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Superação: estudante reencontra psicóloga que o salvou há quase um ano

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(Foto: Roberta Aline/ Cidadeverde.com)

Por Graciane Sousa
gracianesousa@cidadeverde.com

Um novo ano se aproxima, momento de reflexão. Algumas datas desse ano que se despede não serão esquecidas como o 19 de janeiro de 2018. O que você fez neste dia? Provavelmente, a maioria das pessoas não lembra. Mas, foi justamente nesse dia que o destino uniu a psicóloga Thaís Linhares e o estudante Israel Araújo, 17 anos. Não por acaso, desde então, o jovem renasceu para o amor, para a vida, para esperança e para as pessoas quando desistiu de tirar a própria vida se jogando de uma ponte em Teresina. Um abraço mudou a vida do estudante. Quase um ano após o caso que teve repercussão nacional o vínculo entre a psicóloga- que passava pela primeira vez sobre aquela ponte e salvou a vida do garoto- continua e se tornou uma amizade edificada no sentimento de gratidão. 

"Todo o fardo que eu carregava caiu naquele dia no rio e eu fiquei de pé. Acredito que tudo aconteceu para que eu pudesse contar minha história e salvar também outras pessoas. Tudo na minha vida mudou: o social, o emocional. O Israel antes do dia 19 de janeiro era uma pessoa enfadada, carregada de problemas, extremamente depressiva, anti-social porque eu não gostava de sair, conversar com as pessoas. Agora, eu me tornei uma pessoa totalmente diferente, resolvi deixar para trás tudo o que aconteceu, no momento em que desisti de me jogar da ponte", conta Israel. 

UM ABRAÇO QUE MUDOU A VIDA

As memórias do dia em que os dois foram unidos pelo destino ainda são fortes, mas duas ficaram mais marcantes na cabeça do estudante. 

"Ela chegou lá e falou uma única coisa: meu nome é Thaís. Posso te ajudar? Isso, parece tão simples, mas me marcou bastante porque quando se está numa situação dessas [falo por experiência] as pessoas que estão ao redor querem falar dos seus problemas. Mas quem está do outro lado, como eu estava, não está interessado em saber do problema dos outros, quer um alívio. A doutora chegou com uma simplicidade e passou o tempo todo repetindo isso. Percebi que ela era diferente que passava simplicidade, serenidade, amor", relembra o estudante. 

(Foto: Wilson Filho)

Das lições de vida aprendidas, Israel conta que despertou para a necessidade de mais afetividade. 

"Quando vi uma foto da gente se abraçando. Nossa! Não tem abraço que se iguale com aquele. Nem um abraço de avó, de mãe, de ninguém. Foi um abraço sobrenatural porque me senti acolhido quando desisti daquela ideia e ela me abraçou. Acho que foi naquele momento que, realmente, comecei  a ver o mundo de outra forma, as pessoas de forma diferente, a entender que as pessoas têm problemas e que precisam falar e pedir ajuda. Nem todo mundo tem essa oportunidade de aparecer alguém que mude sua vida. Um dos momentos mais marcantes foi quando eu passei a perna para o outro lado e abracei a Thaís que chorou junto comigo", conta o jovem.

PROMETEU, CUMPRA!

Além da gratidão, o sentimento de amizade surgiu entre Israel e Thaís. Quase 12 meses após o encontro, a psicóloga ainda mantém contato com o estudante, agora como uma amiga. 

(Foto: Roberta Aline/ Cidadeverde.com)

"Existe uma coisa que a gente usa muito dentro da Psicologia: prometeu, cumpra. Se eu prometi, vou cumprir. Vou acompanhá-lo até ele dizer, chega! O que existe agora é um vínculo, uma amizade. É tão tal que não posso atendê-lo mais como terapeuta, pois criou um vínculo entre a gente e entre a família dele também. Hoje eu sou uma pessoa para ouví-lo", diz Linhares.

Para a psicóloga, a história de Israel pode ser resumida em uma palavra: SUPERAÇÃO

"Eu vejo ele como uma superação muito grande e um exemplo muito forte para os demais que estão passando por essa situação e podem ver também que existem todas as outras possibilidades. Não é só tirar a vida. Existem outras formas de resolver uma situação e é procurando ajuda, nunca desistindo da vida. A vida é essencial. Não existe um problema grande o suficiente que não possa ser resolvido. Às vezes o que falta é uma orientação, uma pessoa que chegue e diga: não vá por aí não. Existe outro caminho para você seguir", orienta Thaís Linhares. 

Sobre o gesto de nobreza, a profissional não esconde que demorou "cair a ficha" e acredita em coincidência do destino e uma "pitadinha de Deus". 

"Eu me preparei durante cinco anos na faculdade e na semana da minha formatura me deparei com uma situação extrema. Jamais podia imaginar que isso pudesse acontecer, eu sempre procurei fazer o bem, mas a situação mexeu muito comigo como profissional e como pessoa. De toda forma, só fiz aquilo que qualquer profissional deveria fazer. Quando a gente se forma, faz um juramento que deve ser cumprido. Acredito que foi coincidência do destino eu estar ali naquela hora e que também existiu uma pitadinha de Deus que não conseguimos explicar, que fez com que a gente conseguisse fazer com que ele não desistisse da vida".

