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Mais vacinado e menos polarizado, Canadá tem nova onda de Covid menor que a dos EUA

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Foto: Roberta Aline/Cidadeverde.com

As diferenças na maneira como os vizinhos Estados Unidos e Canadá lidaram com a Covid se refletem nos dados mais recentes sobre a doença. Enquanto os casos disparam no primeiro, beirando os 150 mil diagnósticos diários, mais ao norte a nova onda chega de modo mais brando, com média de 2.000 novas infecções por dia.

Os EUA são o país com mais vítimas do novo coronavírus no mundo, com mais de 630 mil mortos ao longo da pandemia. O Canadá, com uma população oito vezes menor, perdeu 26,8 mil vidas. Na comparação por milhão de habitantes, os canadenses tiveram o equivalente a um terço da taxa de óbitos dos americanos.

Alguns fatores explicam a diferença: o Canadá adotou medidas mais rígidas para conter a disseminação do vírus, teve maior consenso político sobre essas estratégias e mais aderência da população às medidas.

Em relação à vacinação, o país demorou a engrenar, com a falta de doses, mas depois avançou e hoje supera os números do vizinho: 66% da população canadense já está plenamente vacinada; nos EUA, são 51%. Uma das estratégias para acelerar a imunização foi incomum: a segunda dose pôde ser de um fabricante diferente do da primeira.

Mesmo o avanço da variante delta e a ameaça que ele representa à reabertura -algo comum aos dois países- tem diferenças na resposta dada em cada lugar.

Enquanto províncias canadenses como Colúmbia Britânica e Ontário frearam rapidamente a retomada de atividades frente ao aumento de casos, estados americanos ainda debatem sobre exigir a volta das máscaras. Governadores republicanos, a exemplo dos da Flórida e do Texas, impediram escolas e bares, entre outros, de exigir o uso do item. A questão foi parar na Justiça.

Nos EUA, embates entre o governo federal e as autoridades locais são frequentes desde o começo da pandemia. Em 2020, o então presidente Donald Trump criticou governadores que adotaram medidas de restrição. Já o atual mandatário, Joe Biden, tem cobrado mais ações onde há alta de casos.

"Eu digo a esses governadores: por favor, ajudem. Se vocês não vão ajudar, ao menos saiam do caminho das pessoas que estão tentando fazer a coisa certa", disse Biden, no começo de agosto. No Canadá, as províncias também têm autonomia para definir as regras de enfrentamento à Covid, mas houve mais consenso entre os níveis de governo.

Nos dois países, a preocupação agora se volta para as crianças e jovens, que estão voltando às aulas presenciais. "Agora precisamos proteger as crianças. Ainda não terminamos a luta contra a Covid", disse o premiê Justin Trudeau em um comício no domingo (22).

Trudeau tinha mais dois anos de mandato, mas decidiu antecipar as eleições, para tentar aumentar sua força no Parlamento. Seu Partido Liberal tem maioria apertada, o que demanda apoio de outras legendas para aprovar medidas, e o premiê espera transformar a boa avaliação durante a crise em mais poder.

Mas as pesquisas apontam que a sigla está em empate técnico com o principal rival, o Partido Conservador.

A antecipação foi criticada pela oposição, que vê no gesto uma tentativa de priorizar interesses pessoais. Erin O'Toole, líder dos conservadores, fez alguns comícios virtuais e disse que a eleição é uma ameaça à saúde pública.

A vacinação é um tema da campanha. Liberais têm usado broches com a frase "Eu estou plenamente vacinado", e Trudeau tem exaltado o sucesso da imunização. Os rivais dão menos ênfase ao tema, com receio de perder votos. Cerca de 15% dos eleitores conservadores ainda não se vacinaram, contra 4% dos liberais, mostrou pesquisa do instituto Ekos.

O'Toole, que já recebeu suas doses, disse que não exigirá a imunização de todos os candidatos de seu partido. Já Trudeau a considera como medida fundamental para conter a nova alta de casos. Seu governo determinou a vacinação obrigatória de funcionários públicos e viajantes; a partir de setembro, estrangeiros que queiram entrar no país terão de estar imunizados –com os fármacos de Astrazeneca, Janssen, Moderna ou Pfizer, os aprovados no Canadá.

Durante a crise, o premiê quase dobrou os gastos federais para combater a pandemia. Só o auxílio emergencial custou cerca de 10% do PIB, mas sua distribuição eficiente é apontada como uma das razões para a baixa mortalidade: como o dinheiro chegou a quem precisava, menos gente se viu forçado a se arriscar para trabalhar nos piores momentos da crise.

"Um vizinho trabalhava com restaurantes, tinha acabado de comprar apartamento e trocar de carro. Com a ajuda, conseguiu ter tempo para se realocar e trabalhar com seguros", conta Marcell Castelo Branco, 41, arquiteto de sistemas que mora em Montreal.

Ao mesmo tempo, houve rigidez na aplicação das regras. "Havia multa de 1.500 dólares canadenses [R$ 6.250 para quem descumprisse normas de isolamento]. Houve muitas abordagens nas casas, pois vizinhos denunciavam festas. E manifestantes que foram protestar contra o toque de recolher também foram multados."

No ano passado, uma reabertura chegou a ser feita no período do verão, mas de forma mais reduzida.

"Agora praticamente não tem mais restrição. Antes, quando reabria, você podia receber cinco ou dez pessoas no jardim, os comércios tinham capacidade reduzida e era preciso esperar em filas. E todo mundo respeitava", diz Jean Freitas, 32, administrador de sistemas que mora em Winnipeg.

"Mesmo não sendo mais obrigatório, muita gente ainda usa máscaras."

Fonte: Rafael Balago 
Washington, EUA (FOLHAPRESS) 

 

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