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Pesquisa de piauienses usa laser para detectar câncer de pele em minutos

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Sabe aquelas cenas de filmes de ficção científica, nas quais uma máquina é capaz de escanear uma pessoa e descobrir doenças ou outros tipos de problemas sem a necessidade de cortes? Pois é, cientistas estão desenvolvendo, em Teresina, um equipamento que pode chegar bem perto disso no futuro. 

A pesquisa é do setor de Física da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e é baseada na interação da luz com o corpo humano, mais precisamente do laser, que é uma luz capaz de filtrar informações mais facilmente. O equipamento disponível, por enquanto, só consegue avaliar a pele, mas, com algumas alterações técnicas, essa análise poderia ser feita também em olhos e órgãos internos como tireoide, útero, estômago e próstata. Para isso basta que a luz chegue até eles com o cumprimento de onda adequado.

“O laser bate num determinado órgão e quando volta você consegue ter as informações desse órgão via espectrômetro. Essa é uma técnica chamada espectroscopia ramam, na qual é possível observar aspectos moleculares e bioquímicos. Na pele, por exemplo, podemos ver as características de todas as camadas, verificar o colágeno e ver se tudo isso está de acordo com a pele de referência, que a gente considera sadia”, explica o coordenador do laboratório de Física, professor doutor Bartolomeu Cruz Viana Neto, um dos colaboradores da pesquisa. 

Fotos: Wilson Filho/Cidadeverde.com 

No momento, a pesquisa ainda está engatinhando. O primeiro estudo feito na UFPI, coordenado pelo professor pós-doutor Airton Abrahão Martin, analisou o foto envelhecimento da pele humana. Foram examinadas 50 pessoas que trabalham em atividade relacionada à agricultura e, portanto estão diariamente expostas ao sol, e 50 pessoas que trabalham em ambiente fechado, protegidas da luz solar.

“Aí detectamos que o colágeno se modifica com a foto exposição, o que era algo esperado. Entretanto, percebemos que nas pessoas que pegam mais sol esse colágeno, em partes não expostas (como nas axilas), se desenvolve melhor que em outras pessoas que não pegam sol. Ou seja, o corpo, de alguma forma, compensa. Isso a gente não imaginava encontrar. Estamos, agora, varrendo todo o grupo para ver se isso é, verdadeiramente, uma regra, porque essa observação foi feita na primeira amostra, de dez pessoas”, conta Bartolomeu Viana.

A pesquisa do colágeno já é a base de uma dissertação de mestrado em Física e está sendo usada também no doutorado de um piauiense, na área de Engenharia Biomédica, em Brasília. A ideia é que a conclusão do doutorado seja o resultado final das análises relacionadas ao colágeno.

O fim desse ciclo seria um passo importante para o início dos estudos voltados para o diagnóstico de doenças, a começar pelo câncer de pele. “Aqui no Piauí, a gente sabe que há uma incidência bem alta de câncer de pele e faríamos nele uma varredura do mesmo tipo dessa [feita no colágeno].

Pegaríamos 50 pessoas para comparar com o padrão normal, realizaríamos uma série de testes e protocolos e, a partir disso, poderíamos fazer a diferenciação”, afirma o professor Bartolomeu. 

Nesse processo, o laser seria capaz de detectar o câncer de pele em questão de minutos, sem precisar realizar uma biópsia – técnica na qual é retirado um pedaço da pele para amostra em laboratório. 

Como funcionará

Conforme as pessoas são escaneadas, o equipamento amplia seu banco de dados, incluindo milhões de informações a cada paciente examinado. "Porém, as informações do aparelho, num primeiro momento, virão em forma de espectro, por isso será necessário que um físico traduza esses dados.

No futuro, entretanto, com o avanço da tecnologia, o objetivo é que esses dados já saiam traduzidos para o médico, ou seja, será um aparelho autosuficiente, que poderá dizer a probabilidade daquela lesão ser maligna ou benigna", explica o coordenador da pesquisa, Airton Martin. 

Hoje, se há uma lesão de pele suspeita, o médico retira um pedaço do tecido epitelial para fazer a biópsia, que é uma técnica eficaz, mas é também invasiva e leva dias para ficar pronta. "

Com o aparelho, o espectro é colocado e o software vai captar a lesão e classificá-la como normal ou não", especifica Airton.

O professor Bartolomeu acrescenta que, com uma varredura da lesão, se ela for maligna, será possível detectar seu alcance e determinar o quanto precisa ser retirado para impedir o avanço da doença. “Isso a gente sabe, através de pesquisas do mundo todo, que dá para fazer. O que a gente tem de novidade é fazer isso de forma sistemática, com cidadãos do Piauí”, diz. 

Com otimismo, os cientistas que desenvolvem essa pesquisa no Piauí imaginam serem os precursores desse tipo de máquina, que concentrará lasers de vários cumprimentos de onda distintos, do infravermelho até o azul. Ainda não existe, no mundo, nada capaz de fazer isso, mas é o sonho da biofotônica.

“Isso vai dar um milhão de informações, inclusive o diagnóstico de várias coisas ao mesmo tempo. A ideia é semelhante ao que faz a tomografia hoje em dia, mas a tomografia só vê imagens, mostra borrões e o médico tem que interpretar. Além disso, utiliza o raio-X, que é prejudicial. Com esse aparelho, utilizamos somente o laser e o diagnóstico sai pronto”, afirma Bartolomeu Neto.

O professor enfatiza que uma das vantagens de usar a luz é poder detectar o câncer antes mesmo da formação do tumor, uma vez que o laser identifica mudanças na química molecular. Em outras palavras, as células começam a secretar informações biomoleculares bem antes de formar a lesão cancerígena e isso pode ser identificado pelo laser. 

"Seria um diagnóstico ultraprecoce e, em alguns casos, poderia eliminar a possibilidade de a pessoa morrer com esse câncer. Hoje a biópsia já é capaz de detectar essa atividade, mas só é pedida pelo médico se houver algum sinal de câncer. Não dá para sair fazendo biópsia em todos os órgãos. Além disso, se for pelo SUS, o paciente pode até morrer esperando, porque leva meses", pondera o pesquisador. 

As dificuldades

A ideia brilhante, no entanto, esbarra na necessidade de parcerias e recursos. O ideal para analisar pacientes com câncer é que o equipamento seja levado para dentro de um hospital de referência. Mas a máquina disponível hoje é muito grande e, se for movimentada, “desalinha” as configurações do laser.

“No projeto da pesquisa, a gente inclui um aparelho portátil, importado da Holanda, que vai ser feito totalmente por encomenda, do jeito que precisamos. Aqui nós não temos ainda capacidade tecnológica para produzir um aparelho desses, mas se conseguirmos trazê-lo, poderemos levá-lo para dentro do hospital de referência e avançar nas análises”, completa Bartolomeu.

O aparelho em questão está orçado em R$ 200 mil. A pesquisa toda, incluindo o pagamento dos bolsistas, chega a R$ 1 milhão.

Airton destaca que o mercado da biofotônica gerará, até 2024, US$ 24 bilhões em todo o mundo. "A ideia é que o Piauí entre nesse campo, que transforme sua indústria", completa o coordenador da pesquisa.


Jordana Cury
[email protected] 

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