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Biodiversidade em queda: e agora?

Não sei se você já parou para comparar o que existia em sua casa ou nas redondezas em termos de animais há tempos com o momento presente. Já fez isso? Dia desses estava me lembrando que quando era adolescente a quantidade de pequenos animais que apareciam no nosso jardim, da casa que morei na zona norte de Teresina. Lembro frequentemente de pequenas pererecas, de sapos povoando o esgoto pluvial e lembro até que um dia encontramos uma pequena cobra da cabeça vermelha que chamavam de “mata-boi” (a cobra estrategicamente ficava na pastagem e penetrava nas narinas do gado bovino, o matando com uma picada). Hoje está muito diferente e não é somente porque a minha casa fica em um bairro mais central, apesar de nunca ter saído do lugar!

A biodiversidade está sendo abalada no mundo inteiro, assim como revelaram os pesquisadores Yonglong Lu e James Bullock no editorial da revista Science Advances desta semana. Para os pesquisadores “A perda maciça e contínua de biodiversidade compreende uma emergência social e ambiental que os governos mundiais devem enfrentar com urgência”. A avaliação global da Plataforma de Política Científica Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) alertou que a biodiversidade está diminuindo mais rápido do que em qualquer momento da história humana.

Alguns fatores são enumerados como principais na análise feita por eles na Revista que reúne trabalhos de vários pesquisadores que atuam com biodiversidade no mundo inteiro. Os autores destacaram seis pontos relevantes, a saber.

1) Existem muitos estressores conduzindo à perda de Biodiversidade

Embora os papéis das ameaças individuais à biodiversidade, incluindo mudanças climáticas, perda de habitat e poluição, sejam bem documentados, muito menos se sabe sobre como esses fatores interagem e como suas interações variam entre os locais. A expansão da construção e a intensificação da poluição levaram à perda e degradação do habitat, ameaçando grandes proporções de anfíbios, mamíferos e répteis.

2) Altas taxas de ozônio troposférico impacta a biodiversidade

O conhecimento incipiente sobre o metabolismo dos seres vivos ante ao Ozônio levanta uma série de suspeitas sobre impactos contra estes seres vivos. Estudos recentes apontam que o ozônio pode afetar:

(i) a composição e diversidade das comunidades de plantas ao afetar características fisiológicas chave;

(ii) química foliar e a emissão de voláteis, afetando assim a competição planta-planta, as interações planta-inseto e a composição das comunidades de insetos; e

(iii) interações planta-solo-micróbio e a composição das comunidades do solo ao interromper a queda da serapilheira e alterar os processos do solo.

Essas descobertas estimularão mais estudos sobre os impactos dos poluentes atmosféricos na biodiversidade, nas comunidades e no funcionamento do ecossistema.

3) Necessidade de monitorar a diversidade filogenética

A diversidade filogenética reflete a história evolutiva das espécies e tem sido usada na seleção de áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade. Entretanto, as quantidades e padrões espaciais da diversidade genética e filogenética da vida selvagem na escala regional permanecem em grande parte obscuras. Fatores climáticos tiveram efeitos positivos notáveis, enquanto a altitude e a densidade da população humana tiveram impactos negativos sobre os níveis de diversidade genética baseada no DNA mitocondrial na maioria dos casos.

4) Produção de alimentos impacta na Biodiversidade

Os sistemas alimentares são um dos maiores estresses sobre a biodiversidade, sendo responsável por aproximadamente 60% da perda de biodiversidade terrestre global e a superexploração de 33% das populações de peixes comerciais. É importante estabelecer metas e indicadores específicos que possam abordar com eficácia a produção e o consumo sustentáveis de alimentos e apresentar as condições que possibilitem o cumprimento dessas metas.

5) Expansão global de áreas protegidas

Ecorregiões de crise, pontos críticos de biodiversidade, áreas de pássaros endêmicos e paisagens florestais intactas são alguns tipos de áreas protegidas que devem ajudar a prevenir a perda de biodiversidade. Com o planejamento espacial de alta resolução para a expansão efetiva das áreas protegidas, os locais mais econômicos podem ser designados, levando em consideração as metas nacionais e as diferentes condições ambientais e sociais regionais.

6) Conservação da Biodiversidade e neutralidade de Carbono

A maioria dos países define prioridades de conservação em escala nacional ou subnacional, mas as contas nacionais raramente mencionam metas e indicadores regionais ou globais. No entanto, é vital buscar sinergias entre escalas e identificar sobreposições e diferenças para permitir decisões eficazes necessárias para a implementação da estrutura de biodiversidade global pós-2020. Os países signatários da Convenção de Diversidade Biológica (CDB) devem desenvolver uma estrutura viável que estabeleça prioridades sinérgicas para a conservação da biodiversidade, captura de carbono e redução de emissões e fazer melhor uso de instrumentos eficazes para o cumprimento das metas climáticas e de biodiversidade.

Outras áreas e metas precisam ser trabalhadas também, mas as levantadas por Lu e Bullock neste conjunto de artigos já adiantariam muitas situações na proteção da Biodiversidade. São muitas lacunas e problemas em escala local, regional e mundial. Precisamos entender e assumir compromissos que ajudem a minimizar os danos.

Boa semana para todos (as)