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Mães e estilistas flertam com moda unissex e minimizam a diferença de gênero

 

Um dos grandes momentos de uma gravidez é a tão esperada revelação pelo sexo biológico da criança: “será se é menino ou menina”? E, logo que revelado pela ultrassonagrafia, o enxoval começa a ser organizado, principalmente, na clássica combinação de produtos na cor azul para meninos e na cor rosa para meninas.  

Aos 26 anos, a jornalista Romana Naruna é mãe da Malu, que tem dois anos, e da recém-nascida, Ava. Romana acredita que as crianças precisam ser livres e, se for para começar pela cor da roupa, que seja. Por isso, uma mistura de cores tomou de conta dos enxovais: rosa, azul, verde, amarela; a aquarela inteira invadiu o guarda-roupa das pequenas peças de roupa.  

“Os estereótipos de gênero que criamos quando eles ainda nem saíram do útero são, a meu ver, aprisionadores. Eu só queria (e quero) que a Malu, minha primeira filha, fosse quem ela quisesse ser. Lembro que uma vez fui com ela a uma consulta e estava toda vestida de azul escuro, não devia ter mais que 2 meses. Uma senhora viu e comentou: aah, que lindo! Tem mesmo carinha de menino. Enfim. A Ava nasceu a menos de 2 semanas, mas usamos a mesma lógica com ela”. 

Em entrevista ao Cidadeverde.com para o Especial Dia das Mães, Romana revelou que, normalmente, compra as roupas da Malu na seção de “meninos” sem qualquer constrangimento: o importante é o conforto que a peça traz, além de respeitar, desde a infância, os gostos da criança desde a primeira infância. 

“A Malu já vai desenvolvendo os seus próprios gostos em relação ao que vestir. Eu respeito porque acredito que faz parte da formação da identidade dela. Então, ao mesmo tempo em que opta por uma camiseta vista como de "menininha" também tem um pijama favorito de dinossauro, que foi comprado na seção masculina da loja. Nunca dizemos para ela que não pode fazer ou vestir algo porque é menina”, afirmou a jornalista. 

Romana defende que os adultos precisam deixar as crianças serem, simplesmente, crianças, e não mini adultos.  “Elas nascem despidas de todas essas barreiras sociais que temos, encaram o mundo com simplicidade. Nós é que complicamos. Quando falamos em rompimento, creio que muita gente fica de cabelo em pé, imaginando o apocalipse, mas é tão mais simples. A verdade é que precisamos ser reeducados para educá-las. Eu tento me reciclar todo santo dia para deixar com elas esse legado. O mundo mais livre começa dentro de casa e ainda estamos aqui no início da caminhada”.
Meninas furam orelhas, meninos não!

Durante a entrevista, outro detalhe que chamou a atenção foi o fato da Malu e Ava não terem as orelhas furadas. Afinal, meninas já saem da maternidade e, por vezes, da sala do parto – seja normal ou cesárea – com brincos na orelha. “A questão do furo nas orelhas nunca tinha me chamado a atenção até que fiquei grávida. Ganhei dois pares de brincos para por nela (Malu)”.

José, o pai das crianças, que estranhou o presente e Romana chegou a ficar chateada, pois, até então, era normal furar as orelhas já nas primeiras horas de vida. “Ele me perguntou: Mas pra quê? Qual a necessidade? E eu realmente comecei a pensar: pra quê? Os brincos eram um mero adorno, mas com um peso doloroso já, uma ‘marcação’ do que é nascer menina. Dizem que não dói, que é lindo e tal, mas a verdade e que dói sim. Dói ser definida por um enfeite sem ter assim escolhido. Então optamos por não furar a orelha de nenhuma das duas. Será escolha delas quando tiverem crescida”. 

Roupas são apenas roupas 

Para o designer, stylist e produtor de moda, Rafael López, a atitude de caracterizar a relação entre gênero e vestuário - meninos usam objetos na cor azul e meninas a cor rosa - ocorre desde a infância. E, pensando em romper com isso, muitas mães e profissionais da moda iniciaram a adoção da roupa sem gênero, ou seja, meninos e meninas com a liberdade de usar qualquer peça nas mais diferentes cores e formatos porque, em regra, são apenas roupas.  

