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O Stress e o Assobio

Ia ser só mais um domingo de pandemia: trancados em casa, liga o computador e se põe a trabalhar em pareceres, artigos, pesquisas, leituras de trabalhos científicos etc. até a hora do almoço. Depois de um tempinho, volta-se à rotina que entra pela noite. Como em todos os finais de semana, desde que a COVID-19 limitou os rumos de tudo, seguimos fazendo assim.

Coloco uma música da playlist e tento assobiar... nada do fiu-fiu de sempre... só um sopro descoordenado de quem nunca conseguiu assobiar na vida. Minha Ana se desespera: vamos ao hospital!!! Tá parecendo algo mais grave do que uma simples inabilidade. Sorriso meio assimétrico, olho lacrimejando... Vou ao banheiro e não consigo segurar a água na boca. Escorre um fio pelo cantinho. Perda temporária do domínio sobre alguns músculos da face.

Onde tem uma fitinha tinha um músculo paradinho. Fonte: Arquivo Pessoal.

Não dá para se desligar de um susto destes. No hospital, espera pouca, atendimento preciso. “Não é um acidente vascular cerebral”. Ufa! Alívio! “Mas vamos eliminar as chances: Tomografia!”. Ufa! Outro alívio! Diagnóstico: paralisia facial de Bell!

Até o atendimento do médico, fomos ao Google: doença caracterizada pela inflamação de nervos faciais. Motivo: infecção ou reinfecção de um vírus como o da Herpes ou o Herpes Zoster, que causa a catapora e depois fica voltando para dizer: estou aqui! Tratamento proposto pelo médico: fisioterapia e corticoidoterapia. E o mais importante: diminua sua carga de trabalho! O stress do excesso de trabalho impõe rebaixamentos no sistema imunológico. O vírus já está no corpo. Aí cai a sopa no mel! Defesas frágeis, guarda baixa, doença volta!

Tratamento complicado: corticoides ajudam a piorar a vida do diabético! Fisioterapia especializada, precisa! As coisas vão voltando devagar. Os amigos e colegas de trabalho compreenderam e apoiaram os afastamentos. Deixei para trás uma pilha de trabalhos para outras pessoas assumirem. É a necessidade de dar um tempo maior. De relaxar e assumir menos funções. A família deu apoio. Fisioterapeuta buco-maxilo, deu conta do recado!

O olho ainda lacrimeja, a boca ainda está meio tortinha e um zumbido no ouvido direito ainda persiste. Apesar de tudo: já consigo fazer fiu-fiu...

Fica também o exemplo de que a COVID-19 não faz das suas apenas na forma desta infecção que mexe com o trato respiratório e outros sistemas. Mexe, sobretudo, com nossa cabeça. O medo do desconhecido, o stress de ter que fazer tudo trancado de casa, as sobrecargas de quem atua em um segmento bastante prejudicado - a Educação. Tudo isso soma para explicar problemas como este.

Gratidão a minha família, aos amigos que foram mais do que solidários e a Dra. Julia Moita, fisioterapeuta... O povo que dizia todo dia: vai dar certo! Parece que tá dando certo!

Boa semana para todos (as)