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Consciência, tecnologia e gestão ajudam combater desperdício de água em Teresina

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Foto: Hérlon Moraes

Por Hérlon Moraes - Cidadeverde.com
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Açudes e represas secos, rios desaparecendo, temperaturas elevadas, racionamento, caos. Não estamos falando do roteiro de um filme, mas de uma realidade cada vez mais cruel que se espalha mundo afora. O meio ambiente vem dando recados há décadas de que o bem mais precioso da face da terra, a água, está ameaçado. A superfície do planeta é coberta por 97% de água, mas apenas 3% deste total podem ser consumidos pelo ser humano. Ou seja, a situação é mais preocupante ainda, diante do constante aumento da população, do crescimento das cidades e de um vilão que muita gente não dá importância: o desperdício.

O desperdício está dentro e fora de casa. Na rua, dados do Instituto Trata Brasil apontam que em 2016 o país desperdiçou 38% da água potável, gerando uma perda financeira acima dos R$ 10 bilhões/ano. Entre as principais causas, vazamentos nas tubulações, roubos e fraudes. Isso afeta diretamente os custos de produção e a demanda hídrica. Nas residências, uma pesquisa feita para o “Programa Água para a Vida” revela um dado alarmante: 68% dos brasileiros assumem que desperdiçam água, sabem como economizar, mas não atuam de forma prática para reverter o problema. Esse costume também gera consequências: o aumento cada vez maior da demanda. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), até 2030 a procura por água no mundo vai crescer 50%. 

O consumo médio de água no país é de 154,1 litros por habitante ao dia. Em 2016, os consumos apresentaram variações regionais de 112,5 l/hab.dia no Nordeste a 179,7 l/hab.dia no Sudeste. (Fonte: Trata Brasil). Segundo a ONU, 110 litros /dia é a quantidade de água suficiente para atender as necessidades básicas de uma pessoa.

Consciência

Mas nem tudo está perdido. Os exemplos de como economizar se espalham e inspiram moradores de casas, servidores de prédios públicos, condomínios. Estes últimos dão verdadeiras aulas de consciência quando o assunto envolve gastos desnecessários. É o caso do residencial Viver Bem 2, localizado na zona Sul de Teresina. Inaugurado em 2015, o empreendimento possui 24 blocos totalizando 402 apartamentos. Lá, a administração do condomínio não paga tarifa de água.

“A água de cada morador é individualizada. Eles pagam a conta mensalmente equivalente a uma cota. Isso foi definido em contrato com a antiga Agespisa. Com o trabalho de conscientização que fizemos, eles nunca consomem toda a cota e termina sobrando água. Essa sobra o condomínio utiliza sem custo algum”, explica o síndico Jacob Alexandre.

Os moradores dos 402 apartamentos atenderam ao chamado da administração e respondem às orientações de como evitar o desperdício. “Se a cota fosse extrapolada, a Agespisa na época cobraria da gente. Fazemos um trabalho de conscientização com os moradores para que não desperdicem água e tentem economizar o máximo possível para que a gente não extrapole esse valor. Há um ano nós não pagamos água por causa desse esforço que cada morador faz”, afirma orgulhoso.

Entre as principais dicas de economia, muitas já bastantes conhecidas, como evitar banhos demorados. “A gente sempre orienta que, em caso de lavagem de carro, o morador procure um posto de lavagem e assim não utilize a água do condomínio. Pedimos cautela na hora do banho, de escovar os dentes, onde pedimos para desligar o chuveiro ou a torneira. São medidas simples que qualquer um pode fazer e que representam uma diferença no final”, destaca.


Água que "sobra" dos apartamentos é usada em áreas comuns do condomínio (Foto: Catarina Malheiros)

A Água que sobra dos apartamentos é usada em ambientes comuns do condomínio e até para manutenção da área verde. “Usamos água para molhar as plantas, grama e limpeza dos blocos e áreas comuns. Até agora a gente tem conseguido com os moradores o uso adequado e econômico da água. Além de não nos onerar, é um dinheiro que a gente pode usar em outro local, fazendo investimento no próprio condomínio”, afirma.

A preocupação do condomínio não é à toa. Uma torneira mal fechada pode desperdiçar 46 litros de água em um dia. Com uma abertura de 1 mililitro, a água escorrendo será responsável pela perda de 2.068 litros de água em 24 horas. 

O desperdício e o aproveitamento da água foram discutidos em um workshop realizado na última terça-feira (27) pela Comissão de Direito Imobiliário da OAB-PI. Síndicos de vários condomínios de Teresina participaram do evento, que contou com palestras de vários representantes, dentre eles da concessionária Águas de Teresina. Para a empresa, incentivar boas práticas do consumo consciente da água é colaborar com o planeta.

