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Educação Superior X Mercado: a demissão do conhecimento

Todo mundo que resolve seguir uma carreira, em geral, procura mirar no topo. Ao entrar na faculdade e ao se afeiçoar com o curso a meta de cada um é conseguir dar o melhor de si para se chegar no lugar mais alto, com mais prestígio e respeito dos pares. Faz parte da ordem natural das coisas tentar este intento, tanto nas carreiras em geral quanto nas carreiras acadêmicas.

A carreira acadêmica é composta da graduação e de tudo o que se fizer, com uma determinada carga horária, depois da graduação que, genericamente chamamos de pós-graduação (“pós” significa “que vem depois”). Assim, depois da graduação o estudante, agora formado, pode tentar seguir seus estudos e trilhar numa pós. Existem duas categorias de pós-graduação: a lato sensu e stricto sensu. Lato significa largo e Stricto, estreito, ambos do latim, numa referência ao afunilamento proporcionado pelas pós-graduações. Os cursos “Lato” são mais amplos e são representados pelos aperfeiçoamentos (cursos de no mínimo 180 horas) e especializações (cursos com um mínimo de 360 horas). Os cursos “Stricto” são os mestrados e doutorados que duram um máximo de dois e quatro anos, respectivamente. Todos estes cursos são marcados pela elaboração e em muitos casos (especialmente os “Stricto”) defesa pública (ou fechada quando há um segredo industrial em jogo, portanto, de valor financeiro considerável) de um trabalho de conclusão de curso, o temido TCC.

O ápice da carreira acadêmica se dá através do curso de Doutorado, quando o estudante atinge um nível de excelência, tornando-se “dono” de parte ínfima do conhecimento. Muitas pessoas pensam que depois disso ainda tem o “pós-doc”, uma referência carinhosa aos estágios pós-doutorais que, em geral, são períodos em que pesquisadores, já doutores, buscam trabalhar com pesquisadores que possuem uma experiência profissional maior, ou procuram se aperfeiçoar em técnicas mais sofisticadas, aprender coisas novas dentro do seu escopo de conhecimento ou atuar em pesquisas a fim de melhorar o desempenho acadêmico tão cobrado no meio científico das diferentes áreas do conhecimento.

A tradição acadêmica brasileira coroa a excelência exatamente pela formação de pós-graduados e sua respectiva produção. As instituições de ensino superior (IES) mais respeitadas são as que tem o corpo melhor qualificado e mais produtivo. Nas IES, diferente do que acontece nas escolas em geral, o conhecimento é produzido, é gerado. IES de excelência são as que produzem mais conhecimento. São as que depositam o maior número de patentes, são as que tem os melhores cursos de pós-graduação, os professores que publicam mais. Este é o fundamento de tanta correria para publicar artigos, livros, ensaios, orientar estudantes, participar de bancas examinadoras etc., etc., etc...

No Brasil, cerca de 95% do conhecimento gerado vem das universidades e quase a totalidade disso, das instituições públicas. Isso acontece porque a grande maioria das IES privadas só pratica um eixo do tripé da universidade: o Ensino. A pesquisa e a extensão são, em geral, missões exercidas mais fortemente pelas IES públicas. O afrouxamento das regras para o crescimento do segmento privado de IES fez surgir algo completamente esdrúxulo: a demissão por excesso de conhecimento. Sim! Isso mesmo que você está lendo. Muitas faculdades tem enxugado suas folhas de pagamento demitindo professores pelo grau de titulação. Foi Doutor, rua! Foi Mestre, rua! Algo impensável neste milênio! Não é menosprezando trabalho dos professores menos titulados, pelo contrário, muitos são excelentes no que fazem, que é reproduzir o conhecimento, ensinar. Mas e os que produzem conhecimento? Os pesquisadores? Nas IES privadas tem sido a presa fácil de um sistema hoje formado por verdadeiros conglomerados econômicos que resolveram investir no ramo das faculdades e universidades e, sem se preocupar muito com qualidade, demitiram seus quadros de profissionais com maior qualificação. Uma pena!

Certo dia, em uma roda de amigos, me perguntaram: quanto você ganha para publicar um artigo? Fiquei incrédulo com a pergunta, mas depois cai na real, porque a maioria das pessoas sequer sabe o que se faz numa universidade. Depois ainda tem inescrupuloso que generaliza dizendo que a regra é plantar maconha... Mas isso não vem ao caso agora.

Com muita tristeza vejo o desenrolar da Educação Superior do meu país em uma situação tão desestimulante. Não consigo enxergar boas perspectivas para as carreiras acadêmicas. No setor público, um desmonte que começa com um discurso ideológico imbecilizado, replicado nas redes sociais de forma clonal. No segmento privado, um imediatismo por lucros tão desmedido que transforma instituições de ensino antes respeitadas pelos resultados em escolões de nível superior. Um descalabro...

Torço para que se mantenham as ilhas de excelência e que estas possam crescer e se tornar continentes de qualidade. Bom domingo a todos (as).