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Livro narra caça a João Gilberto em tom policial

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Um jornalista alemão, Marc Fischer, intrigado pela figura de João Gilberto --misto de fascínio pelo artista e de amor e ódio pelo homem que não sai de casa, não se deixa ver e não fala com ninguém, mas hipnotiza as pessoas à distância--, acaba de produzir um livro apaixonante: "Ho-ba-la-lá - À Procura de João Gilberto".

 
Algum brasileiro escreveria livro igual? Não é o nosso jeito --somos muito solares. Quem mais faria do inventor da bossa nova o personagem de um "roman noir" composto de fatos reais, com especulações (surpreendentemente a propósito) sobre a morte, o destino, a solidão, a fala por silêncios e a sensibilidade para com o invisível?

 
Quem mais mostraria João Gilberto como um sonhador, um iogue, uma jiboia, um mutilado de guerra, um vampiro ou um homem que, 10 horas por dia, cria obras-primas para as paredes? Um homem onipresente no coração e mente das pessoas que o cercam, muitas das quais não o veem há dez anos --ou nunca o viram. E que representa o perigo --há quem tema se apaixonar ou se deixar escravizar se se aproximar dele.
 

João Wainer - 24.abr.03/Folhapress

João Gilberto durante show em São Paulo

 

SAM E EFFIE

O livro é isto: Fischer (1970-2011), violão às costas, quer encontrar João Gilberto para entrevistá-lo e escrever a seu respeito. E, se João Gilberto não quiser falar, ele se contentará com ouvi-lo cantar "Ho-ba-la-lá", sua predileta. Mas João Gilberto é tão volátil, feito de nuvem, que talvez não seja mais de carne e osso, seja só música. Não, ele é de carne e osso: duas ou três pessoas --sua ex-mulher, a cantora Miúcha, seu faz-tudo Otávio Terceiro-- o viram ontem ou o verão nesta noite. Só que, tratando-se de quem é, será isto uma prova?

 
Fischer e sua auxiliar brasileira chamam-se um ao outro de Sherlock e Watson. Mas, na busca por João Gilberto num Rio quase que apenas noturno, agem e falam que nem o detetive Sam Spade e sua secretária Effie Perrine, personagens de Dashiell Hammett em "O Falcão Maltês". Como Spade, ele não despreza pistas. Radiografa uma pessoa assim que a vê, faz perguntas secas, fuma Camel, às vezes bebe além da conta, protagoniza perseguições em táxis e rejeita tentações femininas.

 
Fischer vai ao apart-hotel do Leblon onde lhe disseram que João Gilberto mora --mas é o apart-hotel errado. Sobe ao mezanino da Toca do Vinicius, onde se guarda a memória da bossa nova. Encontra o homem que alimentou João Gilberto todas as noites por cinco anos e nunca esteve com ele em pessoa. Fischer toma táxis, anda a pé, atravessa túneis. Vai a uma ilha em meio a uma lagoa na Barra, vê-se numa festa de vampiros no Copacabana Palace, encontra a bela mulher de João Gilberto no Parque dos Patins.
 

BANHEIRO

A narrativa não para, nem quando o autor faz reflexões. Como na sua ida a Diamantina (MG), onde, nos anos 50, João Gilberto, no banheiro da casa da irmã, inventou a batida de violão da bossa nova, tocando, entre outras, "Ho-ba-la-lá".

 
Fischer penetra na casa (hoje, uma imobiliária), tranca-se no banheiro e conclui que, nos seus humildes 5 metros quadrados, este só comportaria um homem e um violão se o sujeito estivesse sentado no vaso. Testa (com seu próprio "Ho-ba-la-lá") a sonoridade do violão nos ladrilhos e azulejos ("Os canos se lembram de quem lavou as mãos em sua água?"). E admite que os cristais que Otávio Terceiro afirma existirem debaixo da casa podem ter contribuído para a pureza do som de João Gilberto.

 
DESPERTAR INVEJA
 

Não vou revelar se Fischer encontra ou não o cantor. Mas o final tem duas passagens de grande força plástica e emocional --aquela em que o celular o acorda e ouve-se "Ho-ba-la-lá" do outro lado da linha, e sua subida à noite na Vista Chinesa, para repetir um ritual de João Gilberto.

 
Este é um livro para despertar inveja literária em mais de um profissional. O que torna ainda mais chocante saber que, outro dia, uma semana antes de sair a edição alemã de "Ho-ba-la-lá", Marc Fischer, prestes a completar 41 anos, se matou em Berlim. Quando me visitou aqui no Rio, há um ano --camiseta, bermuda, violão, gravador e olhos brilhando ao ouvir gravações de João Gilberto que não conhecia--, nada fazia prever esse desfecho. Mas aquele era Sherlock, não Marc Fischer.



Fonte: Folha Online 

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