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Janis Joplin foi a aldeia hippie e curtiu LSD na praia em viagem à Bahia

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Fotos: Reprodução/instagram/@janisjoplin

Quando o carioca Marinho foi chamado ao telefone, na casa de amigos, em Salvador, para falar em inglês com uma mulher, ele pegou o aparelho e perguntou quem era. "Janis", disse a mulher. "Janis de quê?", questionou. "Janis Joplin", disse ela. "Ok, eu sou James Bond", devolveu. Mas só ele não estava falando sério.

Por indicação do fotógrafo Ricky Ferreira, seu anfitrião casual durante visita da cantora ao Rio de Janeiro, Janis Joplin havia acabado de chegar a Salvador, no verão de 1970. Ela pegou carona na estrada com o namorado David Niehaus para se encontrarem com o artista plástico Lula Martins.

Niehaus falava espanhol e perguntou a Martins se podiam ficar na casa dele, de frente para a praia do Rio Vermelho. "Ela deixou de ser ídolo, passou a ser uma a mais de nós. Foi muito bonito", diz Martins.

Essas histórias e depoimentos estão no documentário "Summertime na Bahia", de Henrique Dantas. Por problemas com direitos autorais, o longa ainda não pôde ganhar uma versão final e ser exibido. 

A ideia é retomar o documentário futuramente, mas agora Dantas faz parte de um núcleo criativo que prepara um longa de ficção com o mesmo título, inspirado nas aventuras da cantora em terras baianas.

"Desde criança ouço histórias sobre Janis, porque um tio meu esteve com ela", diz Dantas. "Existe muita lenda a respeito, procurei descartar o que não podia ser comprovado".

A turma que se formou ao redor de Janis esbaldou-se durante cinco dias em fevereiro de 1970.

"Andávamos por toda a Salvador sem que as pessoas percebessem a roqueira. Éramos vistos como uma turma de hippies", explica Martins.

Num desses passeios, a turma foi até a casa do artista plástico Gilson Rodrigues, e de lá rumavam para a badalada boate Anjo Azul, quando Janis ouviu um som de guitarra vindo de um prostíbulo, na Ladeira da Montanha, e resolveu entrar. Uma banda, contratada por marinheiros americanos, animava a casa.

Num intervalo, o guitarrista ficou só no palco e começou a tocar os acordes de "Summertime". Muito bêbada, quando os amigos já queriam levá-la pra casa, Janis subiu ao palco e cantou a canção. Em seguida, a banda retornou e a acompanhou em mais duas músicas, levando a turma às lágrimas.

"Todos que estávamos lá desfrutamos de um show espontâneo e cheio de cumplicidade musical. Uma manifestação de arte pura", conta Martins.

Na última noite juntos, a turma curtiu uma viagem de LSD enterrada na areia da praia da casa de Martins, ao som do disco "I Got Dem Ol' Kozmic Blues Again Mama!".

Na manhã seguinte, fotógrafos rondavam a casa. Janis e Niehaus foram levados para o Hotel da Bahia, onde não foram aceitos. Em seguida, foram para a aldeia hippie de Arembepe. Dois dias depois, Janis foi embora.

Em junho, Janis falou sobre sua vinda ao Brasil no programa The Dick Cavett Show, dizendo-se uma "beatnik na estrada" e que sua estadia por aqui foi "muito doida". Em agosto, ela voltou ao programa de Cavett, de quem era amiga, em sua última aparição na televisão.

No dia 4 de outubro de 1970, Janis Joplin morreu num quarto de hotel, aos 27 anos, vítima de overdose.

"Eu escuto Janis Joplin como uma voz amiga, como uma coisa próxima, não aquela pop star. Tipo assim: amanhã vou te encontrar", diz o empresário Marinho no documentário.

Pouco antes de morrer, o artista plástico Gilson Rodrigues contou que, quando Janis Joplin foi pra Arembepe, esqueceu um dos seus casacos na casa dele, que passou a usá-lo orgulhosamente por Salvador, até saber da morte da cantora. 

Numa homenagem, ele decidiu ir até Rio Vermelho e jogou o casaco dela no mar das praias em que aquela turma curtiu um barato inesquecível.

 

Fonte: Folha Press

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