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Economia

Mercado interrompe recuperação após três semanas positivas e dólar volta a R$ 5

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Foto: Willian Moreira/Futura Press/Folhapress

 

Depois de três semanas de queda do dólar e alta da Bolsa, a aversão a risco voltou ao mercado brasileiro. Após o rali que levou a Bolsa a 97 mil pontos e o dólar a R$ 4,90 nesta semana, investidores realizaram lucros com o risco de uma segunda onda de contaminação do coronavírus e o tom cauteloso do Banco Central americano quanto à recuperação da economia, que levou Wall Street ao pior pregão desde março na quinta (11).

Nesta sexta (12), em volta de feriado, o dólar disparou 2,24%, a R$ 5,046, maior alta diária desde 7 de maio, quando o Banco Central brasileiro surpreendeu e cortou a Selic para 3% ao ano. O turismo está a R$ 5,25.

Nesta semana, a moeda acumulou alta de 1,2%. No ano, ela sobe 25,7%.

Nas três semanas anteriores, o dólar despencou 13% após bater o recorde nominal (sem contar a inflação) de R$ 5,90.
Nesta sessõo, o Ibovespa recuou 2,00%, a 92.795 pontos, repercutindo a queda de 7,8% do principal índice de ADRs (recibos de ações negociados nos EUA) brasileiras na véspera. Hoje, o índice subiu 3,8%.

Nesta semana, a Bolsa brasileira recuou 1,95% depois de saltar 22% nas três semanas anteriores. No ano, há queda de 19,75%.

"A economia mundial viveu as últimas duas semanas uma onda positiva com a demonstração do enfraquecimento da pandemia na Europa, Ásia e América do Norte e com a injeção de 600 bilhões de euros pelo Banco Central Europeu e anúncio de um novo pacote de estímulos fiscais pelo governo americano para o próximo mês", diz Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora.

A perspectiva, porém, mudou com o aumento de casos de Covid-19 nos EUA, levantando a possibilidade de uma segunda onda de contágio. Autoridades monetárias também alertaram que, apesar a avalanche de recursos para estimular a economia, a recuperação será lenta da economia.

"Não podemos tomar esse movimento como tendência. É preciso entender que ainda há uma grande possibilidade de volatilidade no mercado financeiro, visto que ainda não possuímos uma vacina para a cessão definitiva da pandemia" afirma Velloni, da Frente Corretora.

Nesta sessão, as ações da Petrobras desabaram, acompanhando a queda de 9% de seus ADRs na véspera. As preferenciais (mais negociadas) recuaram 3,7% e as ordinárias (com direito a voto), 3,5%.

As ações do IRB Brasil recuaram 11,3% e as da CVC, 9,5%, as maiores quedas do pregão. Gol caiu 8,4% e Azul, 5,9%
Nos Estados Unidos, Dow Jones subiu 1,9% após despencar 6,9% na quinta. Já o índice S&P 500 teve alta de 1,31% após queda de 5,9% na véspera.

Depois de bater recordes na semana, a Bolsa de tecnologia Nasdaq subiu 1,01%.

Na Europa, o índice Stoxx 600, que reúne as maiores companhias da região, subiu 0,28% após cair 4% no pregão anterior. A Bolsa de Frankfurt caiu 0,2% e Londres e Paris subiram 0,5% cada uma.

A preocupação com uma segunda onda de casos segue no radar de investidores. Na Flórida, os casos de Covid-19 subiram 2,8%, a maior alta diária desde 1º de maio. A Índia registrou aumento diário recorde, enquanto o país retoma atividades. Nos Estados Unidos, estados registram alta nos casos e aumento das internações. Na China, dois casos novos de Covid-19 foram registrados na capital.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), disse nesta quinta que "a ameaça de um ressurgimento continua muito real".

O Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA (CDC, na sigla em inglês) afirmou que, se casos subirem muito, medidas tomadas em março para conter o avanço do vírus terão que ser repetidas.

Além disso, o Fed, Banco Central dos EUA, enviou seu relatório semestral ao Congresso nesta sexta, retomando o tom cauteloso adotado ao comentar a manutenção de juros próximos de zero por um longo período, bem como projeção de alto nível de desemprego.

No relatório, o banco projeta que as finanças das famílias americanas e os balanços das empresas vão sofrer "fragilidades persistentes" como resultado do choque da atividade econômica em decorrência da pandemia do coronavírus.

O Fed listou uma série de preocupações, como perspectiva altamente incerta de contenção do surto, com risco substancial de ressurgimento de infecções; potencial onda de falências de empresas - em particular firmas pequenas - decorrente do colapso da demanda dos consumidores; incerteza sobre perspectivas de recuperação da demanda por parte dos trabalhadores e possíveis pressões negativas sobre salários; grandes pressões nas finanças dos governos estaduais e locais; e uma reconfiguração potencialmente cara das cadeias de suprimentos globais, fraturadas pela interrupção das atividades comerciais.

Além disso, a recessão causada pelo Covid-19 - iniciada oficialmente em fevereiro, conforme informado nesta semana - pesou ainda mais no crucial setor de serviços, o qual responde por cerca de dois terços da produção econômica dos EUA, e isso pode dificultar a recuperação.

"Diferentemente das recessões passadas, a atividade de serviços caiu mais acentuadamente do que a manufatura - com restrições no movimento reduzindo severamente gastos com viagens, turismo, restaurantes e recreação -, e os requisitos e atitudes de distanciamento social podem pesar ainda mais na recuperação desses setores", disse o relatório.

O Fed disse que o impacto da pandemia no mercado de trabalho foi "repentino, severo e generalizado", mas apontou que as perdas de emprego afetaram desproporcionalmente trabalhadores de baixos salários, que podem estar menos preparados para um longo período sem remuneração.

A divulgação do relatório do Fed - que precede dois dias de depoimentos ao Congresso pelo chair do BC dos EUA, Jerome Powell, na terça e quarta-feira da semana que vem - ocorreu dois dias após o Fed encerrar sua última reunião de política monetária.

Na reunião, o banco central sinalizou que a economia dos EUA enfrenta uma recuperação árdua e incerta ante a recessão desencadeada pela pandemia de coronavírus.

"É um longo caminho. Vai levar algum tempo", disse o chair do Fed, Jerome Powell, em entrevista coletiva após a reunião.
Em suas projeções econômicas divulgadas na quarta-feira, as primeiras desde dezembro, os formuladores de política monetária do banco central previram encolhimento da economia a uma taxa anualizada de 6,5% em 2020 e taxa de desemprego de 9,3% ao fim do ano - abaixo do nível de 13,3% de maio, porém mais de duas vezes e meia superior à taxa de fevereiro (3,5%), quando uma expansão econômica recorde foi interrompida abruptamente em razão da pandemia.
Essa avaliação sombria da perspectiva ofuscou grande parte do otimismo em relação a uma rápida recuperação econômica -que havia sido desencadeado pelo surpreendente crescimento do emprego em maio -e foi levou ao pregão negativo desta quinta em Wall Street.

JÚLIA MOURA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

 

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