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Professor 4.0: como acompanhar a tendência?[1]

A todo momento ouvimos falar termos que mais parecem coisas antigas recicladas por uma entonação cardinal mais “moderna” - educação 4.0, Indústria 4.0, Internet 5G e assim por diante. Mas isso é de fato uma novidade ou apenas uma “modinha” de tentar vestir coisas antigas com novas simbologias? Explico melhor.

Quando ouvimos “Indústria 4.0” estamos falando da quarta etapa do processo de revolução industrial. Do mesmo modo, ao falarmos “Educação 4.0” estamos mostrando que a educação também acompanha a tendência de modelar o seu “produto” (o estudante) a acompanhar a revolução puxada pela Indústria. Na verdade, tudo está relacionado.

A Indústria evoluiu para um tipo especial de automação que usa inteligência artificial (AI), internet das coisas (IoT), cibersegurança, integração de sistemas, computação em nuvem, manufatura aditiva, realidade aumentada entre outros elementos que melhoram os processos, otimizam os recursos, barateiam os custos, gerando um ambiente de desenvolvimento promissor. Uma verdadeira convergência de tecnologias. A indústria 4.0 só funciona se, nos seus bastidores, for constituída de “cabeças 4.0”.

Neste contexto a educação 4.0 se coloca como peça fundamental da Indústria 4.0. A ideia é um processo educacional que mire na aquisição de habilidades e competências como foco essencial, de preferência colocando o estudante como sujeito central da aprendizagem, como define Delors[3] quando diz que “a educação básica é um passaporte para vida” e o “ensino secundário é a plataforma giratória para toda uma vida”, refletindo sobre o protagonismo do estudante. Uma espécie de engenharia e gestão do conhecimento. Como a sociedade evolui muito rapidamente, é difícil planejar um processo educacional com base somente na aquisição de conhecimento. O mercado, puxado pela Indústria 4.0, exige que a escola seja capaz de formar pessoas capazes de resolver problemas. Assim, cabe à escola e ao professor que dela faz parte, o poder de avaliar o cenário e construir estratégias que possam levar ao objetivo central de formar estes “resolvedores de problemas”. Este processo só se concretiza se a escola tiver a excelência de desenvolver as competências proporcionando ao estudante a aquisição das habilidades.

Este processo deve ser alimentado por um ambiente de preparação dos espaços de aprendizagem. Não basta a sala de aula tradicional. Fortalece-se, na busca pelo foco do Learning by doing (Aprender fazendo), a presença de espaços seguros e dotados dos recursos necessários, no qual o estudante perceba ferramentas que o dotem do poder de manejar seu conhecimento aliando aos passados pelo professor, numa fusão a frio das duas “matérias”: conhecimento nato e conhecimento passado. Estes espaços não precisam ser necessariamente físicos, uma vez que vicejam as disponibilidades de recursos na forma de aplicativos, ambientes de aprendizagem virtual e recursos presentes em computadores, tablets e smartphones. Ou seja: muita coisa está à mão. A cibercultura começa a dominar espaços escolares.

Este desenvolvimento de tecnologias não resulta, por si só, no sucesso dos estudantes nesta caminhada de descobertas. As novidades não traduzem o melhor caminho se, escudando-as, não existir o viés da educação científica. Os “comos e porquês”, lá do início da epopeia do método científico são os balizadores para esta revolução de formar professores 4.0. Usar da tecnologia não garante lugar para formar esta geração de estudantes que está na escola hoje. É preciso ousar nos métodos sem descuidar da estratégia de planejar o uso dos recursos, lembrando que a curiosidade deve ser estimulada e o estudante deve ser o centro das atenções da aprendizagem. Humildade e ética são pressupostos bem necessários ao professor neste momento.

Esta é uma reflexão que considero importante neste momento de transição para Educação 4.0!

Carpe diem!

 

 

 

[1] Texto produzido especialmente para o Workshop STEAM na Escola, realizado na Sala de Treinamento do Piauí Original Hub, L2, Shopping Rio Poty, Teresina (PI) em 20 de agosto de 2022.

[2] Francisco Soares Santos Filho é professor, licenciado em Ciências com Habilitação em Biologia (UFPI), mestrado e doutorado em Botânica (UFRPE). Atualmente é Professor Associado III da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), orientador de Mestrado e Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFPI) e cofundador das startups THE LAB EDU e TecStories. Ex-Pró-Reitor de Ensino (UESPI); Ex-Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI); Ex-Superintendente Estadual de Ciência e Tecnologia e Ex-Presidente do Conselho Estadual de Educação do Piauí.

[3] DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir. 7ª ed., revisada – São Paulo: Cortez Editora; Brasília (DF): UNESCO, 2012.