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Pai de Santo aos 19 anos quer combater a intolerância com fé e caridade

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Aos 68 anos, Mãe Toinha de Oxossi carrega memórias e gratidão aos Orixás e seus guias. Em junho deste ano, ela batizou o filho de santo mais novo de Teresina, o Pai Ciel de Oxossi, com apenas 19 anos. Ela recorda da própria história quando saiu de Piripiri, no interior do Piauí, para iniciar a sua coroação aos 15 anos em um terreiro no Maranhão. Tão jovem, Pai Ciel afirma que buscará combater a intolerância religiosa com fé e obras de caridade.

Mãe Toinha fundou a sua eira (casa de Umbanda ou Terreiro) em junho de 1970, considerada uma das mais antigas de ofício na capital piauiense, quando tinha 19 anos. A Tenda de Umbanda Martir São Sebastião, primeiramente, foi erguida no bairro Matadouro, e, depois de cinco anos, criou raízes na Nova Brasília, zona Norte de Teresina, onde permanece até hoje. 

"A Umbanda é a minha religião, o meu destino, a minha guarda. É a minha segunda família. A minha Umbanda sagrada. Eu posso estar agoniada na minha casa, mas quando estou na minha eira, pronto, imediatamente melhoro", conta Mãe Toinha, que está ligada a Umbanda desde a infância, ressaltando seu carinho com as matas e os caboclos. 

Assim como Mãe Toinha, Pai Ciel de Oxossi começará com o seu barracão aos 19 anos (que está no processo de construção em Timon-MA). Pai Ciel começou a sua preparação em 2015 e em junho deste ano recebeu sua coroação (espécie de certificado na Umbanda para ser Pai de Santo e ter a própria casa). "Ele vai levar a minha história para o Maranhão. Lá, eles vão desenvolver e preparar os filhos dele. Levar a história dele, acompanhando a minha", diz. 

O guia de frente da Mãe Toinha é o Pai Estevão Légua, que também trabalha com Seu Rompe Mato. Já o Pai Ciel tem como guia de frente o Caboclo da Pedra Preta e, como dono da sua casa, a Dona Tereza Légua.

Intolerância Religiosa

O Pai Ciel confessa que desde a infância, assim como Mãe Toinha, sentia uma forte ligação com a Umbanda, mas somente na adolescência decidiu estudar e seguir os passos dessa religião. Ele relata que precisou enfrentar a intolerância religiosa dentro da própria casa, o que lhe causou, durante muitos anos, uma angustia. "No começo foi difícil. Eu chegava em casa e apanhava. Me levavam para ver, mas não aceitavam que eu de fato participasse", relembra.

Hoje, com o apoio do família, ele conta que usa da sua fé e da caridade para desmistificar o preconceito enraizado em muitas pessoas que desconhecem a verdadeira essência da religião. "A umbanda significa muito para mim, foi onde eu me encontrei. As pessoas acreditam que a Umbanda é algo ruim, quando, na verdade, não é. Nós trabalhamos com a verdade, com a caridade, com o amor. Nós temos o orgulho de fazer o bem. Nós trabalhamos para fazer o bem sem olhar a quem", conta.

Ao falar sobre a intolerância, Mãe Toinha recorda que na sua infância os terreiros eram proibidos e poucas pessoas tinham coragem de atender. Casas iam ao chão, estátuas eram quebrados (como hoje ainda são), e os "filhos de santo" obrigados a caminhar longas distância acorrentados. São cenas tristes que não saem da memória de Mãe Toinha, mas que - com muita luta e devoção - essa realidade vem mudando. 

Mãe Toinha saiu do Piauí ainda adolescente para receber seu batismo no interior do Maranhão, e hoje, dedica-se a formar novos médiuns, como Pai Ciel de Oxóssi, o pai de santo mais novo do Piauí.

Liberdade Religiosa

No próximo dia 24, a 7ª edição do Cultura Negra Estaiada na Ponte trará como tema a Liberdade Religiosa. O evento iniciará às 16 horas, no Parque Nova Potycabana, e depois seguirá em caminhada pela Avenida Raul Lopes, zona Leste de Teresina, até o complexo cultural da Ponte Estaiada. Grupos afros irão se apresentar no complexo. 

O Cultura Negra Estaiada na Ponte conta também com uma vasta programação nos dias 22 e 23 de agosto, com o Seminário dos 31 Anos de Fundação Cultural Palmares.

Atualmente, Teresina possui mais de 700 terreiros, a maioria de Umbanda e Candomblé. O Cultura Negra busca promover a igualdade e inclusão social dos povos de matriz africana, combatendo a intolerância.  


Carlienne Carpaso
carliene@cidadeverde.com 

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