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O que realmente atrapalha?

Há alguns dias, um dos principais ministros do Governo Federal soltou uma pérola daquelas que a gente costuma comentar com a máxima “perdeu uma boa oportunidade de ficar calado”. Foi o Ministro da Educação, Milton Ribeiro. O quarto ministro do atual governo a assumir a principal pasta da nação, vez por outra solta falas indignantes e que acertam em cheio boa parte dos brasileiros que esperavam mais de um ex-Reitor de uma das principais universidades privadas do país – a Mackenzie, ligada à Igreja Presbiteriana.

Me refiro a pérola relativa aos estudantes especiais. Ao dizer que os estudantes especiais só atrapalham, Milton Ribeiro demonstrou um profundo despreparo não só no campo da competência educacional, mas sobretudo na falta de humanidade para um conjunto de estudantes que, quando acolhidos e acompanhados de forma correta, correspondem plenamente aos resultados, como qualquer outro estudante, rotulado como “normal”. A fala do Ministro casou bem certinha com os resultados dos Jogos Paralímpicos, nos quais os atletas especiais brasileiros só “atrapalharam” bastante a vida dos seus concorrentes. Com uma posição bem superior à dos atletas ditos “normais”, os paralímpicos do Brasil brilharam nas pistas, piscinas e quadras do Japão, alcançando um resultado pra lá de significativo.

Durante 12 anos que permaneci no Conselho Estadual de Educação (CEE) acompanhei dezenas de situações envolvendo a relação entre estudantes, escolas e famílias que muitas vezes chegavam ao Conselho como uma espécie de instância recursal dos pais que procuravam o abrigo do Estado, representado pelo CEE, para fazer valer a legislação que concede direitos aos estudantes especiais e suas famílias. A lida com estudantes especiais, na maioria das vezes, não é simples. As universidades não preparam os estudantes de Licenciaturas, futuros professores, a se depararem com os mais diferentes tipos de estudantes especiais, desde aqueles que tem dificuldades de se comunicar, porque perderam a audição ou a visão, por exemplo, até aqueles que padecem de distúrbios neurológicos ou motores, ou mesmo os portadores dos diferentes quadros de Transtorno do Espectro Autista que, em grande número sequer foram diagnosticados, não contando também, em muitos casos com a aceitação das famílias. Estas crianças também têm direito ao acesso à educação. A Constituição Federal é clara quando coloca que a educação é um DIREITO DE TODOS.

Ao Ministro, espero que, sinceramente, consiga se livrar das máculas deixadas por suas falas arraigadas de preconceito e despreparo. Quando foi indicado tive a esperança de que as coisas melhorariam (afinal qualquer pessoa seria melhor do que o Weintraub). Quando pertenci ao FORGRAD, Fórum de Pró-Reitores de Ensino de Graduação tinha contato com a Pró-Reitora da Mackenzie que me parecia alguém muito sensata (fugiu-me o nome completamente). Era a visão da Pró-Reitora que me servia de referência para o Reitor Milton Ribeiro. Hoje, as falas destoantes associadas ao baixíssimo número de estudantes das classes menos favorecidas inscritos no ENEM 2021, falam por si sobre o projeto da gestão deste Ministro em relação à educação dos brasileiros, especialmente aos que tem acesso reduzido. Afinal, o que realmente atrapalha?

Já está passando da hora de se fazer algo mais concreto pela a Educação no nosso país.

Boa semana para todos (as).