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Breaking é a novidade de Paris-2024; cheerleading e luta soviética continuam atrás de selo olímpico

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Foto: Gaspar Nobrega/ COB

Se Paris é uma festa, em 2024 vai ser de hip-hop. O breaking, aquele estilo de dança de rua famoso pelo giro sobre a cabeça com as pernas para o alto, será a novidade dos próximos Jogos Olímpicos, programados para começar daqui a três anos na capital francesa.

A estreia desse símbolo da cultura urbana, um irmão do movimento musical nascido no gueto americano, é tida como mais um esforço do COI (Comitê Olímpico Internacional) para rejuvenescer a audiência olímpica e engajar novos fãs. As primeiras Olimpíadas das quais se tem notícia, em 776 a.C., tiveram um único esporte: uma corrida de 192 metros vencida por um cozinheiro, o grego Coroebus de Élis.

Já os primeiros Jogos da modernidade, retomados na grega Atenas em 1896, premiou nove grupos desportivos, do atletismo ao tiro com rifle e pistola.

A edição parisiense terá 32 categorias, mas quatro delas, justamente as que injetam colágeno nos Jogos, são provisórias –ou seja, não necessariamente voltarão em futuras edições. Assim, o breaking se unirá ao skate, ao surfe e à escalada, três modalidades que já passaram pelo batismo olímpico em Tóquio.

José Ricardo Freitas Gonçalves, 53, o Rooneyoyo O Guardião, é veterano no circuito. Ele preside a Confederação Brasileira de Breaking, criada dois anos após o COI reconhecer, no fim de 2016, essa dança como esporte. Tóquio não quis incluí-la na programação, Paris já viu vantagem. O status olímpico emplacou manchetes, mas a verdade é que dentro do segmento ele não é unânime, diz ele.

Quando descobriram por meio da mídia, cinco anos atrás, "a possibilidade de virar modalidade", alguns b-boys e b-girls (homens e mulheres praticantes do breaking) encanaram. "Deu um remelexo. Uns contra, outros a favor. Foi bem turbulenta essa época", conta Rooneyoyo. "Ainda tá meio confuso na cabeça deles o que é cultura e o que é esporte, é uma linha bem tênue", diz o dançarino que deu suas primeiras manobras em 1983, na 24 de Maio, rua do centro paulistano onde fazia um curso de datilografia.

Datilografar sequer é um verbo conhecido pela nova geração do breaking nacional, nascida anos depois de Rooneyoyo começar a dançar nas ruas de São Paulo. Ao contrário do skate, que no Japão agregou competidores pré-adolescentes, como a medalhista Rayssa Leal, 13, o novo esporte olímpico estipula o corte de 18 anos para torneios adultos, o resto precisa disputar com outras crianças e adolescentes.

Yeshua Rebelo, 14, não vai ter idade para competir em Paris e foca Los Angeles-2028. Promessa juvenil, ele gosta da ideia de ser considerado mais do que dançarino. "O breaking tem que virar esporte. Vai ser mais conhecido, os dançarinos vão virar atletas", diz Yeshua, vulgo B-Boy Eagle.

Yeshua Rebelo, 14, o B-Boy Eagle, campeão do kids na Batalha Final Nacional de breaking, em 2019 Divulgação ** Rooneyoyo acha que virar a chavinha é uma questão de tempo para os que se dispõem a encarar a atividade como trampolim para as Olimpíadas. "A confederação vai fazer competições exclusivamente esportivas, não mais recreativas ou culturais." Mais apoio financeiro e a oportunidade de pleitear uma Bolsa Atleta, programa bancado pelo governo federal, também entram no horizonte.

"Com o anúncio, os cultuadores da arte enxergam o distanciamento do 'atleta' [da dança], e isso cria um certo desconforto. Nós da confederação conseguimos olhar como uma porta se abrindo para o profissionalismo do setor", diz o presidente da entidade.
A entrada no principal evento esportivo do mundo foi possível porque o COI permite que cidades-anfitriãs recomendem modalidades para a edição realizada em casa. Nem todas são aceitas. Os japoneses, por exemplo, tiveram aval para beisebol, caratê, escalada, surf e skate.

Os organizadores franceses resgataram os últimos três e adicionaram o breaking. Incluir esportes que repercutem nas redes e são praticados "todos os dias, nas ruas e em qualquer lugar", era uma meta.

A inserção dessas modalidades animou outras federações a tentar a mesma sorte. O COI já reconhece algumas delas de maneira provisória –o que não garante a integração aos Jogos, mas é uma etapa obrigatória para quem sabe algum dia isso acontecer. O futebol americano, que chegou a participar das Olimpíadas de 1904 e 1932, conta com o esperado lobby dos EUA, o que ainda não funcionou.

Chaya Gabor, 11, dançarina de break apelidada B-Girl Angel do Brasil Arquivo pessoal ** Outro símbolo do país, o cheerleading (animação de torcida) também tem uma entidade certificada pelo comitê internacional. Conhecida por coreografias embaladas por pompons, a prática requer preparo físico e técnico, como na montagem de pirâmides humanas, com filas de dançarinos se empilhando.

Outros esportes à espera de um passaporte olímpico: ice stock sport (chamado também de curling bávaro), kickboxing, lacrosse, muay thai e sambo, uma arte marcial desenvolvida na União Soviética.

A incorporação de uma modalidade exige o apoio da maioria dos membros do COI, como prevê a Carta Olímpica. As candidatas são julgadas a partir de fatores como popularidade, participação internacional e "valor agregado ao movimento olímpico". As Olimpíadas já acolheram disputas tão díspares quanto tiro ao pombo (quase 300 deles abatidos em Paris-1900) e cabo de guerra (até oito pessoas por equipe nos Jogos de 1900 a 1920). É torcer, com ou sem pompom, para emplacar em Jogos futuros.

Fonte: Folhapress

 

 

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