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Wynton Marsalis defende mística das big bands e ataca hip-hop

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Foto: Reprodução/Instagram/@wyntonmarsalis

Um dos maiores trompetistas do jazz, o americano Wynton Marsalis, 57, acha graça diante da pergunta sobre seus próximos projetos pessoais, longe da Jazz at Lincoln Center Orchestra. Para ele, não existe nada mais pessoal do que a big band que ele criou há três décadas em Nova York.

Ele desembarca em São Paulo com os músicos do grupo para sua mais extensa temporada no Brasil. Serão 20 eventos em 12 dias, entre concertos e atividades educativas, programados em oito unidades do Sesc na Grande São Paulo.

No caso de sua orquestra, tocar e ensinar são ações indissociáveis.

"Quando começamos, tinha duas ambições: reviver a mística das big bands e ensinar música. Eu não fazia ideia do que isso se tornaria", diz Marsalis.

Hoje, a orquestra chega a 31 anos de atividade, com turnês pelo mundo e 15 discos lançados. O último álbum do trompetista sem a sua JLCO foi "The Spiritual Side of Wynton Marsalis", de 2013. De lá para cá, gravou quatro álbuns com o grupo.

A agenda em São Paulo começa no dia 19 e terá 11 concertos, dois ensaios abertos, um encontro de Marsalis com o público, duas palestras e quatro workshops com músicos da orquestra.

Dois concertos serão comentados pelo próprio Marsalis, que falará com o público entre a execução das músicas. "Eu falo um pouco entre as peças apresentadas, mas fico chateado em não falar o idioma, mesmo com os tradutores ajudando", conta o músico.

O caráter educativo da Jazz at Lincoln Center Orchestra não representou uma mudança de orientação na carreira de Marsalis. Seu pai, o pianista Ellis Marsalis, ensinou jazz aos quatro filhos: Wynton, Branford (saxofonista), Delfeayo (trombonista) e Jason (baterista).

"Meu pai também era um professor, então vivia rodeado de outros professores, seus colegas. Pegar uma coisa que eu sei e tentar passar para os outros sempre foi algo natural para mim. Dei minha primeira aula quando tinha 15 ou 16 anos, para garotos menores."

Marsalis defende que trazer os jovens para o jazz é uma questão de exposição, de levar a música até eles. "Como meu pai era músico, eu ia sempre aos concertos. Jazz, música clássica, música popular. Vivi desde muito cedo cercado pela música, não sei como é viver sem ela."

Em 1983, aos 22 anos, ele foi o primeiro artista a ganhar o prêmio Grammy em categorias de jazz e de música clássica na mesma cerimônia. No ano seguinte, ele repetiu a façanha. No total, ele ganhou o Grammy nove vezes.

Sem esconder sua aversão declarada ao hip-hop, que deu a ele um rótulo de tradicionalista radical, ele cobra de seus alunos uma busca intensa de gêneros. "Os jovens precisam ser expostos a mais coisas do que as canções populares que fazem sucesso. A tecnologia de hoje tem ferramentas de pesquisa fantásticas. A pessoa tem de ser estimulada a buscar coisas novas, música boa."

O músico já declarou que considera o rap uma música "guiada por hormônios". Para ele, "hip-hop provoca um comportamento destrutivo em casa e conduz o afro-americano a uma visão do mundo totalmente negativa".

Sua posição contra o hip-hop pode ter trazido confrontos com alunos? "Há tipos diferentes de estudantes. Os que não são problemáticos e os que são problemáticos. Às vezes é uma questão de filosofia de vida, às vezes é apenas falta de respeito. Mas não posso dizer que tenha problemas com os meus alunos."

Marsalis diz que ensinar é abrir portas. "Conheci uma série de grandes professores, que tiveram grande impacto sobre mim. Professores dedicados a diferentes tipos de música. Quando você está estudando com eles, não tem ideia de como serão importantes na sua vida. Esse reconhecimento só vem mais tarde."

Na temporada paulistana, a orquestra terá reforço de quatro músicos brasileiros em algumas datas. Ari Colares (percussão) e Nailor Proveta (sax e clarinete) tocam no concerto "Masters of Jazz", com obras clássicas de grandes nomes do gênero, incluindo o brasileiro Moacir Santos.

No concerto "Obras Originais", que terá três apresentações com material autoral de Marsalis e seus músicos, o convidado é o bandolinista Hamilton de Holanda. No concerto "Grand Finale", que encerra o programa no dia 30, o trompetista Daniel D'Alcantara se junta a Colares, Proveta e Hamilton.

"Temos relações antigas, já toquei com eles várias vezes", diz Marsalis. O americano é um entusiasta da música brasileira. Fala com fervor do programa para jovens "Carnaval na Broadway", no qual leva sons brasileiros aos alunos. O repertório tem samba, bossa nova, Moacir Santos, Tom Jobim e Ivan Lins, entre outros.

"Pixinguinha é incrível! Mostramos também o forró, que lembra as marchas da música negra americana. É muito pulsante, tudo que vem do Brasil é assim. Sergio Mendes foi muito importante para que eu pudesse conhecer a música brasileira."

Conversando sobre a falta de recursos para a educação no Brasil, ele dispara. "Antes de encontrar uma maneira de convencer políticos no seu país, eu tenho de descobrir uma maneira de fazer isso nos Estados Unidos. Temos problemas semelhantes. Não me sinto confortável lidando com pessoas que não compreendem a importância de ensinar música."

Marsalis, defensor de que ouvir o máximo de música diferente é o melhor para forjar novos instrumentistas, não titubeia ao responder qual álbum de jazz recomendaria a um iniciante no gênero: "Kind of Blue" (1959), de Miles Davis.

"É uma obra-prima e também um disco muito agradável. As músicas são complexas, mas com melodias fáceis de assimilar."

Fonte: Folha Press

 

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