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Após uma década, famílias têm acesso à água encanada e param de comprar galões de até R$ 50

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Implantação da rede de água na Vila Leonel Brizola foi comemorada por moradores que chegavam a carregar diariamente mais de 10 baldes  (Foto: Roberta Aline)

 

Por Graciane Sousa- Cidadeverde.com
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Desde abril deste ano, a tubulação instalada em meio ao chão de terra batida na Vila Leonel Brizola, na zona Norte de Teresina, abre espaço não só para a passagem de água, mas para que 608 famílias tenham cidadania. Os primeiros moradores chegaram há cerca de uma década e começaram a ocupar a área de forma irregular, as chamadas invasões. Somente agora em 2019, a vila foi reconhecida pela prefeitura de Teresina como ocupação consolidada e com isso foi assegurado o direito à agua que, paulatinamente, passou a ser distribuída regularmente pela Águas de Teresina. 

Por anos, a água que chegava aos moradores vinha por meio de gambiarras que além de gerar muitas perdas ainda deixava os moradores vulneráveis à contaminação e infecções como a diarreia. Fora o risco à saúde havia o sofrimento de carregar baldes e mais baldes de água sob o forte sol da Capital. Na época, carrinhos de mão se tornaram quase item obrigatório para que as famílias conseguissem encher mais vasilhames. No local improvisado por moradores e chamado de “bico da caixa d'água”, filas se formavam diariamente para conseguir um pouco do líquido usado até mesmo para matar a sede. 

"Bico da caixa d'água":  local improvisado pelos próprios moradores da Vila Leonel Brizola para conseguirem água (Foto: Roberta Aline/ Cidadeverde.com)

 

Para quem se depara com as plantas bem cuidadas e verdinhas na casa do ajudante de pedreiro Rones Lopes, nem imagina a árdua tarefa que ele dividia com a esposa para encher diariamente quase dez baldes de água. 

 Antes do abastecimento regular, o carrinho de mão e as longas caminhadas para pegar água faziam parte da rotina do ajudante de pedreiro Rones Lopes (Foto: Roberta Aline/ Cidadeverde.com)

 

“Era muito ruim ter que pegar água no carrinho de mão. Saía por volta de 14h, no meio do sol quente. Essa foi a nossa rotina por quatro anos e havia dias que a gente não conseguia encher as vasilhas todas. À tarde, o vigia liberava a água na mangueira de 15h às 17h”, disse o ajudante de pedreiro. 

Antes da regularização, Rones improvisou um sistema de abastecimento com água para conseguir tomar banho de chuveiro.

Rones Lopes improvisou um sistema de abastecimento para conseguir tomar banho de chuveiro (Foto: Roberta Aline/ Cidadeverde.com)

 

“Eu fiz uma adaptação. Pegava água nos baldes e jogava em um tambor de 200 litros. Coloquei uma bomba e fiz a instalação para que a água subisse para a caixa d'água e a gente pudesse, pelo menos, tomar banho de chuveiro e gastar menos água”, disse Lopes, um dos primeiros moradores da Vila Leonel Brizola contemplados com o abastecimento regular. 

Na casa da aposentada Francisca da Silva, 62 anos, a instalação do hidrômetro foi marcada por lágrimas de felicidade, principalmente, devido ao passado de muitas dificuldades. Ela relembra que resolveu se mudar para a vila ainda quando era uma ocupação irregular e tal opção se deu pelas condições financeiras precárias, insuficientes até mesmo para morar de aluguel. Por vezes, a casa de taipa da idosa veio abaixo durante as chuvas. Para proteger os netos, ela e a filha os colocavam embaixo de uma mesa para que a lama da casa não atingisse as crianças que hoje têm 6 e 7 anos. 

“E essa nossa história tem a ver com a questão da água porque a gente dizia que enquanto a água não chegasse, não íamos construir nossa casa com material melhor. Imagina só a gente gastar com a casa e essa água nunca chegar? Foram quase dez anos carregando baldes no carrinho de mão e não tínhamos como construir uma casinha melhor sem saber de verdade se a vila ia ser regularizada e a gente ia ter água na torneira. O sofrimento era muito grande. Havia dias que eu e minha filha pensávamos que não aguentaríamos, principalmente, na época do inverno que parte da casa caía”, relembra a idosa. 

Assim como Rones Lopes, ela e a filha Adalgisa da Silva percorriam uma distância considerável para garantir água para beber, tomar banho e usar nos afazeres domésticos. Atualmente, o carrinho de mão usado para transportar os vasilhames faz parte apenas de tantas lembranças difíceis da família.

GAMBIARRAS E O DESPERDÍCIO

A água que chega com regularidade nas residências das 608 famílias é captada de um poço, tratada pela Águas de Teresina e abastece também 400 famílias do conjunto que também é chamado de Leonel Brizola. Antes da implantação da rede de abastecimento na vila, a água chegava precariamente na casa de alguns moradores por meio de gambiarras.

“Isso trazia um prejuízo muito grande porque essas gambiarras puxavam água do sistema do conjunto Leonel Brizola que teve o abastecimento regularizado primeiro, ou seja, a Águas de Teresina produzia 24 horas e não conseguia abastecer as famílias do conjunto onde tudo estava certo, onde as pessoas pagavam pelo consumo de água, por conta das gambiarras que puxavam de maneira irregular para a vila”, explica  Pedro Alves, gerente de sustentabilidade da Águas de Teresina. 

A solução para o problema na Vila Leonel Brizola foi construída por meio de diálogos constantes com a população. No local foi implantado 5, 7 km de rede de água. Os investimentos ultrapassaram R$ 773 mil. Para tanto, o reconhecimento da área como ocupação consolidada por parte da prefeitura de Teresina foi fundamental. 

