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Lar de Maria 20 anos: entidade reduz em 95% o abandono do tratamento de câncer em crianças

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Fotos: Ascom

Há 20 anos iniciava uma história de amor, pautada pela solidariedade e bem estar de crianças e adolescentes diagnósticas com câncer. Em junho de 2000, nascia a Casa de Apoio a Criança com Câncer – Lar de Maria, um projeto da Rede Feminina de Combate ao Câncer do Piauí (RFCC-PI), planejado, inicialmente, para acolher pacientes com câncer em situação de vulnerabilidade social provenientes do interior do Piauí e outros estados, durante o tratamento em Teresina. Hoje, além de uma casa de apoio, o Lar de Maria se consolidou como um espaço de esperança, sonhos e vitórias por meio do amor ao próximo fortalecido pelo voluntariado e uma grande rede de amigos e parceiros.

Apesar do cenário de pandemia, que modificou o calendário de comemorações planejado desde 2019, a presidente da RFCC-PI, Carmen Campelo, relembra, com emoção, toda a trajetória para chegar até hoje e afirma que a maior conquista de todos esses anos foi a diminuição das taxas de abandono no tratamento oncológico que à época era de 75%. Segundo a voluntária, após a inauguração da casa de apoio a taxa de abandono hoje é de menos de 5% em todo o Estado. Além de hospedagem, o Lar oferece alimentação, material de higiene pessoal, roupas, calçados, brinquedos, cestas de alimentos, auxílio para aquisição de medicamentos, viabiliza o transporte dos pacientes por meio da compra de passagens, atividades sócio-educativas e de lazer. Ações que asseguram a permanência de centenas de famílias a prosseguir no tratamento oncológico de seus entes.

“Essa foi nosso maior conquista. 20 anos depois a gente ver que tudo valeu a pena, todo o esforço e todas as dificuldades. Após o Lar de Maria as crianças a adolescentes tiveram a oportunidade de concluir o seu tratamento, por meio de uma estrutura totalmente voltada para acolher tanto o paciente, como também seu acompanhante, com um apoio que vai desde o psicológico até o financeiro. Outra grande conquista também foi a consolidação do trabalho da Rede Feminina de Combate ao Câncer. Por meio da estrutura física da casa a sociedade passou a acreditar ainda mais nos nossos projetos e foi abraçando a causa. E, sem dúvidas, o telemarketing também. Nós conseguimos inovar e com o tempo outras instituições foram se espelhando neste nosso serviço e adotando como um importante mecanismo para angariar recursos”, disse a presidente.

A casa de acolhimento que nasceu da urgente necessidade de sanar o abandono ao tratamento oncológico infantojuvenil teve sua primeira sede em um imóvel doado pela senhora Maria Area Leão, localizada na rua Barroso, no centro de Teresina. Por isso, a Casa de Apoio a Criança com Câncer recebeu o nome de Lar de Maria, em homenagem ao nome da dona da primeira casa doada para o projeto.  Porém, o local era pequeno e precisava de reparos e adaptações, que eram inviáveis para a realidade financeira da instituição naquele momento.

Foi então que o Dr. Alcenor Almeida, médico fundador do Hospital São Marcos, emprestou uma casa na Rua Olavo Bilac, próximo as dependências do hospital para ser a nova sede do Lar. O lugar passou por diversas reformas e adaptações para as necessidades dos pacientes oncológicos acolhia apenas 20 pessoas. Simultaneamente, nessa sede foi instalado o primeiro telemarketing de arrecadação filantrópica de Teresina para auxiliar na manutenção dessa casa.

Carmen Campelo relembra nessa época da instalação do telemarketing e destaca o papel pioneiro da iniciativa no Piauí. “Desde o início tivemos muitas dificuldades financeiras, pois erguer uma casa de apoio há 20 anos atrás quando não havia nenhuma em Teresina foi muito difícil e nós não tínhamos nenhuma renda certa ainda. Era uma época de poucos recursos, mas de muita vontade de fazer esse projeto acontecer, então fomos batalhar. Começamos um trabalho com o telemarketing, que foi uma ideia inovadora porque aqui não tinha nada parecido ainda,” disse a presidente.

