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Leila Diniz, Janis, Elis, Rita Lee... as musas de 68;As mulheres que marcaram época

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1. JANIS JOPLIN por Sergei 
Era primavera de 1968 quando nos conhecemos, em um festival de rock nos Estados Unidos. Voltamos a nos encontrar em fevereiro de 1970, dessa vez no Rio de Janeiro. Eu cantava em um inferninho e a levei comigo. Janis foi barrada na porta. O Silva, dono do lugar, disse que aquela mulher suja, bêbada e descalça não entraria. Fiquei louco. 'Essa é a Janis Joplin, bicho.' Acabamos conseguindo. Ela pediu uma vodca. Trouxeram um copo. 'Eu quero a garrafa', disse. A Janis era assim, afeita a exageros. Sempre. Tinha um sotaque caipira e uma beleza longe do convencional. Uma branquela com voz de negra poderosa. Elétrica, inconseqüente, maravilhosa. Ela viveu muito pouco, apenas 27 anos. Mas mudou para sempre a história do rock. Janis era tudo o que eu queria ser.

 
2. JACQUELINE KENNEDY por Cynthia de Almeida 
'Finalmente bom gosto se tornou bom gosto', pontificou a editora da Vogue, Diana Vreeland, quando ela se tornou a primeira-dama (termo que, diga-se, Jackie odiava e dizia que lembrava uma 'égua de corrida'). Ao assumir a Casa Branca, a primeira providência da Sra. Kennedy foi se livrar da mobília deplorável das famílias dos presidentes anteriores. Tratou de redecorá-la com senso estético e critério histórico e de registrar a residência presidencial como museu. Amava roupas francesas, mas acatou sem frescuras a recomendação do sogro, Joseph, de adotar em sua 'moda de estado' o designer hollywoodiano Oleg Cassini. Jackie foi fiel a Cassini e Cassini foi fiel à inspiração francesa da alta-costura (o que ele negou até a morte, claro). Gostava de amarelos vibrantes e turquesa fortes em tailleurs e mantôs secos, mas odiava estampas e acessórios. Os poucos que adotou tornaram-se clássicos: os óculos ovais gigantes, o lenço amarrado no queixo, o colar de pérolas de três voltas. Jacqueline Kennedy nunca mudou a cor e o corte de cabelos e elevou a dupla calça capri e sapatos rasos à categoria de símbolo de despojamento-chique. Fluente em quatro idiomas, expressou-se melhor em atitude que em declarações públicas. Casada com o milionário grego Aristóteles Onassis, virou Jackie O. e alvo de paparazzi que a flagraram nua em sua praia particular, na ilha de Skorpios, aos 46 anos. Foi a imagem mais elegante (se não a única) que a revista masculina Hustler publicou em toda a sua história.

 
3. LEILA DINIZ por Marieta Severo 

Nos conhecemos em 1966. Ela tinha 20 anos, e eu, 19. Leila era especial até na hora de transgredir. Ela deu passos importantes para a conquista da liberdade feminina. Mas fez tudo de um jeito bem feminino, amoroso, delicado e cheio de sensibilidade. Suas atitudes não eram impostas, faziam parte de sua personalidade forte. Leila não levantava bandeiras, agia livremente, de acordo com suas vontades numa época tão conservadora. Sua maior qualidade era a generosidade. E se eu soubesse seu pior defeito, não contaria. Fico arrepiada ao lembrar de sua morte, aos 27 anos, em 1972, em um acidente aéreo. Era absurdo assimilar aquilo. Ela era a pessoa mais imortal que existia. Leila tinha mania de diários. E a pedido de sua filha, Janaína, tenho eles guardados. Mas nunca os li. Provavelmente, o que está escrito ali eu já saiba. E as coisas que ela me contou são nossas. Só nossas. Com a Leila aprendi até a falar alguns palavrões.

 
4. ELIS REGINA por Rita Lee 
Sempre que me pedem para falar de Elis me lembro dela como a única pessoa que apareceu na cadeia para me visitar. Eu estava com dois meses de gravidez e justamente naquele dia aconteceu um princípio de aborto. Quando ela soube, armou um barraco em frente ao presídio. Ameaçou chamar a imprensa se não mandassem um médico na cela. Incrível, em plena ditadura e Elis não tinha medo de se expor, e por uma pessoa que ela mal conhecia. Saí da cadeia devendo a alma para os advogados. Elis então me convidou para participar de um especial e me pagou um cachê. Passei a chamá-la de Maria Elis, e ela me chamava de Maria Rita. Ficamos grandes amigas, e toda aquela implicância com guitarras que ela demonstrava no tropicalismo foi por água abaixo. Saudade da Pimentinha.