“A nossa parceria com a OAB para divulgar essas boas práticas de consumo consciente e as tecnologias de reúso de água, é o resumo de algumas ações que são feitas pela companhia no sentido de incentivar o consumo consciente e na divulgação de tecnologias que gerem uma economia para o condomínio. Tudo se justifica pela viabilidade, mas também pelo uso racional da água e o cumprimento de uma responsabilidade ambiental. Hoje não é mais só um modismo, é uma necessidade que a gente vive hoje em Teresina. O que a gente faz tanto junto à OAB, como nos condomínios, a gente faz também nas escolas para que essa nova geração que está chegando tenha uma consciência renovada, e que saiba dar valor a importância do abastecimento de água tratada e do recolhimento e do tratamento do efluente sanitário de forma correta”, afirma Gustavo Ribeiro, coordenador de grandes clientes da empresa e palestrante do workshop.


Gerente da Águas de Teresina fala aos sindícos de condomínios sobre medidas para reaproveitar água (Foto: Hérlon Moraes)

Segundo ele, hoje vale a pena, em termo de viabilidade econômica, investir no saneamento e valorizar água e esgoto como uma questão de saúde pública. “Existe uma estatística nacional onde mostra que a cada R$ 1 aplicado no saneamento e no abastecimento de água tratada, ele gera uma economia de até R$ 7. A cada real que eu aplico no saneamento, eu economizo R$ 7 no hospital”, estima.

Gustavo ressalta que o desperdício por parte do usuário não interessa à companhia, pois é sinal que vai faltar água em outra região da cidade. “O sistema ainda está sofrendo grandes reformas em Teresina, então é importante que incentive o consumo consciente. A empresa não tem intenção nenhuma de que haja desperdício em qualquer condomínio, por mais adimplente que ele seja. No momento que acontece o desperdício em um setor da cidade, vai faltar água no outro.  A gente tem que tomar para si essa responsabilidade e não deixar só na mão do poder público e da concessionária do abastecimento de água. Nós, como usuários, precisamos chamar para si a responsabilidade de fazer um consumo consciente e de ter uma responsabilidade ambiental que reflita a realidade do Piauí hoje. O estado vive uma escassez de água”, destaca, fazendo um alerta.

“A água é um bem que se a gente não cuidar nos próximos 10 anos, teremos que racionalizar. Essa realidade já existe em São Paulo. Todo mundo é testemunha do que aconteceu com o Sistema Cantareira e não queremos isso chegue aqui”, lembra.

Para a advogada Patrícia Pinheiro, vice-presidente da Comissão de Direito Imobiliário da OAB, a sustentabilidade em condomínios e residências é uma realidade nacional. “Os condomínios estão hoje voltados para os projetos de sustentabilidade - seja na questão da água, energia ou resíduos sólidos. É uma realidade nacional. O grande x é que os condomínios mais antigos são penalizados, pois não havia essa preocupação e hoje há locais que sequer tem a individualização da água. Isso requer um valor alto. Mas existem ideias mais simples, como o reúso da água. O que fazer com tanta água da piscina? Com a água da chuva? Como fazer uma coleta seletiva adequada? Por isso nós discutimos o assunto aqui”, afirma.

Durante o evento, houve a premiação de condomínios em várias áreas, dentre elas a sustentabilidade. Mais um incentivo para o uso racional da água. “A ideia do prêmio surgiu com essa intenção de impulsionar essa sementinha, de fazer com que eles realmente tenham essa iniciativa. Sejam proativos e pensem e planejem a sustentabilidade dos condomínios”, declarou.

Tecnologia

Investir em tecnologia com sustentabilidade também ajuda a preservar o meio ambiente e reduzir custos e desperdícios com água, energia, dentre muitos outros. O Piauí está seguindo essa tendência nas novas construções. Um exemplo disso é o novo prédio do Palácio da Justiça. Orçado em R$ 47 milhões, o empreendimento terá mais de 13.170m² e reunirá todo o complexo judiciário do Estado. No novo TJ, a água da chuva será aproveitada e a que sai das torneiras será reutilizada. 

Foto: TJ

“O novo Palácio da Justiça busca atender a todos os princípios de sustentabilidade. A gente não pode mais desperdiçar água. Não podemos mais construir sem levar em conta os impactos que essa construção terá no entorno”, afirma Sanderland Ribeiro (foto abaixo), arquiteto da superintendência de engenharia e arquitetura do TJ.

