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Contra trauma, atividade corporal ajuda mais que remédio, diz psiquiatra

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Foto: Freepik

 

O trauma pode nascer de circunstâncias bastante distintas, como participação em conflitos armados, episódios de violência, abusos, abandono, entre outros. Talvez a grande lição seja que cada pessoa reage de uma forma a essas agressões e que muitas vezes pode levar um bom tempo até ela encontrar quais são as ferramentas que vão ajudá-la a pôr em ordem a bagunça mental.

Em seu livro "O Corpo Guarda as Marcas", o psiquiatra Bessel Van der Kolk, nascido na Holanda e radicado nos EUA, disseca essas e outras questões, e argumenta que é possível tratar o estresse pós-traumático a partir de atividades corporais e, mais do que isso, que medicamentos tendem a não funcionar para a maior parte dos indivíduos.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele diz que um atalho para esse encontro consigo mesmo pode ser a combinação de duas atividades diferentes, como capoeira e psicanálise, cada uma em seu front. A primeira vai ajudar a dominar as reações físicas. "Nós somos corpos, e temos um cérebro para tomar conta desses corpos", diz o psiquiatra. A última, por sua vez, ajuda a entender quais são as situações e gatilhos que desencadeiam essas reações.

Para o médico, ainda há uma enorme distância entre a clínica e a pesquisa na área da psiquiatria, com terapeutas que não entendem como a ciência é feita, de um lado, e, de outro, pesquisadores que perderam o contato com seres humanos. Ele, por meio do livro, além de sua própria atuação, tenta preencher essa lacuna.

Um dos temas do interesse de Van der Kolk no momento é a terapia psicodélica com MDMA (ecstasy), que, ele explica, ajuda a pessoa a criar um estado de autorreflexão e próprio para, com o auxílio do terapeuta, enfrentar obstáculos e reorganizar a mente.

PERGUNTA - No seu livro, o sr. defende um caminho para tratar o trauma que parte do corpo, com técnicas como ioga e meditação para colocar a cabeça em ordem. A falta de conexão entre corpo e mente é uma das razões para o surgimento do trauma?

BESSEL VAN DER KOLK - Nós somos corpos, e temos um cérebro para tomar conta desses corpos. O trabalho do cérebro é fazer com que você coma, durma, vá ao banheiro etc. Em um trauma, os sinais enviados para o corpo servem para dizer que estamos em perigo, abandonados e que coisas terríveis podem acontecer. Aí todo o corpo responde ao mundo como se o trauma perdurasse. Não é que as pessoas sejam estúpidas, não é que elas não entendam isso. O corpo automaticamente continua se comportando como se a pessoa estivesse prestes a ser assassinada. Aí é necessário trabalhar para acalmar esse corpo. Eu não posso receitar que você se acalme; você precisa aprender a se acalmar por conta própria. Você precisa trabalhar sua respiração, seu corpo, para reinstalar esse controle sobre o funcionamento do organismo.
 

P.- O sr. afirma que meditação e ioga não deveriam ser chamados de "tratamentos alternativos".

BVK - Quando você entende a neurobiologia do trauma, você passa a dizer que as drogas são tratamentos alternativos. Isso porque nós temos mecanismos intrínsecos ao corpo que nos acalmam e que restauram nossa saúde. No Brasil, essa cultura é muito mais viva do que nos EUA. Mesmo que algo de terrível aconteça, as pessoas ainda podem cantar juntas, andar juntas, dançar juntas e ressincronizar o corpo. A fonte da alegria e do prazer para o ser humano é uma questão de ritmo e sincronia entre nós mesmos e outros corpos. Em muitos lugares as pessoas deixaram os corpos de lado e os trataram como uma espécie de apêndice indesejado. Mas você é seu corpo, e precisa de um corpo para se sentir vivo.
 

P.- O sr. relembra no livro um argumento de Darwin, que tentava unir as sensações psíquicas a caraterísticas fisiológicas.

BVK - Ah sim, Darwin era um cara muito inteligente, apesar de ser britânico (risos).
 

P.- No livro o senhor diz que o trauma não é apenas uma questão de estar amarrado ao passado, mas de não conseguir viver completamente o presente, e que terapia comportamental, meditação e atividades físicas ajudam a colocar a pessoa no momento atual. Como a psicanálise entra nessa história?

