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Quanto um professor deve ganhar?

A classe de professores sempre foi bastante desvalorizada no Brasil. Isto não é novidade para ninguém. Ouço esta cantilena desde sempre, pois sou filho de professores e meus pais foram sindicalistas durante muitos anos. Na minha família já se contam cinco gerações de professores. Pertenço a quarta. Cheguei a enfrentar até protesto quando optei por cursar uma licenciatura. Não me arrependi, especialmente por ter, com toda a modéstia posta à parte, feito a diferença na vida de muitas pessoas. Ouço isso de muitos antigos alunos e alunas. Então deve ser verdade.

Há alguns dias venho acompanhando uma movimentação em torno do aumento a ser concedido para classe de professores no âmbito municipal (Teresina) e estadual (Piauí). A polêmica toda gira em torno da aplicação dos recursos do FUNDEB nos salários. Este fundo foi criado para suprir várias vertentes do custeio da educação, sendo uma delas, a valorização do trabalho docente. O fundo recebe aporte dos três entes: estados e municípios contribuem com 90% dos recursos e 10% vêm do Governo Federal. Destes recursos, de acordo com as regras, um mínimo de 60% deve ser aplicado no pagamento de salários. Então que a lei seja cumprida! Mesmo tratando professor com bala de borracha e gás de pimenta, dura lex sed lex, a lei é dura, mas é lei! E a bem da verdade: nem é tão dura assim.

Remunerar bem o professor nunca foi despesa. Professor bem remunerado, incentivado a estudar, a buscar estratégias para melhorar seu desempenho, engaja-se fortemente e produz resultados fantásticos. Agora estando o professor preocupado em fazer um bico aqui e outro ali para complementar renda, não consegue dar o melhor de si. Vi uma matéria com o título “Salário de professores da rede estadual pode chegar a R$ 7 mil após reajuste, diz governo”. A matéria traz informações sobre o reajuste e coloca uma tabela de como ficariam os salários. Mas é muito bom que se diga que o valor de mais de 7 mil reais só se alcançará quando o Professor fizer um Doutorado e já no fim da sua carreira. E, diga-se de passagem, não é o valor que vai para conta do professor, pois dele são descontados os valores da Previdência e o famigerado Imposto de Renda. Para alcançar este valor a caminhada é longa e árdua. São, no mínimo, 10 anos de estudos, tratando todos os percalços como bobagem!

Pior do que este cenário da Educação Básica, no qual existe um Fundo e uma lei dizendo como o gestor deve fazer, e ainda se vê cenas lamentáveis como as que foram vistas estes dias, está a Educação Superior. Desemparados pelo FUNDEB e sempre propensos a negociar com os Governos, professores da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) são sequer recebidos pelos gestores estaduais. O que se tem? Salários defasados, pois desde 2015, não se tem qualquer tipo de aumento. Mais de 50% de perdas acumuladas. Lamentável! Falar de valorização de professores passa por falar sobre formação de professores. A UESPI se notabilizou como a maior instituição de formação de professores do Piauí, desde a década de 1990. É possível dizer que o professor está sendo valorizado quando no seu nascedouro profissional as coisas vão do jeito que vão? Sinceramente: não acredito neste valor dado!

Respondendo a pergunta que abriu esta conversa: professor deve ganhar bem. O suficiente para desenvolver seu trabalho com dignidade. Para fazer a diferença na vida dos seus alunos. E deve ser cobrado por resultados. Bons salários precedem um bom trabalho e resultados positivos.

Desculpem pelo desabafo. Mas o spray de pimenta fez arder minha alma de professor.

Até o próximo post...