Em 2007, mediante a necessidade de mais espaço, as voluntárias buscaram apoio do Sr. João Claudino, fundador do Armazém Paraíba, que sensibilizado pelo trabalho realizado pela RFCC-PI, cedeu um imóvel para a instituição. Porém, no período de captação dos recursos para a construção da nova sede os cálculos revelavam um grande investimento, também difícil para ser executado, porque a edificação teria que ser em formato de prédio, pelo fato do terreno ser estreito. Então, o terreno doado pelo empresário foi vendido e o dinheiro angariado com a venda seria aplicado na compra de um novo espaço mais amplo, local onde hoje é a atual sede da instituição, localizada na Avenida São Raimundo, bairro Piçarra.

Uma das voluntárias pioneiras da RFCC-PI, Mazé Portela, que atua desde 1999 em prol dos pacientes com câncer, ressalta a evolução que o Lar de Maria apresentou durante esses 20 anos de história. "Hoje o Lar de Maria está totalmente diferente, somente os princípios de ajuda ao próximo e colaboração continuam os mesmos. Em relação ao ambiente físico a maior diferença é ter uma sede própria, não mais uma casa emprestada como era antes", lembra a voluntária.

Mais do que uma casa, um espaço que acolhe

Além de toda a estrutura financeira que possibilita a continuidade do tratamento oncológico, o Lar de Maria traz inúmeros outros benefícios que contribuem diretamente no aumento da auto-estima dos pacientes. A Casa de Apoio possui a capacidade para receber 48 pacientes, de 0 a 18 anos, e seu respectivo familiar, e conta com ampla estrutura física composta por dormitórios personalizados, refeitório, auditório, sala de jogos, espaço de música e dança, sala de aula, consultório odontológico e fisioterápico, além de uma quadra para práticas esportivas e demais atividades de lazer.

Beatriz Silva, da cidade de Barras no interior do Estado, foi uma das pacientes oncológicas amparadas pelo Lar de Maria ainda na primeira década. Ela deu entrada na casa de acolhimento em 2004 e ficou sob os cuidados das voluntárias da RFCC-PI permanecendo até hoje. Não mais como beneficiária e sim como colaboradora da Casa, Bia, conhecida carinhosamente por todos, retribui em forma de amor, carinho e respeito, todos os cuidados recebidos desde o dia que chegou na casa aos pacientes que hoje fazem tratamento.

"O Lar de Maria para mim é basicamente tudo, é a minha família que hoje tenho. Deus me proporcionou isso e eu acho que eu tenho a família mais linda, sou rodeada de pessoas maravilhosas e de mulheres guerreiras que tenho como maior exemplo. Eu espero algum dia retribuir tudo que essa instituição fez por mim e faz até hoje. Apesar de ter terminado o meu tratamento em 2006, eu ainda moro no Lar de Maria e trabalho na instituição, ajudando da melhor forma que posso", disse.

Histórias como a da Beatriz não são difíceis de se achar, afinal, no decorrer dos anos a Casa já realizou mais de 80 mil atendimentos e mais de 3 mil crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social já foram acolhidas. Dentre elas, Pedrina Cruz, que também foi diagnosticada com câncer no ano de 2001 e buscou auxilio no Lar de Maria, pois residia na cidade de São Pedro do Piauí e não tinha condições de arcar com as despesas do tratamento em Teresina.

"No momento do diagnóstico eu pensei que iria morrer, fiquei desacreditada. Como venho do interior, eu tinha a ideia de que o câncer não tinha cura. Porém, isso mudou quando ainda internada no hospital e conheci as voluntárias da RFCC-PI, e vi esse trabalho de combate ao câncer que me incentivou a acreditar que eu poderia ser curada. E quando tive alta do hospital não tinha onde ficar em Teresina para continuar meu tratamento. E uma assistente social me recomendou buscar ajuda no Lar de Maria, que era como se fosse minha casa", conta a ex-paciente.

Pedrina ainda destaca a importância da instituição nos dias de hoje na vida dela, apesar de já ter vencido a doença. A ex-paciente, que na época do tratamento precisou amputar a perna, teve apoio da Rede para comprar a prótese e para fazer as manutenções do equipamento.

"Ainda hoje a RFCC-PI me ajuda, mesmo quase 20 depois do meu primeiro contato com a instituição. Por conta do câncer eu precisei amputar uma perna e hoje utilizo uma prótese que foi doada pela Rede e quando eu não tenho condições de realizar a manutenção da prótese elas sempre me ajudam. Eu não tive somente um abrigo provisório, mas uma atenção especial no período que eu estava doente e até depois", completa Pedrina.

