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Primeira mulher a chefiar a PGR, Raquel Dodge toma posse nesta segunda-feira

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Primeira mulher a ser escolhida para comandar a Procuradoria-Geral da República, Raquel Elias Ferreira Dodge assume hoje o mandato de dois anos cercada de muita expectativa. A posse, em um horário completamente incomum, às 8h, será cedo para garantir a presença do presidente Michel Temer na solenidade. O peemedebista descumpriu a tradição dos últimos 14 anos ao escolher Dodge, mesmo sem esta ser a primeira colocada na lista tríplice apresentada pela Associação Nacional dos Procuradores (ANPR). Procuradores e especialistas ouvidos pelo Correio asseguram, no entanto, que tudo que a nova chefe do Ministério Público Federal não fará é retribuir com fidelidade a preferência presidencial.
 
“Dodge é uma procuradora muito respeitada na Procuradoria e no meio acadêmico, com uma formação intelectual irrepreensível. E escolheu uma equipe experiente, com procuradores que atuaram em diversas operações de combate à corrupção, como a Satiagraha e o mensalão”, destacou o coordenador dos cursos de direito do Ibmec-DF, Washington Barbosa.

Por isso, ninguém acredita nos temores demonstrados em alguns setores da sociedade de que a substituição de Janot por Dodge possa representar um risco à continuidade das investigações da Lava-Jato. “O Rodrigo (Rodrigo Janot), inclusive, nunca foi um procurador criminal, essa não era a área de atuação dele. Como também não era a do antecessor, Roberto Gurgel”, lembrou o presidente da Associação Nacional dos Procuradores (ANPR), José Robalinho Cavalcanti.
 
“Raquel chamou a equipe para continuar as investigações em curso. Nós nunca tivemos dúvidas, ela tem uma experiência criminal e uma história belíssima na casa.  Mesmo que o procurador-geral, hipoteticamente, dissesse ‘vou acabar’, não iria conseguir”, assegurou Robalinho.
 
Dodge, no entanto, avisou também que o combate à corrupção não será o único alvo das atenções do MPF. Por conta do crescimento das investigações da Lava-Jato e do ritmo frenético desenvolvido em Curitiba pelo juiz Sérgio Moro e os procuradores federais que atuam no Paraná, como Deltan Dallagnol e Carlos Fernando, a sede do Ministério Público em Brasília acabou se vendo obrigada a também concentrar o foco no combate à corrupção em órgãos públicos e estatais.
 
Mas a nova comandante do MPF tem uma atuação destacada em outras áreas, como o meio ambiente e os direitos humanos. “O Ministério Público atua de maneira segmentada. O fato de as atenções estarem voltadas ao combate aos crimes de colarinho branco não quer dizer que outras investigações ficaram paralisadas. Mas acredito que, como uma especialista com visão mais ampla, Dodge sentia-se incomodada por essa visão reducionista”, disse Washington.
 
Nem todos, contudo, estão tão esperançosos diante dos tempos que virão. Um integrante do Ministério Público Federal que preferiu não se identificar afirmou que ela chegará com o signo da desconfiança. “A maioria que a apoiou espera que seja tão ou mais rigorosa que Janot. Quem a escolheu externamente o fez por ser anti-Janot e alimenta a expectativa que as ações atuais sejam desidratadas no devido ritmo. Terá o imenso desafio em ter uma atuação equilibrada para não perder apoio nas duas pontas. Um paradoxo quase insuperável”, afirmou o procurador.
 
Ela também enfrentará um período de austeridade muito mais acentuado. O processo de investigação requer, necessariamente, investimentos. A recessão que assola o país há três anos começa a dar sinais de reversão. Mas nada que garanta uma fluidez maior de recursos. Além disso, o governo Michel Temer aprovou, no fim do ano passado, uma emenda constitucional que limita o teto de gastos pelos próximos 20 anos. “Raquel terá o grande desafio de administrar em época de vacas magras. Teremos que fazer cortes como nunca, o que afetará a nossa eficiência. Porém, ela é muito preparada e montou uma equipe muito boa. Raquel surpreenderá”, apostou o procurador Hélio Telho Corrêa Filho, do Núcleo de Combate à Corrupção do MPF-GO.
 
Há também uma nítida diferença de estilos na transição que se completa na manhã de hoje. Apesar de não se ter pautado pela expansividade ao longo dos quatro anos, Janot, nessa reta final, desandou a falar. Tanto que foi em um encontro de jornalistas que ele cunhou a expressão “enquanto houver bambu, lá vai flecha”. Mas, inegavelmente, Dodge tem um estilo muito mais low profile. “O fato de ela não dar entrevistas até hoje mostra uma postura ética. O silêncio tem tudo a ver com isso. Ela fez questão absoluta de montar a equipe de maneira discreta e, até o momento, buscou não se envolver nos processos em andamento”, completou Robalinho.
 
Viagem

O presidente Michel Temer embarca às 9h para os EUA, onde participa da abertura da 72ª Assembleia Geral das Nações Unidas. O peemedebista retorna ao Brasil na quinta-feira. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, assumirá o Planalto interinamente. 
 
Mudança

Uma das primeiras medidas de Raquel Dodge à frente do Ministério Público Federal deverá ser a troca de comando na equipe à frente da Lava-Jato. Reportagem publicada pela revista Época informa que ela decidiu dar um prazo de 30 dias para saída dos atuais integrantes e vai estabelecer que os principais nomes formem um gabinete de transição, com duração de 30 dias, para passar as informações à nova equipe. Segundo a revista, a portaria causou desconforto no atual grupo de trabalho da Lava-Jato, porque alguns investigadores negociavam a permanência. 
 
Os desafios 

Confira quais são os primeiros assuntos que a nova procuradora-geral da República, Raquel Dodge, terá que se debruçar:

» Delação da JBS
A nova procuradora terá que se adaptar à decisão do STF, que será tomada na próxima quarta-feira, em torno da validade da delação e das provas derivadas dela.

» Denúncia contra Temer
A última flechada de Janot foi a denúncia por organização criminosa e obstrução de Justiça contra o presidente. Caberá a Dodge acompanhar os desdobramentos dela caso seja aprovada pela Câmara.

» Delação de executivos da OAS e da Andrade Gutierrez
Caso envolvam políticos com foro privilegiado e que tenham recebido doações irregulares para campanha ou negociado a aprovação de propostas legislativas em troca de propinas, as acusações dos empresários precisam passar pela PGR.

» Delações de Eduardo Cunha e de Geddel Vieira Lima
Caso elas se concretizem e envolvam pessoas com prerrogativa de foro — como o presidente Michel Temer e ministros do PMDB, além de deputados e senadores —, ficam sob os cuidados da nova chefe do Ministério Público Federal.

» Não são da alçada de Dodge
Delações que envolvam pessoas sem foro privilegiado, como as possíveis acusações feitas pelo ex-ministro Antonio Palocci e os réus presos no Rio de Janeiro, como o ex-governador Sérgio Cabral e Eike Batista. Nestes casos, as delações ficarão a cargo dos integrantes do Ministério Público nos respectivos estados. 


Fonte: Correio Braziliense

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