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Atlas das serpentes brasileiras

Com extensão territorial de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil abriga zonas biogeográficas, biomas, fauna e flora distintos. Integrando o grupo dos 17 países megadiversos, a variedade e a singularidade demonstra a riqueza e a importância nacional na manutenção da vida no planeta. Conhecer, catalogar e definir áreas endêmicas de espécies é um desafio constante. Com esse propósito, 32 pesquisadores da América Latina se reuniram para mapear as áreas de ocorrência de serpentes no Brasil. O trabalho pioneiro é o maior já feito nesse sentido, mapeando 412 espécies de serpentes.

O mapeamento da biodiversidade é fundamental para a delimitação de áreas de proteção, para o estabelecimento de políticas públicas e a evolução conhecimento científico. A pesquisa resultou no Atlas das Serpentes Brasileiras, publicado na South American Journal of Herpetology, revista científica da Sociedade Brasileira de Herpetologia, dedicada ao estudo de répteis e anfíbios. Para a determinação prática do trabalho, o grupo consultou 160 mil exemplares de serpentes preservadas desde o século XVIII, recorrendo a 140 coleções biológicas de universidades e museus de história natural do país e do mundo. A identificação de cada cobra foi verificada por pelo menos um especialista da equipe e por pesquisas anteriores. Além disso, demonstrou a distribuição e ocorrência de cada espécie nas paisagens naturais e as serpentes exclusivas do Brasil.

Segundo Costa, os dados coletados apontam que em muitas áreas da Amazônia não há registros de nenhum exemplar de serpentes em coleções biológicas. Esse fator está ligado à proximidade dos centros de pesquisas a grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Belém e Brasília, onde cientistas já investigam há décadas a ocorrência das serpentes.

Nacionalidade brasileira

Do total de 412 espécies analisadas, 163 são exclusivamente brasileiras. Em avaliação percentual, esse dado corresponde a 39% das serpentes catalogadas. Outra característica apontada é o fato de em geral cada espécie de serpente brasileira viver em uma ou poucas regiões – conceito que os cientistas definem como ‘endemismo’ –, evidenciando a adaptação de cada espécie a condições ambientais particulares, como o tipo de vegetação, temperatura, volume de chuvas e relevo. Esses fatores implicam diretamente na sua distribuição geográfica.

As regiões brasileiras com maior concentração de serpentes endêmicas estão no sul da Mata Atlântica (na região das matas de Araucárias), os pampas, a Serra do Mar (no litoral do sudeste), e a Serra do Espinhaço (que cruza Minas Gerais e Bahia). O sudeste baiano, as áreas altas do Ceará, as dunas do rio São Francisco (na Bahia), a bacia do rio Tocantins, o oeste do Cerrado e o norte da Amazônia também compõem esse cenário. Os pesquisadores ponderam que isso reflete o quanto o país é rico, com diferentes zonas que abrigam grupos variados de espécies de serpentes – mas que, ao mesmo tempo, vêm sofrendo grande pressão de ações humanas, especialmente da agropecuária e do setor energético.

Contribuições

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), hoje, cerca de 30 espécies de serpentes do Brasil correm o risco de extinção. Os mapas produzidos no Atlas já estão sendo utilizados, de forma preliminar, para as discussões sobre o estado de conservação das serpentes, por meio da colaboração com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A publicação também influencia em ações de preservação, uma vez que auxilia na estimativa das áreas de ocorrência que foram alteradas pela ação humana, permitindo verificar o nível de ameaça.

Bibliotecas da vida

O mapeamento, que tem por base as coleções biológicas de todo país, demonstrou que muitas das áreas naturais de coletas dos animais não existem mais: foram transformadas em grandes cidades, plantações, pastagens, rodovias e hidrelétricas. As coleções biológicas têm cumprido a função documental de resgate à memória da biodiversidade nacional. As informações dos acervos, que estão abrigados em universidades, centros de pesquisa e museus de história natural, proporcionam o desenvolvimento científico em áreas tão distintas como a ecologia, a indústria farmacológica e a inteligência artificial, funcionando como uma grande biblioteca da vida.

(Com informações do Jornal da Ciência)