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Chapecoense pede até 85% de desconto em indenizações a famílias de vítimas da tragédia

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A Chapecoense pediu um desconto de até 85% para pagar as dívidas que tem com as famílias das 71 vítimas da tragédia. Além disso, o clube propôs que os depósitos sejam feitos ao longo de 13 anos.

A equipe deixou de pagar há cerca de seis meses as indenização às famílias que, em resposta, pediram que imagens dos atletas fossem retiradas do site e dos imóveis da instituição.

Atualmente, as dívidas com as famílias giram em torno de R$ 28 milhões, segundo pessoas ligadas ao processo e já considerando a multa pelo descumprimento do acordo. Esse valor pode ultrapassar os R$ 50 milhões, se levadas em conta as ações que ainda tramitam na Justiça.

No seu plano de recuperação judicial, ao qual a Folha teve acesso, a Chapecoense propõe duas condições de pagamento das indenizações.

O clube pede um desconto de 65% no saldo até 150 salários mínimos (ou seja, até R$ 181,8 mil), com pagamento parcelado em 12 meses e correção pela TR -a chamada taxa referencial, que, atualmente, não alcança nem 1% ao ano.

Para o montante que exceder os 150 salários mínimos, a Chapecoense pede 85% de desconto, com pagamento parcelado em dez anos, carência de 36 meses e a mesma taxa de correção. O saldo total seria quitado em 13 anos.

Alex Passos, vice-presidente administrativo e financeiro da Chapecoense, afirmou que o plano de recuperação judicial tem como premissa a necessidade da manutenção da equipe de futebol -que, segundo ele, é o que vai gerar a receita necessária para o pagamento das dívidas.

A Chapecoense gostaria de pagar todas as famílias e todas as dívidas que foram contraídas em anos passados, por outras administrações, e gostaria de fazer isto no menor tempo possível", afirmou Passos.

"No entanto, não possui condições financeiras para tal. Tendo em vista essa situação, o clube apresentou um plano de reestruturação dentro do que se apresentou possível pagar, do contrário, correria o risco de entrar em insolvência civil, ficando impedida de arcar com qualquer valor", disse.

O plano ainda precisa ser aceito pelos credores -dentre eles, as famílias- antes de ser posto em prática.

"É com tristeza que a gente recebe o plano de recuperação judicial da Chapecoense, mas não com surpresa. Hoje, sob a tutela de uma recuperação judicial, mais uma vez temos de acreditar em uma diretoria com integrantes que já estiveram lá atrás no pior momento da Chapecoense, em 2017", afirmou Marcel Camillo, advogado de parte das famílias.

O voo 2933 da LaMia, que transportava a equipe da Chapecoense para a final da Copa Sul-America, caiu nos arredores de Medellín, na Colômbia, no dia 28 de novembro de 2016. A queda matou jogadores, comissão técnica, dirigentes, jornalistas e funcionários.

A indenização às famílias foi acordada apenas em 2020. O clube se comprometeu a quitar 26 ações e deu como garantia de pagamento sua verba de sócio-torcedor.

Na data dos cinco anos da tragédia (ou seja, em novembro de 2021), 14 mil pessoas compareceram à Arena Condá para uma homenagem em memória dos falecidos.

Mas, conforme mostrou a Folha na época, o clube deixou de pagar as indenizações dois meses após o evento. No mês seguinte, após ser rebaixada no Campeonato Brasileiro e com uma dívida de R$ 120 milhões, a Chapecoense entrou em processo de recuperação judicial.

Incomodadas com o descumprimento do acordo, viúvas pediram que a Chapecoense retirasse fotos dos atletas falecidos do seu site e das dependências do estádio.

"Esta nova diretoria da Chapecoense nunca buscou diálogo com as famílias. Entrou com pedido de recuperação judicial e nós, familiares, fomos avisados via imprensa que não receberíamos.

Este presidente [do clube, Nei Maidana] foi até a CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] com o discurso de que jamais prejudicaria as famílias e esse plano é inverso ao discurso dele", afirmou Valdecida Paiva, viúva do volante Gil.

O discurso ao qual ela se refere aconteceu na CPI do Senado que apura a tragédia. Maidana foi eleito presidente da Chapecoense em dezembro de 2021, mesmo mês em que o clube começou a não pagar as indenizações.

Enquanto isso, as famílias também buscam conseguir indenização das seguradoras do voo que caiu na Colômbia.

Recentemente, a Tokio Marine Kiln -resseguradora do voo e, em última análise, responsável pelos pagamentos ofereceu US$ 25 milhões (R$ 122 milhões) às famílias. O valor, no entanto, é dez vezes menor do que o pedido por elas.

Como instrumento de comparação, a Justiça dos Estados Unidos já estipulou que a indenização sobre o caso deve ser de US$ 844 milhões (R$ 4,1 bilhão, na atual cotação).

Há ações contra a Tokio também no Brasil e na Inglaterra. Nessa última, reportagem da Folha também mostrou que a resseguradora apontou outras 12 empresas como corresponsáveis pela apólice do voo.

A CPI, por sua vez, está na sua reta final e ainda não ouviu a Tokio Marine –em que pese haver um requerimento aceito para isso.

Fonte: Folhapress

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