Hoje na instituição, Vyrna Lavine de 12 anos, luta contra o câncer e vive as mesmas experiências citadas pelas ex-pacientes. A menina que é natural de Pedro II está em Teresina para realizar seu tratamento oncológico e descreve a importância do Lar de Maria em sua vida. “Essa casa representa para mim um apoio que eu preciso para concluir o meu tratamento. Tudo que preciso eles estão no ponto para me ajudar. Eu sinto como se fosse minha segunda casa, a gente se apega aos outros pacientes, que tem histórias parecidas com a minha e eles são como fossem meus irmãos, amigos que aprendi a conviver. Agradeço a toda equipe que me acolheu”, disse a paciente.

Solidariedade mantém o Lar

Pela estrutura da casa é de se imaginar que os custos não são baixos. E manter a sede e todas as atividades que fazem parte do seu funcionamento, o Lar de Maria conta com doações de pessoas, empresas e grupos de solidariedade, sem qualquer apoio dos poderes públicos.

Em prol da instituição também são realizadas ações e campanhas permanentes para custear as despesas dos colaboradores contratados, que são essenciais para o funcionamento da Casa. No total, envolvendo todos os custos, a manutenção do projeto gira em torno de R$ 100 mil mensais, valor que é pago pela generosidade dos doadores.

Além de grandes campanhas como o McDia Feliz, existe também o telemarketing beneficente, o brechó 'Mercado do Bem' e uma loja na própria sede que vende roupas novas e usadas que são doadas. Tudo isso com o intuito de arrecadar fundos para as despesas da instituição.

Gracinha Andrade, vice-presidente da RFCC-PI e coordenadora do Lar de Maria, ressalta que a Casa mantém suas atividades única e exclusivamente através das doações e que, durante esses 20 anos de história, tem visto a generosidade e solidariedade dos doadores. "Não temos apoio financeiro do governo. A manutenção vem toda de doações, temos uma ajuda do nosso telemarketing filantrópico e das nossas campanhas. E se chegamos aqui foi graças a solidariedade de todos que sempre nos ajudaram a tocar esse projeto, nem mesmo nesse período de pandemia do Coronavírus ficamos desamparadas, a todo instante chega doações de pessoas e empresas que entenderam o nosso papel essencial de apoio a essas crianças que lutam contra o câncer", destacou a coordenadora.

Outra estratégia adotada para angariar recursos para o Lar será lançada ainda nesse mês, a loja virtual 'Lá do Coração', que venderá camisas personalizadas com um design próprio da instituição. Toda a venda dos itens será revestida também para os custos da Casa.

20 anos é apenas o marco para projetos futuros

Durante esses 20 anos de história, o Lar de Maria coleciona diversas conquistas e superações, mas o sonho de combater o abandono do tratamento oncológico infatojuvenil e o diagnóstico precoce não para por aqui. Apesar da RFCC-PI ser uma instituição de referência no assunto, até em âmbito internacional, ainda existem sonhos para serem realizados em prol desses pacientes.

Um desses projetos é tornar o Lar de Maria em um centro de profissionalização e de atendimento oncológico para os pacientes. Carmen Campelo explica que dessa forma os pacientes em tratamento poderão se profissionalizar em uma área e quando forem curados poderão ter mais chances em vagas no mercado de trabalho.

“A gente tem esse sonho de transformar a casa em um centro de atendimento oncológico, mesmo que simples, mas que atenda ao público que está em tratamento contra o câncer. Também temos a perspectiva não somente de manter a casa, mas em transformá-la em um centro de profissionalização para os pacientes e acompanhantes. Eles passam muito tempo fora da escola, por conta do tratamento, e a gente quer gerar essa oportunidade de profissionalizá-los e capacitá-los, para que ao término do tratamento eles consigam novamente postos de trabalho”, disse a voluntária.

A presidente ainda revela o desejo de montar um grupo de voluntariado mirim, que irá incentivar as crianças a prestarem trabalho voluntário. A estratégia seria a porta de entrada para as crianças que sonham em ser voluntárias na luta contra o câncer. “Queremos instalar no Lar de Maria um grupo de voluntariado mirim. Esse grupo será o futuro da instituição, uma porta de entrada para que essas pessoas conhecessem o voluntariado e assim fossem crescendo nesse conhecimento e no futuro”, finaliza Carmen Campelo.

 

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