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Após doação misteriosa, professora cria escola de música e dá aulas na periferia da capital

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  • violino-pessoal_(2).jpg Caixa surpresa com nove violinos foi estopim da escola Dona Gal
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  • Caixa surpresa com nove violinos foi estopim da escola Dona Gal
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  • violino-3.jpg Carlos Lustosa Filho
  • violino-1.jpg Wânya Sales
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  • violino-7.jpg Wânya Sales e seus alunos Fausta e Melquisedeque
    Carlos Lustosa Filho
  • violino-8.jpg Wânya Sales
    Carlos Lustosa Filho

Mi, Lá, Ré, Sol. Pelas cordas do violino é possível emocionar, motivar pessoas, fazê-las dançar, refletir, viajar no pensamento. O instrumento também pode ser uma arma de transformação e mudança de vida. É nisso que acredita a professora Wânya Sales que está dando aulas para crianças e adolescentes da periferia de Teresina, após ter recebido uma doação misteriosa de nove violinos e, em seguida, abrir a escola de música Dona Gal, em homenagem à sua mãe, localizada no Parque Alvorada, na zona norte da capital. 

Wânya é violinista da Orquestra Sinfônica de Teresina (OST), do Valor de PI e também forma grupo com amigos para tocar em eventos, além de dar aulas de violino e rabeca na Escola de Música de Teresina. Ela começou cedo na música, aos 4 anos, no coral Raio de Sol, da professora Cláudia Tenório, e, anos depois, foi direcionada ao professor Emmanuel Coelho Maciel que estava criando a Orquestra de Câmara, embrião da atual OST. 

“Fui apresentada à música pela minha mãe que conhecia os instrumentos, viveu o período da Tropicália, foi empregada do Torquato Neto e conheceu muita coisa. Quando eu entrei na Orquestra de Câmara, eles precisavam de muitos violinos, então acabei indo para eles, sem muita escolha (risos). Fui cada vez mais me apaixonando pelo instrumento. Hoje eu vivo de música. Conheci meu marido na orquestra e a gente sobrevive dando aula, tocando, viajando o mundo”, descreve. 

Aulas no domicílio... da professora
Wânya, que está concluindo o curso de licenciatura em Música na UFPI, explica que ficou surpresa ao ganhar nove violinos de um desconhecido que não quis se identificar. Juntamente com outros três instrumentos que ganhou de pessoas que admiram seu trabalho, ela resolveu abrir a Escola Dona Gal, na sua própria casa. 

“A escola surgiu por uma doação anônima de nove violinos de um doido – ou uma doida – mais doido do que eu (risos). Não sei quem é, mas me emocionei. Fiquei me perguntando ‘qual era a proposta? Quem ia me doar? Pra quê? O que foi que aconteceu?’. Hoje eu acredito que esse doador viu um projeto que eu fiz na calçada da praça da igreja do bairro que foi o Natal Iluminado. Com a ajuda da comunidade, fizemos uma árvore de garrafas pet; peguei 40 meninos e fiz um coral. Divulguei no Facebook e no WhatsApp dizendo que era a minha doação à comunidade que precisa de ações como essa. Creio que foi por aí que surgiu esse doador. Depois desses violinos, eu tive mais três doadores: um ex-aluno, o professor Wilson Seraine e o doutor José Cerqueira, agora tenho 12 violinos”, diz. 

 

 

Daí por diante, a iniciativa recebeu mais apoio e tomou dimensões maiores. “Depois que divulguei no Facebook e tirei fotos, a (produtora cultural) Mariana Paz teve a ideia de buscar recursos e agora temos várias doações de empresários e pessoas que querem nos apoiar, oferecer fardamento, lanches. Com o boca a boca estamos crescendo”, afirmou. 

Aulas
No terraço da casa de Wânya, os aspirantes a violinistas se juntam, puxam uma cadeira ou tamborete e, com seus cadernos de partitura prestam atenção às aulas. Eles vêm de vários lugares da cidade. “Os alunos são daqui do Parque Alvorada, de comunidades vizinhas, e até de outros bairros. Não cobramos nada. A minha ideia foi que eles tivessem entre 10 e 20 anos porque é uma faixa etária em que muita coisa de ruim pode acontecer. Se a pessoa não estiver ocupada, fazendo algo importante, que possa lhe dar um futuro melhor, pode desviar seu caminho”, diz a professora. 

As turmas atuais já estão tendo lições práticas e teóricas há cerca de um mês, às terças e quintas. “Abri 20 vagas, mas já estamos com 26. A sede, por enquanto, está sendo aqui em casa, e alguns deles já têm até aulas paralelas, tudo gratuito”, enfatiza Wânya.

A estudante Fausta Veruska, de 14 anos, diz que conheceu o projeto num domingo, na igreja. “A professora Wânya foi até lá e falou que ia dar aula de violino, me interessei. Eu gosto de participar de atividades assim. Já fiz caratê, participei da banda na escola onde tocava percussão. Violino é preciso ter mais atenção, mas com o tempo vou aprender”, observa a garota. 

 

 

O mais jovem da turma é o garoto Melquisedeque Amorim Sousa, de 11 anos. Ele foi levado ao projeto pela prima Ana Carolina Lima Moreira, que também participa das aulas. “Acho que a escola é muito importante porque tira as crianças das ruas. Se não tivesse aqui, poderia estar na rua, correndo risco de acontecer alguma coisa ruim”, afirma. Ele diz que ainda não tem certeza se quer ser músico, mas tem certeza de que a arte irá lhe deixar no caminho do bem. 

Dona Gal
A escola de Wânya leva o nome de Dona Gal, em homenagem à sua mãe, Maria da Graça. “Minha mãe é de Alto Longá e, como era costume para jovens do interior, foi chamada para trabalhar na cidade. Conheceu a dona Yara Cunha, tia de Torquato, e foi morar na casa dele, no Rio de Janeiro. O apelido, dona Gal, foi dado pela Gal Costa, que também é Maria das Graças. Elas tiveram intimidade porque a Gal viva na casa de Torquato. Minha mãe acabou conhecendo muita gente que andava por lá”, explica Wânya. “Depois que o Torquato morreu, ela voltou para Teresina, teve os filhos – eu e o meu irmão – mas sempre gostou de música e passou esse gosto para gente. Foi ela que nos colocou na música”, finaliza. Dona Gal faleceu no ano 2000, aos 46 anos. 

 

Carlos Lustosa Filho
[email protected]

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