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Russomanno pode usar pandemia para se expor menos e evitar queda

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Foto: Câmara dos Deputados

Líder nas pesquisas de intenção de voto, Celso Russomanno (Republicanos) fará uma campanha com agendas controladas e dosará sua exposição para tentar manter a dianteira, segundo auxiliares ouvidos pela Folha de S.Paulo que o acompanham em sua terceira tentativa consecutiva de chegar à Prefeitura de São Paulo.

A estratégia antidesgaste se assemelha, ainda que em um contexto diferente, às mudanças ocorridas na campanha de Jair Bolsonaro, apoiador de Russomanno, depois da facada sofrida na eleição de 2018.

O hoje presidente se ausentou de debates após o atentado e escapou do envolvimento em novas polêmicas. Adversários e analistas apontam o episódio como um dos elementos que contribuíram para o então presidenciável (à época no PSL, hoje sem partido) alcançar a vitória.

A circunstância inédita desta vez é a pandemia do coronavírus, que pode ser convertida em um pretexto ideal para saídas de cena estratégicas, dizem assessores de Russomanno.

As regras para atenuar a propagação do vírus causador da Covid-19 alteraram a rotina de candidatos, mas muitos mantiveram o corpo a corpo com eleitores e estão fazendo visitas e conversas pessoalmente.

No caso do apresentador de TV e deputado federal, caminhadas em locais de grande aglomeração de pessoas tendem a ser reduzidas, em nome do combate ao vírus, mas também como forma de preservar o capital eleitoral acumulado até aqui.

Um dos conselhos dados ao candidato é que a ida a lugares públicos ocorra de forma monitorada, para barrar imprevistos. A preferência deve ser por áreas com plateias amigáveis.

Medidas sanitárias contra a pandemia poderão ser invocadas para recusar convites para entrevistas e debates, a depender da evolução do desempenho nas pesquisas. As possibilidades foram discutidas em reuniões internas nos últimos dias e serão ajustadas com o andar da campanha.

Na campanha de rua, a tendência será evitar situações em que ele esteja exposto a danos de imagem, como cobranças diretas de eleitores e xingamentos, cujos registros podem viralizar facilmente.

Derrotado em 2012 e 2016, o candidato vê agora forte chance de ao menos chegar ao segundo turno, coisa que nunca aconteceu. Nos pleitos anteriores, ele também começou no topo das pesquisas, mas se envolveu em controvérsias que o derrubaram, como a proposta de tarifa de transporte proporcional.

O parlamentar, conhecido pela bandeira da defesa do consumidor, alcançou 29% das intenções de voto na pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (24), à frente do candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), que ficou em segundo lugar, com 20%.

Na TV e no rádio, Russomanno terá cerca de 8% do tempo de propaganda gratuita, menos do que quatro oponentes.

O apoio de Bolsonaro ao seu nome é um dos fatores que fazem o postulante e seu entorno considerarem que "chegou a vez" dele. Assim, o trabalho agora seria apenas cultivar um terreno seguro e usufruir da condição confortável de líder.

O Datafolha mostrou, contudo, que 64% dos moradores de São Paulo dizem que não votariam de jeito nenhum em alguém indicado pelo presidente –ele é rejeitado por 46% dos paulistanos.

Ainda não está claro se Bolsonaro entrará de cabeça na campanha no primeiro turno, mas ele já disse que poderá se envolver na disputa municipal em São Paulo e em outras cidades (citou Santos e Manaus) se for para ajudar a derrotar oponentes comuns.

Aliados de Russomanno dão como certa a participação de Bolsonaro em um eventual segundo turno, principalmente se o rival for Covas, apoiado pelo governador João Doria –tucano que é um dos adversários do bolsonarismo e cada dia mais candidato a concorrer à Presidência em 2022.

A blindagem ao candidato do Republicanos, no cálculo de assessores, o ajudará a atravessar as próximas semanas sem percalços para garantir o lugar no segundo turno. Sua ida aos debates na TV, por exemplo, é incerta. Não se descarta a ideia de que ele não compareça a todos os embates com outros postulantes.

Nesse ponto aparece novamente uma analogia com a facada que Bolsonaro sofreu em Juiz de Fora (MG), fato que praticamente selou sua ida ao segundo turno. Com o atentado, adversários amenizaram ataques a ele e perderam a oportunidade de confrontá-lo nos debates.

Por esse raciocínio, o deputado será beneficiado se conseguir emular na eleição paulistana o "efeito facada", isto é, obter as vantagens de um recolhimento em meio à guerra eleitoral -com a diferença de que Bolsonaro foi vítima de algo imprevisto e que quase lhe tirou a vida.

Outro pilar da eleição de Bolsonaro foi a comunicação feita prioritariamente por redes sociais, apostando no diálogo direto com os eleitores, tática que já está em curso na campanha de Russomanno.

Com um amplo histórico de pontos negativos explorados pelos inimigos, o líder das pesquisas tenta neutralizar controvérsias e acusações.

Sua equipe já fez uma listagem de quais polêmicas e vídeos antigos do deputado seriam rememorados. Segundo aliados, a ideia é mapear tudo o que ele respondeu de forma equivocada ou intempestiva no passado para rebater com um discurso sereno e em tom de humildade.

"Agora, Russomanno reconhece seus erros e pede desculpas. Ele vem fazendo isso por meio de vídeos nas redes sociais. Faz parte da estratégia de polimento da imagem não deixar ataques sem contestação, mas fazer isso por meio de falas pensadas, e não em respostas atravessadas a jornalistas ou oponentes.

O próprio parlamentar tem retomado vídeos que voltaram a circular nas redes e justificado suas atitudes. Fez isso com uma gravação antiga dele entrevistando mulheres no Carnaval e outra, publicada pela candidata Joice Hasselmann (PSL), em que declarava apoio a Dilma Rousseff (PT).

 

Fonte: Folhapress

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