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O desabafo de um professor

Passei minha vida toda ouvindo que professor é uma categoria sem prestígio, desvalorizada, não reconhecida etc., etc. etc. Mesmo ouvindo esta cantilena em todas as oportunidades que tive, fiz da minha carreira profissional a arte de professar. Talvez nem tanto por não ouvir estes contraconselhos, mas por achar fascinante a possibilidade de ensinar algo para alguém. De fato, é uma profissão fascinante. E também sem prestígio, desvalorizada, não reconhecida etc., etc. etc.

Sigo uma carreira que tão presente na minha família já nem sei se é carreira. Parece mais uma sina. Contabilizo cinco gerações consecutivas com professores na família: tanto na ascendência quanto na descendência. Uma tia-bisavó materna, dois tios-avós paternos, pai, mãe, tios, primos, irmã, esposa e filhos: muita gente sem prestígio, desvalorizada e não reconhecida na mesma família. Mas o que penso de fato sobre esta escolha e as escolhas de quem opta pela profissão?

Professar é um luxo, é uma arte, um prazer! Há em tudo um encanto. O encanto de falar em público, em se fazer ouvir. O encanto de fazer olhos brilharem. Não tem preço! O retrucado. A pergunta. A feição de quem acabou de entender algo. Em nenhuma outra profissão se vê isso. Mas fui repreendido porque fiz a escolha. Há quase 40 anos, quando optei por estudar uma licenciatura. Mas argumentei: as melhores árvores vêm das melhores sementes! Aproveitando a deixa dos meus professores de Biologia. Entrei fácil na universidade, mas tive dificuldades, porque no meio do caminho existiam muitas pedras, como recitaram meus professores de Literatura. Muitas pedras que às vezes colocam empecilhos desfigurantes e desafiadores. Mas como ensinaram meus professores de História: Veni, vidi e vici! [Das palavras do Romano Júlio César, depois da Batalha de Zela].

O principal problema da educação, na minha opinião, é a desvalorização profissional. A desvalorização afasta novos e potenciais valores que poderiam enfrentar a sala de aula e formar outros valores ainda melhores. Discípulos desafiando e superando mestres é só o que se vê. Neste desabafo peço licença da minha autoridade de professor universitário, pesquisador e atual Presidente do Conselho Estadual de Educação, para expor um sentimento de total decepção pelo desprezo que sinto na pele, ante ao tratamento que a minha classe vem sofrendo. Não se trata dos que governam hoje, apenas. Isso parece que foi ensinado e muito bem aprendido por todos os que sentam na cadeira de gestores. Em campanha são só promessas. Plano este, plano aquele... “Educação é prioridade no meu governo”. Muito verbo mal conjugado, muito adjetivo desconexo da realidade, como diriam os mestres que me ensinaram língua portuguesa – “a última flor do lácio, inculta e bela”. Como acreditar que é prioridade se o mínimo que se pode fazer é construir uma carreira que pudesse valorizar a categoria? Como acreditar que a prioridade é prioritária, se não se dá condições de trabalho, como as que não temos na universidade em que trabalho? Se o reajuste do piso dos professores todos os anos enseja a necessidade de parar as atividades, para conseguir direitos?

No conjunto dos acidentes geográficos, a prioridade é uma montanha falaciosa e a realidade é um vale de lágrimas, aproveitando a comparação com os conceitos que aprendi na Geografia. Guardo para mim a tristeza de perceber que, apesar de nossa profissão ser a pedra angular de todas as outras, não se vê o mínimo de zelo por tentar fazer diferente, por parte dos gestores, com uma ou outra exceção.

Estou prestes a encerrar minha carreira. O tempo de parar está se aproximando. Já esteve mais perto, mas uma reforma empurrou para mais distante, num movimento retilíneo uniforme, como diriam os mestres da Física. Os sentimentos postos são o de uma mistura heterogênea, onde ora se percebe a diferença entre as fases, ora ocorre um movimento que mistura as partes como se homogênea fosse a misturada como explicariam os mestres da Química. E a equação não fecha. Lembra mais uma inequação onde o produto por um ente negativo muda o sinal de maior para menor, e a vontade que se tem é de jogar tudo para o alto e querer começar tudo de novo: conta sobre conta, número sobre número, como ensinam os professores de matemática.

Quando os governos colocarem como política de estado a valorização dos professores, talvez a coisa mude de figura. Minha geração não vai se beneficiar desta mudança. Até porque a mudança tem que ser na base, especialmente quando conseguirmos escolher dirigentes com base no plano de governo e não no proselitismo barato, no discurso fácil e acompanhado de sorrisos debochados e tapinhas nas costas.

Tenho muito medo das próximas gerações de estudantes, porque estou vendo ser formada a nova geração de professores.

Desculpem pelo desabafo, mas estava precisando...