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Estudante que assistia aula em maca, ganha cadeira e quer retribuir ajuda na medicina

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Imagen: reprodução/Instagram

A história do estudante Leandro Silva de Sousa, 21 anos, da Universidade Federal do Piauí (UFP), despertou a solidariedade do povo piauiense. Paraplégico, ele conseguiu comprar a cadeira de rodas motorizada com elevação automática (custou R$18,5 mil) por meio de doações. Com ela, o sonho de formar em Medicina, ser um profissional com especialização em neurologia, poderá se realizar. Ele fala do processo de adaptação e quer retribuir a ajuda com a profissão de médico. 

O estudante ficou conhecido nacionalmente quando passou a assistir às aulas deitado em uma maca após uma lesão que o impossibilitou de ficar sentado por longas horas. A lesão surgiu em decorrência das repedidas feridas no mesmo local que o fez perder um pouco do coxim adiposo do glúteo esquerdo. 

Sensibilizados os amigos de classe, com apoio do centro acadêmico do curso de Medicina, decidiram lançar uma "vakinha virtual #TodosPorLeandro" para alcançar o dinheiro necessário para a compra da cadeira de rodas motorizada, que o deixaria na posição ereta (em pé), reduzindo a pressão e evitando uma nova lesão. 

Foi assim que a determinação do Leandro rompeu as barreiras da sala de aula e chegou ao conhecimento de diversos desconhecidos, que decidiram apoiar essa meta, tanto no Piauí como em outros estados. 

"A cadeira deu certo. Graças a Deus. Eu sempre achei que iria dar certo (a doação), mas não sabia que seria tão rápido. A sensação é de pura gratidão porque diante de uma sociedade em que vivenciamos tanta coisas ruins ainda há muita gente boa e solidária com o outro. O que penso em fazer como agradecimento a todos que me ajudaram é me formar e prestar um serviço de qualidade para a sociedade. Eu me senti amparado e com muita gratidão", declarou Leandro. 

Com o dinheiro arrecadado, Leandro conseguiu comprar a cadeira em agosto de 2018 e custear as passagens aéreas para fazer tratamento na Rede de Reabilitação Lucy Montoro em São Paulo, que atende os moradores locais, mas que decidiu abrir uma exceção para o piauiense.  Lá ele aprendeu a usar corretamente a nova cadeira e a cuidar melhor da saúde para evitar as lesões. Em janeiro de 2019, ele retornará a São Paulo para dar continuidade ao tratamento. 


Apesar de estar com a cadeira desde o segundo semestre do ano passado, Leandro não a usa para sair de casa devido a falta de acessibilidade em muitos lugares e porque ela é muito pesada. Ele ainda está se adaptando a ela e de como irá usar fora da residência. 


"Quando fiz a campanha, a ideia era usar a cadeira na universidade porque passo a maior parte do meu tempo, umas oito horas, todos os dias. Só que eu ainda não consegui me adaptar a tudo (com ela), e lá não tem acessibilidade, e eu não tenho um carro acessível para colocar essa cadeira porque ela pesa 100 kg. A única ideia, sendo bem sincero, é uma carrocinha para que eu possa adaptar e colocar a cadeira sem precisar levantar. De outra maneira, ainda não pensei. Essa cadeira é muito útil para mim para todos os momentos, em casa eu preciso muito fazer descarga de peso e ela me ajuda. Todos os dias eu fico em pé nela só que eu ainda não a usei na rua por causa do peso (e da falta de acessibilidade) e estou buscando adaptações". 

Ele também aguarda que as reformas de acessibilidade na UFPI - Campus Ministro Petrônio Portela, na zona Leste de Teresina, cheguem até as salas, banheiros, departamentos e laboratórios usados por ele no seu cotidiano acadêmico. Com as reformas, ele poderá usar a cadeira comprada com o dinheiro da doação na universidade.  Leandro ressaltou que a usará quando estiver no Hospital Universitário. 

"Na universidade, eu não a utilizo muito, falta mais acessibilidade. Na parte que eu frequento não vi muita diferença, mas eu sei que anunciaram investimentos e que as mudanças já podem estar ocorrendo em outros lugares. Uns banheiros dá para usar e outros não. Não sou o único que necessita dessas reformas. Eu vou usar mais quando estiver no internado, no hospital (universitário), daqui a uns dois anos", disse. 

A UFPI informou ao Cidadeverde.com que as obras para ampliação da acessibilidade na instituição estão em andamento. Várias pistas para bicicletas, pessoas com deficiência visual e locomotora, e acessos para pedestres que também atende às cadeiras de rodas já estão disponibilizados em alguns pontos.  

Leandro conseguiu tratar a lesão que o impedia de permanecer sentado. Agora, ele assiste às aulas com outra cadeira de roda, uma normal e, para evitar dores e lesões, intercala com o uso da maca na sala de aula.  

Fotos: arquivo pessoal


O acidente e o sonho da Medicina

Atualmente, Leandro tem 22 anos e cursa o quarto período de Medicina. Aos 17 anos, ele não sonhava com esse curso e foi atingido com três tiros de arma de fogo ao tentar separar uma briga, no bairro Promorar, zona Sul de Teresina.  Um dos tiros lesionou a coluna de Leandro, que o fez perder os movimentos das pernas. 

"Eu passei muito tempo acamado, fiquei muito triste. Foi um choque, mas aí eu decidi estudar, fazer Medicina e ajudar outras pessoas". Decidido, Leandro se dedicou a estudar para o Exame Nacional do Ensino Médio em 2016. As dificuldades financeiras e de saúde não o impediram.

A família pagou por um cursinho de redação em uma escola particular, que, depois de uma peregrinação e ajuda de um amigo, conseguiu o e-mail de um dos proprietários. Leandro contou a sua história, os seus sonhos e a dificuldade de pagar um cursinho voltado para Medicina. Ele conta que foi  abençoado pela solidariedade e conseguiu ajuda para frequentar o curso. A lesão na região do quadril o fez deixar a sala de aula, mas isso não o fez desistir. Ele continuou os estudos em casa, com a ajuda dos amigos que levavam o material e a família que pegava na escola.   Estudou, se dedicou e em 2017 conseguiu a aprovação em Medicina. 

Na época das doações online, a TV Cidade Verde chegou a entrevistar Leandro. Assista ao vídeo:

 

Carlienne Carpaso
carliene@cidadeverde.com 
 

 

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