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Quando a ética ameaça ciência

A capa da revista Science publicada nesta última sexta-feira (24 de maio de 2019) mostra um fóssil de um escorpião em âmbar, de uma beleza singular, mas abordando uma questão ética de grande importância.

Imagem da cauda de um bebê dinossauro. A imagem retrata a formação das penas desta espécie. Fonte: Science.

Para quem não sabe o âmbar é uma resina produzida por uma árvore, e esta resina foi fossilizada, ganhando a consistência e status de um mineral. Algumas árvores, como os pinheiros, produzem um volume muito grande de resina. Os pinheiros que habitavam algumas regiões do planeta tiveram sua resina conservada ao longo do tempo, convertendo-se neste tipo de fóssil, de rara beleza e que ajuda a conservar organismos que ficaram envolvidos pela resina e terminaram fossilizando junto com ela. O âmbar já esteve em evidência nas telas do cinema. Para lembrar um pouco o enredo do filme Parque dos Dinossauros, o DNA que gerou o ressurgimento dos dinossauros foi extraído de insetos que se alimentavam do sangue destes dinossauros e que estavam conservados em pedras de âmbar. Relembre um pouco deste filme assistindo o trailer abaixo:

A questão ética citada pela reportagem de capa retrata um pouco do cotidiano do paleontólogo chinês Xing Lida, da Universidade de Geociências da China em Pequim, que visita mercados como o Tengchong na China onde são vendidos fósseis em âmbar extraídos em zonas de mineração nas fronteiras entre a China e Mianmar, onde há um conflito pela separação de territórios.

Lida adquire fósseis no mercado negro e usa o material como testemunho de muitas de suas pesquisas, especialmente as que retratam dezenas de espécies que viveram no período Cretáceo e, cuja descrição, só foi possível porque os mesmos foram encontrados em fósseis de âmbar ou comprados de forma escusa ou emprestado por colecionadores que também os adquiriram de forma indevida.

Tanai, Estado de Kachin, no nordeste de Myanmar, é uma região muito rica em minas de âmbar, e este é o mais rico suporte para conservação de tecidos moles de animais que viveram a milhões de anos na região, segundo a paleontóloga Victoria McCoy da Universidade de Bonn na Alemanha.

Região onde são encontrados (em vermelho) e comercializados (em azul) os fósseis em âmbar. Fonte: Science.

As questões éticas permeiam vários segmentos da Ciência, mas julgar o comportamento destes cientistas é muito complicado. Só para se ter uma ideia, apenas em 2018 foram incorporados ao conhecimento científico 321 novas espécies, descritas a partir do achado nas amostras de âmbar. Só desta reunião são 1195 espécies encontradas. Seria justo para humanidade não acessar este conhecimento por que esta região é dominada por exércitos que, inclusive, usam os recursos destas minas para financiar sua atividade de guerrilha pela independência?

Cada um julgue como achar melhor. A minha opinião é que Xing Lida, que inclusive já arriscou a vida visitando as áreas de mineração de âmbar nesta zona de conflito, está fazendo sua parte em mostrar para o mundo uma riqueza do passado que é vendida no mercado negro. Ao divulgar seus resultados, Lida consegue popularizar algo que não seria acessível se não fosse sua incursão pelo mundo do crime. Para mim, Xing Lida é um herói.

Boa semana para todos (as).