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História de Esperança Garcia é retratada em filme por maranhense

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Fotos: Divulgação "Esperança"

A história da mulher escravizada que foi considerada a primeira advogada negra do Brasil após escrever uma carta ao governador no final do século XVIII ganha um novo filme.

Em uma ficção performática, o curta “Esperança” (16 minutos) imagina Esperança Garcia louvando seus ancestrais no litoral maranhense, traz tambor de crioula, toadas de bumba meu boi e faz seu trajeto pela favela, até chegar ao interior do Piauí e escrever uma carta denunciando os maus tratos que sofria.

Dirigido pela timonense Carmen Kemoly, que vive na fronteira Timon – Teresina, e atualmente faz mestrado em Comunicação e Cultura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o filme buscou resgatar a chegada de Esperança no Brasil e reforçar a conexão histórico-cultural entre o Piauí e o Maranhão. 

“Já tem um tempo que viemos acompanhando a vida de Esperança Garcia. Há na história, uma grande probabilidade de seus antepassados terem chegado em solo piauiense a partir do Porto de São Luís, que recebia muitas pessoas escravizadas na época, até chegarem em Oeiras, antiga capital do Piauí. Como maranhense, quis trazer um pouco desse contexto, anterior à carta. Uma forma de pensarmos também sobre esse nosso território de potência que é o Meio Norte do Brasil”, explica Carmen.


Atriz interpreta Esperança Garcia na infância.

Esperança Garcia foi uma mulher negra piauiense escravizada, que em 1770 escreveu uma carta denunciando todos os tipos de agressões que sofria. O documento chegou a ser reconhecido recentemente pela Ordem dos Advogados do Piauí.

“Fazer o roteiro e dirigir ‘Esperança’ foi um marco pra mim enquanto mulher preta que acredita na mudança das narrativas e imagens que têm sido proferidas do povo preto dessa nação. Foi a primeira vez que eu gravei somente com mulheres e negras”, relata Carmen.

O curta “Esperança’ é uma parceria com o Coletivo Labcine, que tem como proposta selar parcerias de audiovisual independente no Piauí e Maranhão. O filme será exibido no dia 12 de setembro no Terreirus Clube, em Timon (MA).

Mulheres negras no cinema

Em 2016, a Ancine (Agência Nacional de Cinema) divulgou uma pesquisa sobre diversidade de gênero e raça no mercado audiovisual brasileiro.

Baseada nos 142 longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição neste ano, a pesquisa apontou que homens brancos dirigiram 75,4% desses filmes. Mulheres brancas, 19,7%. Homens negros dirigiram 2,1% das obras analisadas, e nenhuma foi dirigida ou roteirizada por uma mulher negra.

Na análise do elenco, quando se trata de mulheres negras, a presença é muito menor, chegando a apenas 5% dos profissionais nessa função. O total de pessoas negras representa 13,3% do elenco geral, em contraponto aos 54% que representam na população brasileira.

A desigualdade racial e de gênero no cinema motivou a Casa das Pretas do Rio de Janeiro lançar o Projeto Itans, do qual a timonense Carmen Kemoly fez parte. O projeto resultou em um laboratório imersão de roteiro para mulheres, onde, durante o primeiro semestre de 2019, quinze mulheres negras tiveram oficinas formativas e de técnica cinematográfica, para elaboração de seus roteiros e desenvolvimento dos filmes. Cada participante fez um curta metragem de pelo menos cinco minutos.

No curta “Esperança”, tanto no elenco, quanto as operadoras de câmeras, as produtoras e responsáveis pela fotografia são mulheres negras. “Pode parecer pequeno ou simples, mas esse é um fato muito importante. O olhar de mulheres, principalmente sendo pretas, sobre si mesmas e suas realidades; faz com que os sentidos das narrativas mudem”, relata Kemoly.

Uma audição feita em São Luís selecionou a atriz que interpretou a Esperança ‘jovem’. Mesmo sendo uma produção independente, oito atrizes se inscreveram. “Muitas delas não conheciam a história de Esperança, e passaram a conhecer a partir daquele momento. Tudo isso é muito gratificante”, comemora a diretora e roteirista.

Da Redação
redacao@cidadeverde.com

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