“Foi uma solução construída com os moradores e lideranças do bairro. A primeira ação que fizemos foi criar um sistema independente porque a prefeitura ainda não tinha sinalizado uma previsão para a regularização da vila. Estamos operando em Teresina há pouco mais de dois anos e há um ano e meio tentávamos uma solução para essa área”, explica Alves. 

O gerente de sustentabilidade da concessionária acrescenta que, sem o reconhecimento da área como regular, havia outro grande problema ocasionado pelas gambiarras no sistema elétrico. 

 Pedro Alves, gerente de sustentabilidade da Águas de Teresina, conta que as gambiarras deixavam sem água moradores de uma área já atendida regularmente pela concessionária (Foto: Roberta Aline/ Cidadeverde.com)

 

“Um agravante é que até uns meses atrás, a maior parte da população se alimentava da energia que vinha do poço e causava várias oscilações na bomba e a intermitência causava problema junto ao equipamento. Foram  incontáveis as bombas que tivemos que trocar, mas não medimos esforços para abastecer o pessoal, inclusive, contratamos carros-pipas. A água que vinha para o conjunto era suficiente, mas não dava para todos os moradores devido as gambiarras, o que causava muito desperdício e perda que superava o que a gente colocava para abastecimento”, explica Alves.

A situação dos moradores começou a mudar a partir de abril deste ano quando o prefeito Firmino Filho assinou um termo de ocupação consolidada, o que deu o start para a atuação da Águas de Teresina. 

“Sem isso, não era possível levantar recursos, viabilizar projetos. Em abril partimos para o projeto executivo, levantamento, aquisições e foi feito todo o processo que culminou com a execução”, explica o gerente de sustentabilidade. 

 

“FOI UM ACONTECIMENTO DE CIDADANIA”

Pedro Alves acrescenta que a implantação da rede foi um “acontecimento de cidadania”. 

“Muitas pessoas não tinham sequer um comprovante de residência. Moravam em uma área que não era reconhecida pela prefeitura ao mesmo tempo que não tinham energia e água. O tempo todo contamos com o apoio da população para que a situação deles fosse regularizada. O interessante é que tivemos apoio tanto dos moradores da área regular [Conjunto Leonel Brizola] como dos moradores da área até então irregular [ Vila Leonel Brizola]. Esse é um canal que a gente trabalha bastante para que os moradores possam nos ajudar”, reitera. 

Representantes da Águas de Teresina apostaram no corpo a corpo e diálogo constante com a comunidade para a construção de uma solução definitiva para a falta d'água na vila (Foto: Roberta Aline/ Cidadeverde.com)

 

"É um reconhecimento de cidadania e inclusão. Ouvimos histórias de várias pessoas que passaram por situação de extrema dificuldade, grandes problemas. Vimos senhoras idosas carregando água em carrinhos, pescadores que levavam redes para lavar em um cano. Hoje a gente vê uma satisfação com a solução final”, acrescenta Pedro Alves.

A implantação da rede d'água na Vila Leonel Brizola começou em setembro deste ano. No início de outubro foram instalados 250 hidrômetros e, no mesmo mês, 680 famílias passaram a ter água diariamente em casa (Foto: Roberta Aline/ Cidadeverde.com)

 

A implantação da rede de abastecimento de água na Vila Leonel Brizola integra uma série de obras implementadas pela Águas de Teresina que há cerca de dois anos é responsável pelo abastecimento de água e tratamento de esgoto na Capital. A meta é que a concessionária universalize o abastecimento de água tratada na cidade até 2020. 

Foram instalados 5,7 km de rede d'água na Vila Leonel Brizola. O reconhecimento da área como ocupação consolidada foi imprescindível para o início do trabalho pela Águas de Teresina (Foto: Roberta Aline/ Cidadeverde.com)

 

Sandra Carvalho, presidente da Associação de moradores da Vila Leonel Brizola, foi uma das moradoras que batalhou dia a após dia para a implantação da rede de água e participou de várias negociações com representantes da concessionária. Ela relembra que, em muitos dias, só havia água por dez minutos e quem podia pagava até R$ 50 por vários baldes para encher uma caixa d'água.  

"No início, nós pagávamos R$ 10 por um tambor de água de 1 litro e R$ 50 por uma caixa d'água cheia. Após a obra paliativa da Águas de Teresina, paramos de comprar. Só quem era muito idoso ou morava muito longe comprava água de pessoas que iam no bico da caixa d'água, enchiam os tambores e vendia. O sofrimento deles acabou agora", explica Carvalho.

A obra paliativa consistiu na implantação de uma tubulação pela qual os moradores podiam instalar canos para levar água à residência. 

Sandra Carvalho, presidente da Associação de moradores da Vila Leonel Brizola, participou diretamente da construção de uma solução definitiva para o problema da falta d'água na comunidade (Foto: Yasmin Cunha/ Cidadeverde.com)

 

Sandra conta agora  que o sentimento é de gratidão por ter água todos os dias em casa. 

"A vida mudou. Todo mundo está com água na torneira e conseguimos também a regularização do fornecimento de energia. Me sinto realizada em ver esse esforço. É muito gratificante ver minha comunidade alcançando esses benefícios. Hoje a gente vive melhor por ter água dentro de casa e não precisar carregar mais", conclui Sandra Carvalho. 

No último dia 23, representantes da Águas de Teresina se reuniram com moradores para entrega simbólica da obra quando também foram repassadas orientações importantes sobre como não desperdiçar a água que é essencial à vida e, por quase uma década, a falta do precioso líquido causou sofrimento a tantas famílias. 

Moradores atentos durante a entrega da obra recebendo orientações sobre o uso consciente da água (Foto: Yasmin Cunha/ Cidadeverde.com)
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