5. SIMONE DE BEAUVOIR por Paulo Moreira Leite 
Entre a fumaça de gás lacrimogêneo e rebeliões que pretendiam chegar aos céus, Simone de Beauvoir foi a mente que arquitetou a emancipação feminina, a idéia que deu certo nos anos 60 - mesmo. A garotada que iria tentar mudar o mundo em 1968 ainda chorava nos berçários de Paris quando ela empregou apenas cinco palavras para explicar às moças o que era preciso fazer, antes, para mudar a si próprias: 'A mulher não nasce. Torna-se'. Filha de aristocratas, Simone nasceu numa sociedade patriarcal e saiu de casa para ganhar o próprio dinheiro como professora. Primeira-dama do existencialismo de Jean-Paul Sartre, ensinou que era obrigação manter o brilho próprio e jamais renunciou à busca da felicidade. Sem tirar o coque nem o tailleur, raramente sorria. Apaixonou-se várias vezes, de modo derramado e irredutível, para fúria de discípulas incapazes de entender toda a mensagem da mestra. Graças às fotos de um amante indiscreto, a posteridade registra a imagem de um corpo à altura de suas idéias.

6. TWIGGY por Lilian Pacce 
A Twiggy foi nos anos 60 o que a Kate Moss foi na virada dos 90. Um superfenômeno. Ela ia contra qualquer padrão de beleza. E era, de fato, muito magrinha. Sem contar aqueles olhos de bambi, os cílios que realçavam qualquer foto... Seu nome de batismo é Lesley Hornby. O apelido Twiggy ela ganhou exatamente pela sua forma física. Twiggy, em inglês, significa graveto. Você pode ou não estar adequada ao padrão da época, mas para fazer sucesso precisa ter estilo. E estilo a Twiggy tinha de sobra.

7. GLORIA STEINEM por Kariny Grativol 
Americana filha de alemães, em 1963 a jornalista Gloria Steinem escreveu a reportagem que mudaria sua vida. Com uma identidade falsa, candidatou-se ao posto de garçonete de um dos clubes de Hugh Hefner, o dono da Playboy. A reportagem rendeu processos, um filme e uma nova carreira: ela tornou-se uma das líderes do movimento feminista nos Estados Unidos. A favor do aborto e contra a pornografia, a jornalista se auto-intitula uma feminista radical. E mesmo hoje, aos 74 anos, Gloria ainda é incapaz de abandonar suas bandeiras.

 
8. JANE FONDA
por Denerval Ferraro Jr. 
Hoje é difícil acreditar, mas Jane Fonda foi o típico exemplo da 'modelo que virou atriz': no fim dos anos 50, antes de ingressar no cinema, Jane fotografava editoriais de moda para a Vogue. Como atriz, levou o Globo de Ouro em Pelos Bairros do Vício, de 1962, em que interpretava uma prostituta. Aliás, foi com o papel de uma meretriz que ganhou seu primeiro Oscar, nove anos depois, com Klute. Durante os anos 60 e 70, aliou o sucesso nas telas com um forte ativismo político. Ficou conhecida pelo apoio ao grupo Panteras Negras e pelo envolvimento nos movimentos feministas e de luta por direitos civis. Gerou polêmica ao visitar as tropas norte-vietnamitas para protestar contra a guerra. Na década de 80, virou campeã de vendas com seus vídeos de malhação. Chegou a anunciar sua aposentadoria nos anos 90, mas atualmente, com 70 anos, ainda roda alguns filmes, como a comédia Ela É Poderosa, em que interpreta a avó de Lindsay Lohan.

9. JANE BIRKIN por Edgard Scandurra 
De seios pequenos e voz finíssima, quase infantil, ela foi responsável pelos sussurros e gemidos mais sensuais da música pop. Sua parceria com Serge Gainsbourg na canção 'Je t'Aime, Moi Non Plus', em 1969, foi uma revolucionária participação em uma das músicas mais polêmicas, censuradas (inclusive no Brasil) e provocativas - até hoje. Eles foram casados durante 12 anos, entre 1968 e 1980. Atriz e musa, Birkin também mostrou ao mundo a primeira cena de nu frontal em um filme não-erótico no clássico Blow-Up, de Michelangelo Antonioni. Tinha apenas 20 anos. E ainda hoje, aos 62, emociona com sua delicada leveza gravando discos tão modernos e inspirados que soam como trabalhos de uma jovem cantora revelação.

 
 10. RITA LEE por Leo Jaime 
Em 1968 eu tinha 8 anos e meus ídolos eram os Beatles, o Erasmo e os Mutantes. E na minha cabecinha eu achava que as músicas da Rita falavam diretamente para as crianças. Eu queria ser aquilo quando crescesse! Aos 18 tive meu primeiro parceiro musical: o Arnaldo Baptista, dos Mutantes. A essa altura, minha história começava a se confundir com a dos meus ídolos. Mas eu continuava com uma cautela enorme em conhecer a Rita. Achava que, se a conhecesse como colega de profissão, perderia um pedaço da minha infância. O fato é que quando eu já estava encaminhado musicalmente, conheci a Rita e continuei tendo-a como ídolo.
 

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