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Aniversário de 56 anos de Francisca Trindade; Sônia Terra faz homenagem e lembra seu legado

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Fotos: arquivo pessoal

 
No dia que Francisca Trindade completaria 56 anos,  neste sábado 26, a ex-presidente da Secretaria Estadual de Cultura, Sônia Terra, amiga pessoal da deputada federal, faz uma homenagem e lembra seu legado. 
 
Francisca Trindade morreu aos 37 anos, em julho de 2003, durante o seu primeiro mandato como deputada federal. Foi a parlamentar mais votada da história do Piauí nas eleições 2002, com 165.190 votos. Sua carreira na política começou em 1992, quando foi eleita primeira suplente de vereador em Teresina. Assumiu o cargo com a eleição do então vereador Wellington Dias para deputado estadual. 
 
Veja à integra texto de Sônia Terra: 
 
 
FRANCISCA TRINDADE: UMA VIDA, MUITAS HISTÓRIAS.
 
                                                           
Esses últimos dias, nem mesmo uma rotina agitada me impede de viajar pelas lembranças e saudades. E envolta por esses sentimentos, recorro a frase de Mário Quintana para reafirmar que “a amizade é um amor que nunca morre”, e assim sendo, Francisca Trindade vive! Seu aniversário de vida é nesse sábado, dia 26 de março e com certeza, tem festa no céu.
 
Provavelmente, algumas pessoas não saibam quem foi Francisca Trindade. Mas, por que deveriam saber? Que histórias carregam esse nome? E isso me faz pensar que as novas gerações precisam conhecer histórias de mulheres negras que ainda continuam invisibilizadas, mas que trazem um legado de lutas, resistências e significativas contribuições na cena social, política e cultural piauiense. Trindade foi uma dessas mulheres!
 
Francisca das Chagas da Trindade, filha de Raimundo Pereira da Trindade e de Lídia Maria da Trindade, nasceu em Teresina em 26 de março de 1966 e sempre teve o bairro Água Mineral, zona norte da cidade, como seu lugar de vivências e militâncias. Era casada com Edilberto Borges e mãe orgulhosa de Camila Kissy e Yan Kalid. Demarcou sua caminhada como Ativista Social, Professora e Parlamentar. 
 
Mulher negra, Francisca Trindade, destacou-se no Piauí como uma importante e potente liderança na luta pelos direitos de cidadania e justiça. A partir da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), na Igreja Católica, vivenciou seu compromisso cristão atuando enquanto liderança comunitária no bairro que nasceu e residia, fundando e presidindo a Associação de Moradores do Bairro Água Mineral. Seu engajamento a levou a contribuir na criação da Federação de Associações de Moradores e Conselhos Comunitários do Piauí-FAMCC.  Atuou ativamente na organização da Articulação Nacional do Solo Urbano, onde foi representante do Estado na Central Nacional de Movimentos Populares. Inegavelmente, Trindade destacou-se um sua atuação na luta por moradia e condições dignas para a população carente de nossa cidade e teve uma significativa participação na organização coletiva de um dos maiores assentamentos da nossa história, a Vila Irmã Dulce, na zona sul de Teresina.
 
Nessa caminhada no movimento de moradia e como importante representante da população mais precarizada, foi sobressaindo-se como uma forte liderança e chegou a militância partidária, filiando-se ao Partido dos Trabalhadores(PT) em 1985. Nas eleições de 1992 disputou uma vaga na Câmara Municipal de Teresina na legenda petista e ficou como primeira suplente. Em 1995 assumiu o mandato no lugar de Wellington Dias, e em outubro de 1996 conseguiu eleger-se vereadora. Nas eleições de outubro de 1998 elegeu-se deputada estadual, tendo sido a mais votada em Teresina e a quinta mais votada em todo o estado. Nos anos 1999-2000 foi presidente da Comissão de Direitos Humanos na Assembleia Legislativa. Nas eleições municipais de 2000 foi candidata a vice-prefeita de Teresina na chapa encabeçada por Wellington Dias, mas não teve sucesso.
 
No pleito de outubro de 2002 foi eleita deputada federal com 165.190 votos, então a maior votação da história do Piauí. Tomou posse em fevereiro de 2003 e tornou-se primeira-vice-presidente da Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior. Em pleno exercício do mandato, sua intensa vida terrena se finda no dia 27 de julho de 2003, em São Paulo, decorrente de um aneurisma.
Trindade também se notabilizou enquanto mulher negra nessa trajetória. Sua militância cresceu junto com sua consciência racial e de gênero, desencadeando um recorte importante para maior visibilidade e participação das mulheres e da população negra piauiense. O Grupo Afro Cultural “Coisa de Nêgo”, criado em 1990 foi um espaço importante onde Trindade pode intensificar e referendar sua força de mulher negra, agregando valor em sua caminhada.  Mas, o “Coisa de Nêgo” era muito mais em sua vida. Era o lugar onde sua voz ecoava belamente a nossa musicalidade e o seu corpo levitava embalado ao som dos tambores e de toda energia que fluía quando o canto e a dança afro tomavam os espaços de nossa Teresina. No Coisa de Nêgo, Trindade era pura alegria...era feliz!
 
Foram muitas suas lutas, conquistas, projetos e realizações na sua trajetória de primeira mulher negra parlamentar em Teresina, onde com altivez, coragem, compromisso e determinação, manteve-se firme no seu compromisso social e político.
 
Falar de Francisca Trindade nos faz rememorar a beleza de seu sorriso e sua presença sempre marcante, onde a dureza da política tradicional e conservadora, não lhe fez perder a leveza e alegria de viver. Trindade emanava boas energias!
 
Uma vida intensa e expressiva como a de Francisca Trindade não comporta nessas poucas linhas, mas ao retomar aqui um pouco de sua trajetória política, quero dar visibilidade a essa mulher negra que protagonizou histórias de lutas e resistências ao machismo, ao racismo e a violência de classe. Uma mulher que através de sua voz, trouxe vozes de mulheres silenciadas e ignoradas em sua participação política. Uma mulher que na sua liderança comunitária abriu caminhos para que tantas outras pudessem perceber sua força, assumindo lideranças em seus espaços de atuação. Uma mulher que quebrou paradigmas, adentrou espaços “não permitidos” a nossa realidade de mulheres negras. Uma mulher que ultrapassou conceitos e preconceitos impostos por uma sociedade colonizadora e se fez firme pra seguir na luta coletiva. Uma mulher que segue nos inspirando e desafiando a seguirmos na luta coletiva. Uma mulher que fez valer sua existência e resistência. Uma mulher negra, com nome e sobrenome: Francisca das Chagas da Trindade. Uma mulher que segue vivendo em cada uma de nós que com ela viveu, mantendo acesa a força inspiradora da luta e o doce sabor da amizade.
 
TRINDADE VIVE!
 
Sônia Terra
Jornalista, Educadora Social, Feminista e integrante da Rede de Mulheres Negras do Piauí
 
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