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Professor: orgulho ou preconceito?

Das coisas que mais me orgulho na vida: 1) ser professor; 2) do sucesso dos meus alunos; 3) de pertencer a uma família que já está na quinta geração de professores e 4) ter filhos professores. A sala de aula me proporcionou muitas coisas que considero verdadeiras preciosidades. Elementos enriquecedores para minha vida. Mas nem tudo nesta profissão é motivo de alegria e satisfação. Vou dividir com os leitores do Ciência Viva um episódio dadivoso e outro nem tanto.

Episódio 1

No início deste mês minha mãe necessitou de cuidados médicos. O sufoco da internação e de termos uma família pequena, faz com dependamos muito, uns dos outros para nos dividirmos em atenção, quando nossos pais precisam de suporte. O certo é que minha mãe precisou de uma intervenção cirúrgica e minha irmã não conseguiu falar com o médico. Para vermos os detalhes do procedimento, precisávamos conversar e, então a enfermeira me conseguiu o nome e, imediatamente, lembrei que tinha sido meu aluno, mas não tinha seu contato. Com a ajuda de amigos comuns consegui o número e meio acabrunhado incomodei-o pelo Whatsapp com o seguinte início de conversa: “Doutor, não sei se ainda lembra de mim, mas fui seu professor...” Alguns minutos se passaram e foram rompidos com um: “É claro que lembro de você, meu líder...” Tudo correu da forma esperada, com a máxima atenção devida.

Episódio 2

Regularmente recebia visita de um senhor que vendia galinha caipira e capote. Ele vinha quinzenalmente, aos sábados. Em geral comprava várias unidades das iguarias, lotando meu refrigerador, levando para meu pai ou meus filhos. Sempre foi muito tranquila a relação com este vendedor. Um dia ele apareceu na minha casa dizendo precisar de uma ajuda para adquirir uma peça para seu carro. Pediu um adiantamento que se traduzia em umas 20 peças das que me vendia. Perguntei quando viria devolver e ele disse: “dia X e pode confiar, professor!” O dia X passou, semanas, meses se passaram, e eu já tinha dado por perdido quando ele aparece para vender. Lembrei-o da dívida, e ele prontamente, descontou em produtos o que eu havia emprestado. Depois disso, nunca mais apareceu. Certo dia me encontrei com ele na rua, quase meio-dia, ainda com sua caixa de produtos lotada (acho que não tinha conseguido êxito até ali). Ele me abordou insistindo para que eu comprasse. Aí disse que não queria, e que havia perdido a confiança nele. Num ímpeto de raiva, ele se vingou: “Não vendo meus produtos para quem não tem dinheiro: você é um professorzinho sem recursos... Meus clientes são juízes, desembargadores...” e foi embora...

Como se pode ver, o senso comum, que ainda impera fortemente na nossa população, devido, principalmente à baixa escolaridade, joga o professor às traças, sem qualquer preocupação sobre o valor da nossa profissão. Já para aqueles que, puderam ter acesso e notaram o quão imprescindíveis são os professores para sua formação, para sua caminhada, sobra o reconhecimento.

Precisamos estar atentos sobre a valorização docente. A escola é a segunda casa da maioria dos jovens. Sair precocemente da escola, abre uma perspectiva gigante para a criança e adolescente, se perder no meio do caminho. O professor, embora essencial para a formação de jovens e adultos, ainda é uma classe vilipendiada. O próprio professor precisa entender da sua importância e do seu compromisso ético na função de agente de transformação da sociedade. Com o seu trabalho, um dia, poderá ser valorizado pela maioria.

A nossa profissão ainda é motivo de orgulho, mas também de preconceito.

Feliz 15 de outubro! Feliz dia do Professor e da Professora.

Até o próximo post...