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'Último tango em Paris' segue provocando debate 44 anos depois

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Um dos mais controversos e aclamados filmes da história do cinema, Último tango em Paris (1972) voltou a ser assunto nos últimos dias em razão de declarações que seu diretor, Bernardo Bertolucci, deu em 2013 e que ressurgiram no YouTube em pelo menos dois vídeos – um deles, de maior repercussão, foi divulgado pela ONG espanhola El Mundo de Alycia, pouco antes do Dia Internacional Contra a Violência de Gênero (25 de novembro).

A razão da polêmica está no comentário do cineasta italiano sobre a famosa "cena da manteiga", na qual o personagem de Marlon Brando (1924 – 2004), então com 48 anos, sodomiza a jovem interpretada por Maria Schneider (1952 – 2011), com 19. Bertolucci afirma no depoimento não se arrepender da decisão no set: "Não disse a ela o que estava acontecendo porque queria sua reação como uma garota e não como uma atriz. Sinto-me culpado, mas não me arrependo. Não queria que Maria interpretasse a raiva e a humilhação; queria que sentisse a raiva e humilhação".

Bernardo Bertolucci reage à polêmica sobre cena de "Último tango em Paris"

Amplificada nas redes sociais, a fala de Bertolucci de três anos atrás fez eco em Hollywood. Atrizes como Jessica Chastain, Anna Kendrick e Evan Rachel Wood, entre outras, manifestaram indignação com a postura abusiva do cineasta e também de Brando — foi até iniciada uma campanha para que a Academia de Hollywood condene publicamente o diretor.

Diante da repercussão negativa, Bertolucci declarou na segunda-feira que foi mal interpretado e que Maria sabia, sim, da cena, mas não da manteiga como elemento surpresa. A emenda não surtiu muito efeito. Jogou gasolina na fogueira de um antigo debate, que remete aos primórdios do cinema: a relação de poder entre um diretor tirano e seu elenco, em especial as mulheres. Desde D.W. Griffith, no começo do século 20, muitos clássicos têm a assinatura de realizadores misóginos, racistas e sádicos crentes no vale-tudo em favor da arte.

O cinema também é um produto de seu tempo. Seu DNA traz costumes e convenções da sociedade que espelha. Se a atriz Tippi Hedren teve de suportar o assédio de Alfred Hitchcock porque o machismo e a objetificação da mulher faziam parte da engrenagem do star system de então, as intérpretes de Azul é a cor mais quente botaram a boca no trombone recentemente ao se sentirem violadas pelo diretor do filme, porque esse modelo de relação passou a ser inadmissível. A citação à manteiga de Último tango em Paris, vale lembrar, foi motivo de paródia em Os trapalhões, gracinha que hoje dificilmente iria ao ar em horário nobre na televisão.

Filme é cria do clima libertário da época

Maria Schneider já havia dito que a cena, que dura dois minutos e 30 segundos, não estava prevista no roteiro e que se sentiu coagida a fazê-la. Em entrevista ao jornal Daily Mail em 2007, por ocasião do relançamento de Último tango em Paris nos cinemas, a atriz reforçou que sentiu-se humilhada e estuprada por Brando e Bertolucci: "Marlon disse: 'Não se preocupe, é apenas um filme'. Mesmo que (o sexo) não fosse real, eu estava chorando lágrimas de verdade". A atriz deixou claro que não houve penetração, como versões sensacionalistas do episódio consagraram – o que não arrefece a brutalidade do ato. Ela morreu praguejando Bertolucci como gângster e cafetão.

Último tango em Paris é cria do clima libertário da época em que foi feito, sob as cinzas politizadas do Maio de 1968 e da revolução sexual. Em seu roteiro, Bertolucci contou com a colaboração de uma mulher, a cineasta Agnès Varda. É de outra mulher, a referencial crítica Pauline Kael uma das mais entusiasmadas avaliações do filme: "Bertolucci usou o sexo para manifestar os impulsos dos personagens (...) e a ameaça física de sexualidade emocionalmente carregada é um afastamento de tudo o que plateias passaram a esperar no cinema".