O arquiteto explica que a água que sai das torneiras no novo Palácio da Justiça vai para uma cisterna. De lá, pode ser usada em vários ambientes do prédio, proporcionando economia de água e reduzindo o desperdício.

“Por exemplo, nos banheiros, a água que é usada para lavar as mãos nas pias pode ser reutilizada para aguar as plantas. Ela vai cair numa cisterna de reuso e poderá ser usada em um jardim, no lugar da água da concessionária, que é uma água boa para o consumo humano. Essa água de reuso é preparada para a limpeza. É uma medida de preservação do meio ambiente”, explica.

Nem o espelho d’água escapa da sustentabilidade. Além de deixar o ambiente mais requintado, auxilia na captação de água da chuva. “Além de funcionar esteticamente, os espelhos de água também podem ser usados para captar água da chuva, evitando que ela escoe direto para as vias públicas”, afirma.

Sanderland Ribeiro, arquiteto do TJOutra significativa contribuição para o meio-ambiente é o piso externo usado no prédio. Ele absorve a água da chuva, impedindo que tudo vá para as ruas causando alagamentos. “O piso lateral é intertravado e absorvente. Ele vai ajudar na penetração de água da chuva e devolver para os lençóis freáticos. É importante essa água não escoar rapidamente para as vias, por isso temos muitos problemas de enchentes. As pessoas vão construindo, impermeabilizando o solo e com isso a água vai diretamente pra rua com velocidade, aumentando as inundações”, destaca.

Em época de crise em todas as esferas dos poderes, nada como economizar com gastos de custeio. A expectativa é que no novo TJ, a conta de água deve baratear em até 40%. “Eu tenho certeza que haverá até 40% de redução. A água usada nos jardins, por exemplo, diminui o impacto. Ao invés de usar a água da Águas de Teresina no jardim, vamos reusar uma água própria para isso”, afirmou, lembrando da estação de tratamento de esgoto.

“Além de tudo isso que já falamos, teremos uma estação de tratamento de esgoto. Ela já vai lançar o esgoto tratado em condição de ser devolvido para a natureza e sem risco de contaminação para o meio-ambiente”, explicou.

Para o arquiteto, os projetos de sustentabilidade são realidade em empreendimentos públicos e privados. “A sociedade está percebendo essa necessidade de ter uma arquitetura mais sustentável. Antes ninguém via uma casa com placas fotovoltaicas no teto, hoje já encontramos. É melhor preservar e economizar do que gastar e jogar no lixo”, alerta.

A importância da sustentabilidade 

Segundo o arquiteto Anderson Mourão, especialista em reabilitação ambiental sustentável arquitetônica e urbanística, a importância de se trabalhar um projeto que leva em conta as estratégias de sustentabilidade está ligada diretamente com a possibilidade de escassez de água. “Acaba se tornando bem mais prático você adotar sistema de reúso de água, de captação de água de chuva e sistema de geração de energia. Você terá os dois produtos disponíveis e uma redução na conta no final do mês. Isso já é viável economicamente e também lhe deixa com recurso na medida em que você precisa. Outra coisa interessante é que qualquer estresse na rede, qualquer problema de abastecimento, você tem algo lá para pelo menos se resguardar”, explica.


Projetos de sustentabilidade voltados para a captação de água da chuva em residências. (Foto: Anderson Mourão)

O arquiteto destaca que, se tanto as pessoas como os grandes empreendimentos adotarem essas estratégias, diminuem os investimentos que precisaram ser feito na distribuição de água, por exemplo. 

“Especificamente em relação ao consumo de água, é fundamental você pensar nisso desde o projeto, por que quando você especifica equipamentos que são economizadores, tanto no próprio chuveiro, na torneira que economiza um consumo de água , você já tem uma diferença muito grande no seu consumo, redução da necessidade de água e todo mundo ganha com essa eficiência. No sistema de irrigação, por exemplo, você gasta 501/m² numa irrigação convencional, já no sistema de gotejamento cai para 151/m². Quando você automatiza, por exemplo, o sistema para ser acionado na hora que precisa ou então só no tempo necessário de água para irrigação, você torna mais eficiente ainda o seu consumo de água”, explica.

Quem mora em um condomínio que está fora dos padrões sustentáveis, há intervenções que podem ser feitas para reduzir gastos.

“Você pode adaptar um empreendimento, um condomínio, um edifício para ele ser sustentável. Em relação a água, por exemplo, a diferença é que quando você trabalha essas estratégias, calcula, dimensiona na fase de projeto, você tem 100% de chance de tornar eficiente. Quando você dimensiona essas estratégias durante a obra, essa eficiência já cai para 50% de chance. E quando o edifício já está em uso, após a ocupação, essa chance já cai para 15%, 20% ou menos, dependendo da situação do projeto”, afirma.