BVK - Há duas dimensões aqui. A primeira é tentar entender como são suas reações e quando elas acontecem. Isso pode ser muito útil, já que você tem como trabalhar a questão. Agora, ao simplesmente entender sua bagunça mental você não a elimina. Entender é útil, dá uma ideia do que você tem que fazer, mas o que você realmente precisa é resetar o sistema de alarmes do seu corpo. O que é mais útil: capoeira ou psicanálise? Eu diria que é uma coisa somada à outra. Temos um corpo que responde ao que é concreto, que se defende. Ao entender o que ativa seu trauma, os gatilhos, e como isso acontece, ajuda você a ser mais dono de si até que você consiga planejar como quer viver sua vida.


P.- E o sr. desencoraja o uso dos medicamentos psicotrópicos, especialmente em pacientes que não passaram por outros tratamentos.

BVK - Eles não funcionam! (risos) Eu fui o primeiro chefe do setor de psicofarmacologia de Harvard, eu era um dos caras que mais defendiam os fármacos... Isso lá no começo. Eles funcionam para algumas pessoas por algum tempo e para algumas condições, mas não funcionam bem para tratar o trauma. É bem triste quando você vê alguém estagnado, tomando um monte de comprimidos sem sair do lugar apenas porque não foram tentadas outras alternativas.


P.- E quanto ao MDMA (ecstasy)? Não é uma droga promissora?

BVK - Drogas psicodélicas são promissoras. Meu laboratório atualmente é psicodélico, estudamos esses agentes. Não é algo legalizado aqui nos EUA ou no Brasil, mas eu e algumas outras pessoas temos licença para fazer esses estudos. De fato, a experiência psicodélica pode dar uma noção profunda da organização de seu mundo interior e ainda tratar a si mesmo com autocompaixão, autoaceitação. As pessoas se tornam mais receptivas, passam a se amar mais e ficam menos reativas. É realmente útil!


P.- Ainda há muita resistência no mundo psiquiátrico em relação ao uso terapêutico de psicodélicos?
BVK - Há resistência em todo lugar.


P.- São muito conservadores?

BVK - Na verdade, eu é que sou mais conservador. Nós fazemos psicoterapia assistida por psicodélicos. No momento que essas drogas se tornarem aprovadas elas serão alvo de ações que visam apenas gerar lucro. Eles vão vender as pílulas, mas não vão fornecer a terapia. Com essas drogas a gente cria a condição na qual as pessoas caem nesse estado de autorreflexão profundo e, por oito horas, em várias ocasiões, nós ajudamos essas pessoas a enfrentar os desafios que surgem. A gente auxilia a pessoa a entrar num estado mental em que a terapia pode de fato acontecer. Tenho muito receio de que essas drogas sejam usadas fora desse contexto.
 

P.- O futuro da psiquiatria está atrelado aos psicodélicos?

BVK - Não, eles apenas ajudam. De tempos em tempos as pessoas se deparam com algo e dizem: "Esta é a resposta para tudo!" Eles funcionam para algumas pessoas, e para outras, não. Nós precisamos analisar essa questão com muita sobriedade.


P.- Nas ciências biológicas há um movimento em direção a uma visão mais integrada e sistêmica do organismo e da interação entre seres vivos. A psiquiatria também está nesse caminho?

BVK - É muito difícil saber o que vai acontecer. Eu estou impressionado e triste com o fato de que em quase todo laboratório científico eles não entendem como a parte clínica funciona, e que a maior parte dos clínicos, os terapeutas, não entende quase nada de ciência. São dois mundos que não conversam entre si. Eu e meus colegas somos alguns dos únicos que fazem pesquisa e cuidam dos pacientes. E o cuidado com o paciente está muito distante da ciência, à frente dela. A maneira como unimos essas duas coisas tem sido bastante complexa. A maior parte das pessoas que começa a fazer ciência perde contato com a experiência humana. Integrar as duas coisas é um desafio, e meu livro foi uma tentativa nesse sentido.


P.- Será que muitos de nós sairemos traumatizados da pandemia?

BVK - Ah não. Seres humanos são criaturas muito adaptáveis. Sobrevivemos às coisas mais horrendas e eu acho que esse impacto será absorvido. Talvez vejamos apenas um aumento de coisa de 10% nos casos de hoje, algo bem diferente do que todos saírem traumatizados.


P.- Um tema mais crônico é a polarização política em países como EUA e Brasil. Que tipo de consequências para a saúde mental isso pode ter?

BVK - É difícil processar esse tipo de informação. É um assunto bastante ruidoso. Não há paralelo entre o que está acontecendo agora e o que aconteceu durante a ascensão do fascismo nos anos 1930. As pessoas estão financeiramente muito melhor do que estavam naquele tempo. Não entendo como isso se reflete nos tempos atuais.

 

Fonte: Folhapress

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