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A crise da semana

Nestes últimos dias circularam nas redes sociais informações sobre cortes nos recursos das universidades e institutos federais. As notícias, amplamente divulgadas na mídia, causaram um forte alvoroço no meio científico do país e informações desencontradas aliadas a uma forte comoção das pessoas que se vinculam à pesquisa criaram um clima de bastante pesar.

As notícias dão conta de um contingenciamento de recursos na ordem de 30% para despesas com custeio, pautado para o segundo semestre, de acordo com informações do Ministério da Educação. As razões para a redução estariam atreladas a baixa arrecadação do Governo, o que se estenderia para todas as áreas e não apenas para a educação e a ciência, praticadas nas universidades.

A polarização advinda do período eleitoral gerou um tsunami de informações provocando um desesperador momento, principalmente para os estudantes que aguardam o recebimento de bolsas de estudo em cursos de Mestrado ou Doutorado. Muitos dirigentes das Instituições de Ensino Superior, rapidamente cuidaram em informar as consequências esperadas com tais cortes. Muitos resumiram suas expectativas de que, a partir de setembro as universidades fechariam as portas. Outros dirigentes já iniciaram cortes que atingiram principalmente os estudantes, como suspensão de transporte escolar e a demissão de servidores públicos terceirizados.

Na outra ponta, usuários de redes sociais disparando vídeos, fotos, prints com a fotografia de estudantes pelados em manifestações, ou eventos de extensão universitária e notícias com informações sobre eventos universitários que chegaram à grande mídia como convenções, seminários, cursos e minicursos, trazendo títulos de trabalhos acadêmicos com temas relacionados a questões de gênero ou de aspectos culturais de gosto duvidoso. Uma verdadeira batalha “campal” travada principalmente no meio digital.

Os conflitos entre estes dois segmentos geraram insatisfação mútua. Por um lado, as comunidades formadas por professores e estudantes das universidades, preocupados com os cortes anunciados ratificados pelos dirigentes das IES e desacreditados por autoridades do MEC. Por outro lado, pessoas alheias ao ambiente universitário divulgando informações, como que a dizer: merecem ser cortados porque atacam a família tradicional brasileira.

Mas e o que há de verdade em tudo isso?

Pesquisadores e representantes das instituições afetadas cuidam em se manifestar preocupados com os cortes e outros mais afoitos descrevem um cenário pós-apocalíptico. Na outra ponta o séquito de pessoas que se dizem direitistas que juram que o melhor seria realmente direcionar recursos das universidades para educação básica. No meio de tudo isso, um bando imenso de desinformados nos quais eu me incluo, até por não ter certeza se pão é pão e pedra é pedra. Mas o discurso dos dois lados me favorece algumas interpretações sobre o assunto, a saber:

1) Notícia veiculada no dia 30 de abril dá conta de que aconteceu corte de verbas, na verdade um bloqueio nas contas de três universidades: UnB, UFF e UFBA;

2) Notícia veiculada no dia 08 de maio dá conta que cinco universidades de Pernambuco (3 federais, uma estadual e uma privada) vão levar à comunidade um trabalho de conscientização da importância da academia para sociedade, o que é bastante salutar e esclarecedor;

3) Notícia veiculada no dia 07 de maio deu conta de que o MEC fará um contingenciamento caso a economia não reaja, incluindo a não aprovação da reforma da previdência como fator importante para que o contingenciamento não ocorra. Soou como ameaçador, mas vamos em frente;

4) Notícia veiculada no dia 10 de maio dá conta de que as agências de pesquisa suspenderam 218 bolsas de pós-graduação que se encontravam sem titular (isso às vezes ocorre porque uma pessoa desistiu das bolsas e o sistema aguarda a substituição por outra que está na fila de espera), mas afirma que isso representa menos de 2% das bolsas, que diga-se de passagem estão com valores miseráveis há muito mais de 10 anos e não conseguem cobrir as despesas básicas dos estudantes de pós-graduação;

5) Notícia veiculada pelos canais de fofoca das redes sociais como Whatsapp, Facebook e Twitter mostram vídeos de estudantes debochados tirando a roupa ao vivo e a cores em manifestações por diversas universidades em uma espécie de circo de horrores, que muitos chamam de arte, entre outras coisas esdrúxulas.

E aí, ficou sem entender? Eu também.

A única coisa que vi de concreto foi um clima de pesar muito ruim entre os pesquisadores que conheço. Gente que produz conhecimento absolutamente desencantada com tudo o que está acontecendo. É muito bom lembrar que 95% do conhecimento científico que se produz no Brasil vem das universidades. Estas há muito sofrem com restrições de verbas, embora se perceba que algumas não sabem gastar muito bem o que recebem, o que seria perfeitamente ajustável.

Sobre o conhecimento é muito bom afirmar que os países que não investem em educação e em produção do conhecimento estão fadados ao fracasso. Conhecimento é poder. Quem tem conhecimento domina. Um país como o nosso que exporta praticamente apenas produtos resultantes do setor primário (agricultura, pecuária e extrativismo) tende a permanecer no marasmo e na dependência das nações desenvolvidas. As que investiram em Ciência e que dominam o mercado mundial.

Tenho dito para alguns colegas que, pior do que a ameaça de contingenciamento e corte de verbas é trabalhar em uma instituição que já vive contingenciada e com verbas cortadas. Eu conheço isso perto.

Boa semana para todos (as).