Um exemplo disso é a própria rede de esgoto do condomínio. “Você pode direcionar toda a água para uma estação compacta de tratamento de água pra reutilizar ou pra dar uma destinação final potável.  Em relação a água de chuva, por exemplo, algum outro sistema de filtro, você consegue, a diferença é que dependendo da situação você tem que deixar algo aparente”, ressalta Anderson Mourão (foto ao lado).

Gestão

Responsável pelos serviços de abastecimento de água e tratamento de esgoto da capital desde o ano passado, a Águas de Teresina tem como meta reduzir o índice de perdas de 59% para 25%, em 10 anos, evitando o desperdício de 4.304.541 m³ por mês, volume de água capaz de abastecer uma cidade de 797.137 habitantes. A empresa realiza 4,5 mil consertos de vazamentos por mês.

Nas ações de combate e controle de perdas estão inclusos, dentre várias metas, regularização fundiária de algumas áreas de ocupações. Estima-se que ligações irregulares consumam até cinco vezes mais água do que uma ligação regular, padronizada. 

No Parque Vitória, zona Sul da capital, foram implantados 22,6 quilômetros de rede de água beneficiando 3,2 mil imóveis. Outra região também beneficiada é o Residencial Dilma Rousseff, na zona Norte, com a implantação de 18,6 quilômetros de rede para atender 1,6 mil famílias. 

“Essas duas áreas estão acabando de ser regularizadas com o abastecimento. Elas viviam em condições precárias de abastecimento com mangueiras irregulares, causando uma perda absurda de água. Você tinha um grande desperdício de água”, afirma Pedro Alves, gerente de sustentabilidade da Águas de Teresina.


Implantação da rede de distribuição no Parque Vitória. (Foto: Arquivo/Águas de Teresina)

Segundo o gerente, a maior parte dessas perdas está ligada diretamente às irregularidades no abastecimento. “São áreas que estão sendo trabalhadas agora com projetos adequados, material adequado”, ressalta.

Com a fase da mão na massa encerrada no Dilma Roussef e Parque da Vitória, a empresa entra com programas de conscientização nas duas comunidades. Não basta apenas ter água em casa, o importante é evitar o desperdício.

“Nessas duas áreas que falei vamos encerrar com uma conscientização. Nós vamos levar uma palestra para que eles aprendam a ter um consumo racional da água. Grande parte das famílias estão inseridas na tarifa social. São famílias com uma certa vulnerabilidade. Então eles têm uma tarifa diferenciada, bem abaixo da tarifa normal. Mas mesmo assim eles estão limitados a um certo consumo, por isso, é importante ter a orientação de como economizar”, destaca.

Para atingir todas as suas metas, a empresa investirá R$ 1,7 bilhão, sendo que R$ 650 milhões serão aplicados nos cinco primeiros anos da subconcessão.

Saúde Nota 10

Os projetos de sustentabilidade da Águas de Teresina vão além do consumo consciente da água. Um dos focos da empresa é a conscientização e, para isso, as crianças exercem papel importante. Um exemplo disso é o Saúde Nota 10, trabalho que envolve crianças de 5 a 9 anos.

“Nesse primeiro ano de atuação da empresa estamos dando um foco maior para crianças de 5 a 9 anos de idade. Até em função do que vai acontecer nos próximos meses, que é a implantação do projeto "Sanear para o Futuro". Como a gente vai fazer um investimento maciço, nós vamos dobrar a quantidade de casas atendidas pela coleta e tratamento de esgoto. Com o Saúde Nota 10 atuando junto às crianças, a gente espera que elas influenciem os pais, irmãos e assim por diante, e a gente prossegue dando sequência”, explica o gerente (foto ao lado).

E como não custa nada lembrar, o gerente da Águas de Teresina deu dicas de como economizar. “Não lavar calçadas e quintais com mangueira e sim com balde. Reutilizar a água do último enxague da máquina de lavar roupas. Ela pode servir para a limpeza do quintal. Não deve deixar a torneira aberta quando tiver escovando os dentes ou lavando a louça. Na hora de fazer a barba é importante fechar a torneira também. São dicas pequenas, mas que no somatório tem uma grande quantidade de água envolvida. A Organização Mundial de Saúde fala que a gente precisa de 160 litros por dia por habitante para um consumo racional. Pra gente chegar nesse patamar realmente precisa de uma grande consciência”, finaliza.

Fotos: Catarina Malheiros, Wilson Filho e Hérlon Moraes

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