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Um ano de incertezas

Esta semana completou um ano que nossa vida mudou radicalmente em função da pandemia causada pela COVID-19. A impressão que tenho, depois de um ano, é de que foi um pesadelo em forma de looping, que entramos e não conseguimos sair mais. Trata-se de uma impressão focada especialmente nas nossas particularidades em passar a pandemia em um país gigante e com todas as peculiaridades, como o Brasil. Explico o porquê.

A doença foi nova para todos os povos e se espalhou rapidamente por causa do tipo de transmissão, sendo a globalização uma das causas do rápido espalhamento. Da possibilidade de contato com cidadãos de regiões bem longínquas e do agente patogênico, um vírus que se difunde pelo ar e é bem aceito por células da mucosa bucal, nariz ou olhos. Como toda doença nova, foi necessário conhecer sua etiologia e criar protocolos para o tratamento e para barrar sua disseminação. Para alguns povos, detentores de hábitos como o uso de máscaras e a obediência às condutas em casos de emergências, o enfrentamento da pandemia foi bem menos traumático do que no Brasil.

Aqui, além do espalhamento da doença, tivemos que lidar com um negacionismo patrocinado por políticos importantes e pela disseminação de Fake News, especialmente utilizando-se as redes sociais - palco de ataques de lado a lado, em uma disputa que extrapolou os limites da razoabilidade. Tem sido difícil administrar a situação, especialmente quando há uma parcela razoável de mal-informados incentivando o uso de um suposto tratamento precoce que, até o momento em que escrevo este texto, não se revelou como eficaz. Pelo contrário: o próprio laboratório de um dos medicamentos usados fez questão de vir a público oficialmente para desmentir a eficácia levantada. Veja aqui.

O isolamento social necessário atingiu vários setores, em especial a economia e a educação. No tocante à economia, vindo para a realidade brasileira onde há um escorchante sistema tributário e um significativo número de ocupações informais a coisa não está sendo fácil. É muito difícil aceitar um “ficaemcasa” se você está com a geladeira vazia, ou se está sem emprego e sem perspectiva. Assim, o ideal é, quem dispor de melhores condições, estender a mão para os que mais precisam. O desaquecimento da economia e a redução dos postos informais ampliou o abismo econômico entre as pessoas.

A educação, sem qualquer dúvida, foi o mais afetado de todos os segmentos, em especial para os estudantes mais jovens. As redes e escolas de todo o país procuraram se adaptar ao novo mecanismo de aulas que combina atividades presenciais em regime de revezamento com atividades remotas. As escolas privadas têm primado pelo cumprimento dos protocolos de segurança sanitária o que, de certa forma, tem barrado a taxa de contaminação. Nas redes públicas, as atividades presenciais não puderam ainda ser retomadas. Assim, para o estudante da rede pública existe uma espécie de “salve-se quem puder”. Nas universidades, as atividades remotas têm funcionado relativamente bem, à medida do possível e nas boas graças da internet, que às vezes resolve não funcionar. Até agora não entendi por que na Universidade que eu trabalho esperou nove meses para formatar o período de aulas para atividades remotas.

Há um ano estávamos, eu e alguns membros do Conselho Estadual de Educação do Piauí, preocupados com a validação dos estudos feitos no formato remoto. Em 26 de março saiu o primeiro parecer orientando os procedimentos para o funcionamento das escolas do Sistema Estadual de Ensino. 10 dias depois do decreto que suspendeu as atividades presenciais. Em maio, entregamos à sociedade outro parecer, desta vez orientando a forma de registrar as atividades e o calendário. Nosso trabalho colocou o Piauí como um dos primeiros estados do país a se preocupar com a educação em tempos de pandemia.

Passado um ano das consequências advindas da primeira onda da COVID19 muitas coisas mudaram. Apesar do conhecimento sobre a doença e o modo de combatê-la terem se ampliado, ainda carregamos sobre os nossos ombros um período nebuloso e carregado de incertezas.

Boa semana para todos(as).