Já a relação entre gênero e cores associado à orientação sexual, López, faz com que meninos rejeitem os objetos na cor rosa porque é do universo feminino, afinal, os adultos já induziram uma simples cor à orientação sexual de uma criança. O machismo e a homofobia vêm sendo praticado desde o berço, enfatiza o desingner. O desrespeito à diversidade sexual e a identidade de gênero também.

“O vestuário não tem sexo ou gênero”, defende Rafael, que irá investir no conceito de moda ‘agênero’ e lançará uma marca que não se prende aos modelos de masculino e feminino porque, desde criança, ele sentia vontade de usar “roupas de mulheres”, mas não se sentia à vontade porque sempre era repreendido ao ser flagrado usando as roupas da mãe. Ele somente incorporou o “guarda-roupa feminino” ao entrar na universidade quando passou a estudar Moda. 

“A minha marca trabalha o produto sem gênero, que está disponível para todas as pessoas. Antes, não falava sobre isso por não ser obrigação dizer se a roupa é para menina ou para menino, mas percebi o quanto é importante para ser mais uma voz no meio desse discurso heteronormativo”, diz, acrescentando que recebe muitos olhares curiosos de crianças ao andar pelas roupas usando barba, batom e saia. Rafael já vivenciou momentos de discriminação por parte dos adultos pelo modo de se vestir já que as pessoas encontram no produtor a mistura dos dois universos.  

Novos consumidores 

Na década de 20, a estilista Coco Chanel – com muita ousadia para a época - criou roupas para mulheres a partir das peças masculinas, como a calça pantalona e a camiseta bretão. Desde então, a moda tem se direcionado cada dia mais para um universo sem gênero. A expectativa é que a “moda agênero” seja incorporada pelos consumidores dessa nova geração, que vê o vestuário como uma liberdade de ser e vestir o que traz conforto, independente de qual seção esteja inserido em uma loja.  

Em 2016, Jaden Smith, 17 anos, filho do ator Will Smith, usou roupas consideradas do universo feminino na campanha de verão 2016 da grife Louis Vuitton. A Gucci, por exemplo, no desfile masculino do inverno 2016, vestiu homens e mulheres com o mesmo estilo de roupas.  Outras marcas também estão rompendo os estereótipos sobre as formas tradicionais de gênero, esse movimento também vem sendo chamado, por muitos, de gender-bender (além-gênero, em tradução livre). Dentre elas, Prada e Giorgio Armani. 

Para Rafael Lòpez, se desde a infância houvesse a liberdade e o conforto das crianças usarem as peças que visual e psicologicamente lhe fazem bem, as pessoas trans, por exemplo, não seriam agredidas pelas ruas. Além disso, elas não precisariam esperar até a fase adulta, por exemplo, para lutar pelo direito de usar uma peça que está de acordo com a sua identidade de gênero. 

A moda sem gênero faz com que o guarda-roupa seja bastante variado e, praticamente, a regra é unanime entre mães e estilistas: o conforto.  “Em Teresina, que é um lugar super quente, os homens deveriam ter a liberdade de usar saia porque é muito melhor para trabalhar no calor. Não é uma questão de ser trans ou não porque não existe saia pra quem. Existe saia pra todos. É apenas uma roupa”, ressalta, citando uma situação pessoal presenciada nos últimos dias. 

“Eu já estava sentado em um metro quando um casal evangélico sentou ao meu lado. O filho deles olhou pra mim: nossa um homem cabeludo, de barba, com maquiagem e roupa de mulher. Então, ele já sabia que barba era um ponto masculino, aparentemente na cabeça dela, mas maquiagem me saia era de menina. Ele consegue identificar isso. Então, da mesma forma que você ensina esse tipo de coisa para a criança, ele vai entender que saia e maquiagem não é apenas para menina. O momento certo de ensinar é na infância”, relatou Rafael. 


Carlienne Carpaso
carliene@cidadeverde.com