FAZER O BEM, NÃO IMPORTA A QUEM

(Foto: Roberta Aline/ Cidadeverde.com)

A história em que uma psicóloga teve seu dia de heroína foi importante não só para Thaís e Israel como também para inúmeros desconhecidos. Ela conta que, após a repercussão do caso, além de mensagens de agradecimento, inclusive vindas de fora do país, recebeu inúmeros pedidos de ajuda.

"Foi uma enxurrada de pessoas ligando, me enviando mensagens, dizendo que estavam em crise e queriam minha ajuda. Cheguei até me sentir impotente diante de tantos pedidos. Recebi mensagens até dos Estados Unidos. Tudo isso mexeu muito comigo, mas acho que continuo a mesma como pessoa, de estar sempre ali para ajudar, tentar fazer o bem. As pessoas que passaram a me ver diferente. Provavelmente, a gente conseguiu ajudar outras pessoas, quem sabe alguém desistiu de tirar a própria vida por acreditar que existe o bem, existe o outro. Isso é muito gratificante", disse Thaís que relembra que também recebeu críticas. 

"Algumas pessoas criticaram dizendo que a gente combinou, que se conhecia, que fiz para me promover. A maldade também existe e faz parte do ser humano. A gente vive em um mundo onde as pessoas são tão rejeitadas, tão manipuladas, existe tanta injustiça que acreditam que as pessoas não possam fazer o bem. Contudo, esse lado ruim não me incomodou, pois sei o que eu fiz, quais foram minhas intenções, qual era o meu propósito", desabafa. 

VIVER VALE A PENA

(Foto: Roberta Aline/ Cidadeverde.com)

Prestes a completar 18 anos de idade, Israel- que começou a cursar Relações Humanas e não descarta estudar Psicologia- surpreende com a maturidade de acreditar que pode fazer a diferença e ajudar outras pessoas. Ele segue fazendo acompanhamento psicológico/medicamentoso e diz que "viver vale a pena". 

"Por mais que as situações sejam desfavoráveis, você ter sua paz e conseguir ter harmonia com sua família e seus amigos, enfim com tudo, faz a diferença. Antes, eu generalizava todas as pessoas, como se todos não estivessem nem aí para ajudar. Hoje já vejo diferente. Que existem sim, pessoas que querem ajudar e fazer diferente, que querem dar um abraço. Um abraço faz a diferença, um abraço fez a diferença em minha vida e toda forma de carinho também, mesmo que seja com pessoas desconhecidas", disse o estudante. 

Já a psicóloga [a quem o destino encarregou de salvar uma vida no momento em que ia ao supermercado e passava pela primeira vez naquela ponte] reforça que "não há problemas grandes o suficientes que não possam ser resolvidos". Por fim, Thaís Linhares diz que não existe um motivo para o suicídio e que sempre existem pessoas para fazer o bem.

o melhor caminho é não desistir da vida e procurar ajuda. 

"O preconceito sempre existiu. Não existe um motivo para o suicídio, mas um aglomerado de situações em que uma única coisa se torna a gota d'água. Não foi uma opção sexual que levou a pessoa a tirar a própria vida. O que existe é uma sociedade que está ali sufocando uma pessoa por conta de escolhas. Há também o lado social, o psicológico e o biológico, por isso as medicações são necessárias para se manter o equilíbrio. As pessoas querem achar um motivo externo que não existe. O organismo que está debilitado. A depressão e a crise suicida são deficiências do organismo.  A terapia com o uso da medicação é sempre o mais indicado. A pessoa que está em uma situação de crise precisa se conhecer para aprender a lidar com a situação e pedir ajudar. A pessoa sempre dá sinais. Não é só o psicólogo que vai ajudar, tem que ter a medicação, a família por perto, o psicológo, a medicação, a religião, os amigos, a igreja [...] todos têm que estar envolvidos. É preciso unir forças; É preciso mais amor ao próximo", finaliza Thaís Linhares. 


Em Teresina existem várias organizações filantrópicas que contribuem com a prevenção do suicídio. 

-Centro de Valorização da Vida (CVV) – Telefone: 188

O CVV atua na prevenção do suicídio, prestando apoio emocional, através de uma conversa amiga. O atendimento pode ser feito por telefone, por meio do número gratuito 188, que funciona 24 horas, todos os dias.

-Centro Débora Mesquita (CDM) – Telefone: (86)99827-3343/ 98894-5742

O CDM é uma ONG que tem como objetivo informar a sociedade sobre causas, sintomas e tratamentos disponíveis aos transtornos psíquicos, atuando diretamente na prevenção e posvenção do suicídio.

-Grupo Contato Apoio Contato e Esperança (GRACE) – Telefone: (86)3237-0077/3237-0202

O GRACE atua na prevenção do suicídio, disponibilizando duas linhas telefônicas. O Grupo também atende presencialmente no bairro Vila Bandeirantes II e faz visitas domiciliares.

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