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Mãe de filha trans fala da dor e das alegrias: "não vamos agredir, vamos trabalhar para ter respeito"

“Eu era uma menina. Aí, veio uma fadinha e me transformou em um menino”, disse Paty*, 5 anos, para a mãe, a autônoma Amanda, quando tinha apenas um ano e meio de idade.  Hoje, Paty é a caçula da família e corrige a todos que a chamarem pelo nome masculino: “oi, quem é esse?”, conta a mãe, sorrindo, em entrevista especial ao Cidadeverde.com para o “Dia das Mães”. 

Depois de noites sem dormir, crises de choro e negar para si mesmo a identidade de gênero da filha, Amanda decidiu pensar e agir unicamente como mãe e lutar pela felicidade da Paty, rompendo estereótipos e enfrentando os preconceitos. Antes de iniciar o processo de mudança no guarda-roupa e nos brinquedos, um ato repentino da Paty assustou Amanda. Desde então, ela deixou de ter duas meninas e um menino para ser mãe de três meninas: Victoria, Sophia e Paty.  

“Paty sempre se referiu a ela como menina, e eu não entedia. Pensava que ela estava errando, mas, na cabeça dela, nós que estávamos errados. Eu falava: ‘você está lindo hoje’; e ela me corrigia: ‘linda’ eu dizia: ‘você é o príncipe da mamãe’, e ela retornava com: ‘princesa da mamãe’. Eu cheguei a pensar que ela era gay. Então, vamos trabalhar para respeitar; não vamos agredir e punir. Só depois, assistindo a um documentário, pesquisando sobre o tema, que cheguei à conclusão que minha filha era uma criança trans. Depois de um tempo, eu mesma só a enxergava como menina. Não tinha nada considerado pela sociedade de menino ali”, relatou Amanda. 

Brincalhona, carinhosa, educada e super animada, Patty hoje é o oposto do que era antes, quando precisava usar roupas e agir de acordo com os padrões do gênero masculino, que são impostos culturalmente pela sociedade a partir das normas heteronormativas relacionando o gênero com o sexo biológico.  Exemplo disso foi o que Amanda fez ao receber a notícia que teria “o primeiro filho homem”: comprou todo o enxoval na cor azul já que, tradicionalmente, a cor rosa é para menina. Ao recordar, Amanda brinca: “eu ficava falando: ‘agora vou ter algum pra fazer brincadeiras bem brutas, jogar videogame, correr’; e isso não aconteceu”. 

“Aqui em casa não temos mais essa relação de gênero com os brinquedos. Aqui tudo é brinquedo. No início da transição, que foi feita aos pouquinhos, eu também comecei a ter noção de que roupa precisa ser algo indefinido, não ter gênero. Teve uma eleição que não consegui votar porque ela só queria ir se fosse de vestido. Eu chorava tanto com medo de sair e ela ser maltratada. Tudo foi dolorido. Um dia, a vesti de vestido e fui para uma festa de família porque as pessoas precisam respeitar que Paty era uma menina”, desabafa a mãe. 

Durante a entrevista, Paty acrescentou que não apenas gosta de vestido como a sua cor preferida é o roxo. Decidida não somente pelo estilo de roupa e o mundo das cores, Paty já pensa no futuro. “Eu vou ser costureira, arquiteta, modelo e professora. Pra ser tudo isso eu vou precisar de dinheiro, então vou vender bolinhos de caramelo”, disse, correndo de um lado para o outro da casa. Ao ouvir a irmã, Sophia lembrou que ela também é a mais bagunceira da casa e que adora brincar de bonecas. 

 

Carta para Firmino Filho: “Precisamos conversar sobre a Paty".
 
Amanda relatou ao Cidadeverde.com que Paty foi rejeitada por inúmeras escolas particulares em Teresina por, simplesmente, ser e defender o que a filha é: uma menina.  As discriminações ocorreram disfarçadamente e, após inúmeros nãos, Amanda pediu ajuda ao Ministério Público e transferiu Paty para a rede municipal de ensino.

Neste ano, com a filha matriculada em uma escola pública, com todo material escolar com o nome social, sendo respeitada e educada com profissionais qualificados, veio a decisão do projeto de Lei N° 20/2016, de autoria da vereadora Cida Santiago, que proíbe o debate sobre as questões de gênero nas escolas de educação básica da rede municipal. O PL, que passou por dois processos de votação, foi arquivado na última quinta-feira (5). 

Dos 29 vereadores da Casa, 24 votaram a matéria, que teve 12 votos a favor e 12 contra. Então o presidente da Casa, vereador Luiz Lobão (PMDB), deu o voto de minerva, optando pela não aprovação.  Para Amanda, o arquivamento não foi uma vitória em si, pois os que votaram contra alegaram inconstitucionalidade da matéria; não pelo fato do conteúdo discriminatório que o PL indicava. "Os vereadores não queriam se comprometer com o assunto tanto que muitos que votaram à favor do arquivamento apoiavam o PL. Acredito que eles serão mais detalhista e que um novo projeto, com outra cara, irá surgir", ressalta. 

Amanda chegou a fazer uma carta pedindo que o então prefeito de Teresina, Firmino Filho, vetasse o PL. Nas escolas anteriores, a mãe disse que não era respeitada a identidade de gênero da criança.  “Faziam a Paty escrever o nome de menininho. Na chamada, que a professora poderia contornar e chamar o nome social, mas não, ela chamava o masculino. A Paty sentia tudo isso. Ela já não queria mais estudar. Quando soube do PL, não consegui dormir”.

A seguir, segue trecho da carta. 

“Senhor Prefeito, a questão de gênero é uma realidade na rede pública Municipal, a Paty é a prova disso. Por isso, venho através desta pedir o veto da lei que veda a distribuição, exposição e divulgação de material didático contendo manifestações de gênero nos estabelecimentos de ensino da rede pública Municipal, pois é contraditório existir leis de inclusão de pessoas LGBT e não poder falar sobre elas. Onde fica a orientação do MEC para trabalhar com temas transversais? O que será das outras crianças como a Paty? Como a administração municipal pretende fazer a inclusão nestes casos? O senhor já parou para pensar que crianças também sofrem homofobia e transfobia? Com discussões tão avançadas sobre o tema, por que sancionar essa lei que atrasa o desenvolvimento da sociedade? Pois não falar no assunto não vai fazer as Patys, as Lauras, as Milenas e os Vitos desaparecerem da sociedade”.

Amanda diz que a carta foi um pedido de diálogo para que respeitem a diversidade, que o prefeito – assim como toda a sociedade - lute contra todas as discriminações de gênero desde a infância. “As pessoas acham que criança não tem querer. Não é que a gente tenha que fazer todos os gostos. Não é uma questão de ideologia. É respeitar a criança enquanto ser humano. É deixar a criança ser feliz”. 

*Nome foi substituído para preservar a identidade da criança

Carlienne Carpaso
carliene@cidadeverde.com