Cidadeverde.com
Economia

Queda de juro não é morte da renda fixa e nem justifica disparada à Bolsa, diz especialista

Imprimir

Foto: Daniel Isaías / Agência Brasil

"Agora você será atacado por todos com frases do tipo: 'você deve tomar mais risco!', 'hora de ir para a Bolsa de Valores'", escreveu Pedro Lula Mota, gestor da fintech Vérios, no dia seguinte à decisão do BC de cortar a Selic para 5,50% ao ano.

Foi exatamente o que aconteceu, com uma série de textos, vídeos e postagens em redes sociais que sugeriam investimentos mais arriscados, como são as ações de empresas, e prazos mais longos para investimentos de renda fixa.

A morte do CDI (grosso modo, a medida de remuneração da renda fixa) foi decretada, assim como foram proferidas frases como "só louco não vai para a Bolsa".

Na mesma postagem, feita no Twitter, Mota acrescentou o que, segundo especialistas, realmente deve ser levado em consideração por investidores: "não confunda mudança de juros com mudança de perfil de risco".

Quando o investidor sabe qual é seu objetivo com o investimento, o tipo de risco que está disposto a correr e distribui o dinheiro em ativos que contemplem esse perfil, pouco importa a decisão do BC de mexer na taxa de juros.

E isso especialmente no caso da Selic, cuja queda é considerada certa há meses. As apostas agora começam a se voltar para qual será o novo piso dos juros brasileiros.

Os cortes na Selic são um reflexo da pasmaceira da economia, que deve crescer menos de 1% neste ano, e da inflação sob controle abaixo do centro da meta de 4,25% ao ano.

Não é a decisão tomada na semana passada pelo BC, nem as das próximas reuniões, portanto, que deve guiar as aplicações de um investidor.

"Parece que as pessoas esperam a quinta-feira [as decisões de corte de juros saem sempre às quartas após o fechamento do mercado] para fazer alguma coisa, mas a gente já sabe que vai acontecer", afirma o planejador financeiro Roberto Agi.

Para ele, o ciclo de queda dos juros criou uma angústia nos investidores, acostumados a ver o dinheiro render de forma mais polpuda.

"As pessoas gostam de ver quanto o patrimônio cresce em valor, meu dinheiro rende R$ 500 por mês", afirma.

Se antes elas ignoravam que do juro de 14%, mais de 10% era comido pela inflação, agora elas se angustiam com essa sensação de que o dinheiro rende pouco e buscam por milagres, "por um investimento que vai render 1% ao mês", completa Agi.

A única maneira de garantir que os investimentos continuarão gerando um retorno satisfatório para atender às metas do poupador é ter uma carteira diversificada –pode ser que isso inclua ações.

"[O importante é] estar em uma carteira compatível com o perfil independentemente do patamar de juros. Tem pessoas que só tinham renda fixa básica, só Tesouro Selic. Talvez o risco dela continue sendo só Tesouro Selic mesmo. Mas havia muitas pessoas que, como os juros eram altos, tinham a comodidade de não tomar risco. Para essas pessoas, aí sim, faz sentido procurar uma carteira mais diversificada", afirma Luciano Tavares, presidente da Magnetis.

A diversificação de investimentos começa apenas após o poupador formar a chamada reserva de emergência, o equivalente a seis meses de gastos que precisam ficar aplicados em investimentos que possam ser resgatados a qualquer momento e acompanhem a taxa de juros, mesmo que baixa.

É o caso do Tesouro Selic, da poupança ou de fundos que invistam em títulos públicos (o mercado já conta com uma ampla oferta sem taxas de administração, importante quando os juros estão baixíssimos).

Portanto, apesar das afirmações categóricas de que o CDI morreu, a verdade é que não, ele não morreu e continuará a fazer parte dos investimentos de qualquer pessoa.

A dificuldade começa após superada essa etapa: se com os juros elevados, o ganho era fácil e as recomendações de investimentos se baseavam em indicar CDBs de banco médio, que pagavam um percentual maior do CDI, agora essa equação não é tão simples.

Grosso modo, é preciso mesclar tipos de risco distintos. Em ações, o investidor corre risco de mercado [as oscilações de preço]; em CDBs ou debêntures, o risco principal é de crédito (ou de tomar um calote), mas há também o risco de liquidez, que é a dificuldade de se desfazer de um ativo.

Não é apenas em ações que há risco de mercado: o Tesouro IPCA+, título público amplamente recomendado para uma carteira de longo prazo, pode trazer prejuízos ao investidor que precisar resgatá-lo antes do vencimento.

Apesar do amplo otimismo de todos que estão no dia a dia do mercado financeiro, que faz parecer que a Bolsa jamais voltará a cair, investimentos em ações continuam sendo de risco. Por isso, devem compor, mesmo com juros baixos, apenas uma pequena parcela dos investimentos, a depender do investidor.

Planejadores financeiros e gestores são os profissionais capacitados a ajudar investidores a montar uma carteira diversificada, que contemple o risco que ele está disposto a correr e o prazo que pretende manter a aplicação.

Algumas fintechs se especializaram como gestoras de carteiras de investimentos de acordo com o perfil –o questionário é preenchido pela internet e após o término, a empresa indica uma das carteiras preexistentes.

Fonte: FolhaPress

Imprimir