Pauline sintetiza o que é o cerne de Último tango em Paris, proibido pela censura no Brasil e liberado apenas em 1979. Esse denso drama erótico-psicológico enreda na capital francesa os personagens de Brando, viúvo americano deprimido pelo suicídio da mulher, e Maria, jovem que ele conhece procurando um apartamento para alugar. Estabelecem uma convivência sustentada em muito sexo sem compromisso e sem paixão, estimulado pelo impulso – e a cena famosa é uma entre várias. O que pulsa na tela é a catarse emocional dos personagens. Ele representa um americano decrépito. Ela é exemplo de vivacidade e livro-arbítrio, que encontra na figura patriarcal do estrangeiro um novo vértice para o namoro que parece morno com um cineasta.  

Brando também reclamou de Bertolucci

Marlon Brando, que recém havia estrelado o sucesso O poderoso chefão, estava praticamente falido em razão dos desajustes de sua vida pessoal. Aceitou fazer Último tango em Paris como acordo para evitar um processo milionário que lhe movia o produtor italiano do longa, Alberto Grimaldi. A temporada na Europa também dava ao ator a providencial distância dos problemas judiciais e policiais com suas ex-mulheres nos EUA. Adorava Paris, onde viviam muitos amigos, companheiros de memoráveis noitadas nos intervalos das filmagens.     

No set, Brando justificou sua fama de indomável. Sem dar pelota para o roteiro, lançou mão de muito improviso. É num deles que fala de episódios reais de sua juventude, como os traumas relacionados à mãe alcoólatra que um dia foi arrastada nua para a prisão e ao pai ausente que dedicava seu tempo às prostitutas e às brigas nos bares. Também Brando, posteriormente, reclamou que Bertolucci o expôs em demasia – talvez esquecendo a briga que teve com Truman Capote quando o escritor revelou isso em um perfil seu de 1956. Costuma desdenhar Último tango em Paris  dizendo não saber bem sobre o que era o filme: "É uma sessão de terapia do Bertolucci".

Cabe destacar ainda, sobretudo a quem, sem assistir ao filme, engrossa o coro dos indignados, que, na cena da manteiga, a brutalidade cênica do ato ilustra uma fala do ator sobre o que julga ser os valores da família, "instituição sagrada, mundo controlado pela repressão, no qual crianças são torturadas até dizerem a primeira mentira e a liberdade é assassinada pelo egoísmo". Violento e profano, mais do erótico.

Diretor de atrizes como Maitê Proença (em Tolerância) e Camila Pitanga (em Sal de prata) e professor de cinema, Carlos Gerbase destaca, em entrevista por e-mail, reforçando uma postagem em seu perfil no Facebook:

– Suprimir ensaios de cenas difíceis (do ponto de vista emocional) para obter maior "frescor" na atuação sempre me pareceu um indício de que: (1) a direção não confia no ator/atriz; (2) a direção está sendo desonesta sobre o que estará no filme. Considero o elenco parte importante do núcleo criativo do projeto. Atores e atrizes devem saber o que será feito e contribuir para isso. São marionetes, mas precisam ser conscientes do que fazem e devem confiar em quem comanda os fios. Devem sugerir melhores maneiras de atuar. E devem impor limites para o que aceitam ou não fazer. Se Maria Schneider não sabia a ação que a esperava, foi manipulada de forma antiética. Se Bertolucci e Brando usaram um truque baixo (não revelar o que fariam), estavam errados, mesmo que não tenha acontecido sexo "de verdade". Fazemos cinema para "enganar eles" (os espectadores), e não para enganar colegas de profissão. O bom resultado estético não justifica maltratar quem quer que seja.

Fonte: Zero Hora 

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