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Reflexões sobre o mundo pós-pandemia: a Educação

Manter a saúde mental trancafiado em casa tem sido um desafio para muitos. Especialmente professores como eu, com a vida “normal” bem corrida, com aulas, pesquisas, orientações, bancas, publicações, tudo mais ou menos afetado pela parada geral. Desafio grande, mas não maior desafio para aqueles profissionais que vivem dos seus negócios e ocupações que dependem de uma rotatividade maior para colocar comida na panela, quando a economia trava geral e as autoridades esbarram em medidas que ajudam significativamente, mas não resolve o problema que vem afetando o planeta Terra como um todo. É a pergunta que muitas pessoas estão fazendo: se não se arrisca morrer por ação de um vírus altamente infeccioso se morre por falta de recursos financeiros para manter as famílias com muitos grandes negócios razoavelmente ameaçados e muitos pequenos negócios completamente arruinados. De fato, uma situação bem paradoxal.

Muitos vem discutindo de forma veemente o efeito de mudança em algumas importantes relações provocadas pela ação do vírus SARS-Cov2, especialmente sobre segmentos que passavam por uma gradativa discussão, mas sem sair muito do lugar, como no caso da Educação, aqui no Brasil. Mas como ficará a educação após a passagem da pandemia?

A educação como conhecíamos antes já foi impactada fortemente pela COVID-19 e detalhe: nunca mais será a mesma! Como as escolas são um local de aglomeração natural, o sistema todo realmente se obrigou a parar atividades. Com as crianças em casa, as escolas viram que não estavam preparadas para substituir os meios “normais” de se ensinar. Os professores perceberam que ensinar é mais do que uma arte, especialmente quando passaram a depender de processos mais tecnológicos para levar a sala de aula para casa de cada um. Os pais passaram a conhecer um lado que ainda não conheciam dos seus filhos: o lado estudante de cada um. Os memes, apesar de exagerarem, mostrando pais e mães descabelados e desorientados, expuseram um lado que nós professores já conhecíamos: muitas famílias delegam funções básicas da educação para a escola.

Há países que já retornaram as atividades escolares com cuidados redobrados em relação a higiene, mantendo os recursos de proteção como máscaras, regras de distanciamento e até rodízios de aulas, numa espécie de educação mista: combinando atividades presenciais com atividades remotas. Mas algumas escolas não resistiram abertas por mais do que duas semanas, exatamente o tempo de incubação do vírus, pois explodiram novos casos.

Alguns segmentos ficaram mais prejudicados, como a educação infantil, onde a imaturidade das crianças determina métodos de acolhimento e atividades de mão na massa para fortalecer o reforço dos chamados campos de experiência, que norteiam a base curricular do segmento. Para crianças tão pequenas, as atividades remotas com uso de tecnologias, mesmo coloridas, com músicas e o desdobramento de cuidados dos professores não conseguem substituir o presencial.

Na outra ponta, a educação superior foi a que se ajustou mais rapidamente, especialmente no segmento das instituições privadas. Algumas estratégias adotadas na Educação à Distância (EaD) foram expandidas para os cursos presenciais. Dentre os fatores que mais pesaram está a falta de destreza de alguns professores que não mantinham intimidade com recursos tecnológicos e para os estudantes, especialmente aqueles com menor disponibilidade financeira, pesou muito a falta de acesso. As diferenças econômicas entre os estudantes se tornaram mais visíveis e a desigualdade social sublimou mostrando o lado mais severo dos efeitos destas diferenças. A maior parte das instituições superiores públicas permaneceu com seus cursos de graduação fechados. Mesmo com a boa intenção das IES e dos seus professores, uma parte significativa dos estudantes não conseguiria acompanhar aulas online, por carência financeira, principalmente.

A verdade é que agora a educação precisa ser melhor pensada pelas escolas e professores. No que estão chamando de “novo normal”, a era pós-pandemia vai deixar como legado a possibilidade de um ensino híbrido não somente na hora de mostrar os objetos de conhecimento, mas até a avaliação de aprendizagem que, neste momento de adaptação, passou a olhar mais qualitativamente para os estudantes. Na era do “novo normal”, valem muito as reflexões do historiador israelense Yuval Harari: a educação precisa formar cidadãos para uma sociedade com novos tipos de ocupação. Neste particular o vírus fez um aligeiramento. A ruptura entre o normal de antes e a era pós-pandemia poderia ter sido mais suave.

Boa semana e até o próximo post.