Cidadeverde.com
Geral

Homem com 286 quilos pede ajuda para emagrecer

Imprimir

Dores constantes pelo corpo, dificuldade para caminhar, sono interrompido vários momentos durante a noite. A obesidade mórbida de Antônio Carlos Oliveira da Silva causa sofrimentos físicos e uma reprovação nos olhares que agride a alma. "Sou discriminado desde que nasci. Por ser diferente, tratam a gente com um bicho", disse o ex-vendedor de Araraquara (SP) que aos 40 anos pesa 286 quilos.

Há 11 anos, Antônio divide o peso do preconceito e outros problemas com a mulher, Viviane Silva. Sem muitas condições financeiras, o casal sobrevive com cerca de R$ 1,2 mil do auxílio doença. Moram no Parque Cecap, em uma pequena casa deixada pela mãe dele, que morreu há um após sofrer dois AVCs [acidente vascular cerebral].

Antônio pede ajuda para emagrecer. Por duas vezes, ele utilizou alguns serviços públicos oferecidos em Araraquara e Ribeirão Preto, mas a falta de recursos financeiros limitou o tratamento. A situação piorou e o ex-vendedor ficou cada vez mais preso a uma rotina diária de dar alguns passos entre o quarto, sala, banheiro e cozinha. Segundo ela, já são sete meses sem pisar na rua. A última vez que foi ao cinema assistiu 'Soldado Universal (1992), com Jean-Claude Van Damme, 25 anos atrás.

"Meu sonho é passear com a minha esposa na praça, ir ao mercado, coisas básicas que muitos homens nem gostam de fazer, para mim sempre foi prazeroso. Acompanhar o crescimento do meu filho de 12 anos, poder brincar come ele, gostaria muito disso, coisas simples", contou ele.

Antônio durante momentos em que ainda saía de casa

Acompanhamento
O caso de Antônio é acompanhado pela Prefeitura de Araraquara. A Secretária Municipal de Saúde, Eliana Mori Honain, disse que uma nutricionista e um fisioterapeuta irão à casa do ex-vendedor nos próximos dias fazer uma avaliação.

"A ideia é propor uma dieta e algumas atividades. Vamos acertar uma pareceria com a Uniara [Centro Universitário de Araraquara], que se interessou pelo caso, para ele poder perder peso e ser encaminhamento para a cirurgia bariátrica (diminuição do estômago)", disse a secretária. Para isso, ressaltou, é necessário eliminar ao menos 100 quilos.

Obesidade e depressão
Antônio contou que nasceu com quase 6 quilos e com 15 anos já estava com 150. Ele manteve o peso até os 29 anos, mas um problema financeiro o fez perder o emprego e muito do que conquistou com o trabalho. Com isso veio a depressão, que o fez engordar 100 quilos em apenas três meses.

O ex-vendedor buscou ajuda do município. Conseguiu perder 10% do peso, mas com a troca de gestão o serviço oferecido na rede foi encerrado. A mulher dele começou a trabalhar e durante um ano Antônio se beneficiou do plano de saúde particular. Durante esse tempo, houve um pequeno avanço no tratamento, que também não vingou.

De volta à rede pública em 2014, o ex-vendedor foi se tratar no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto durante um ano e meio. Como não tinha um transporte adaptado ao seu tamanho, passou a viajar no carro deixado pela mãe, um Fiat Uno ano 96. A esposa aprendeu a dirigir para levá-lo, mas os custos das viagens feitas até três vezes por mês inviabilizaram outros retornos.

Rotina e alimentação
Antônio contou que nunca foi de comer muito, porém se alimentava de forma errada. "Eu era vendedor de colchões e vivia na rua. Comia lanches, salgados de forma desordenada. Nunca fui de tomar refrigerante, bebia muita cerveja, mas faz dez anos que não tomo mais", disse

Após uma reeducação alimentar, passou a controlar mais o que come. Durante a manhã, toma um café com um pão com manteiga. Quando tem fome, uma fruta satisfaz. Geralmente no almoço come salada, arroz, feijão e uma carne, mas uma pequena porção. À tarde tem o hábito de comer um lanche e no jantar repete a quantidade do almoço.

O ex-vendedor costuma acordar entre 5h e 6h e passa a maior parte do dia no computador, já que raramente recebe visitas. Ele depende da mulher para tudo, higiene, alimentação, levantar da cama. Como não pode mais trabalhar fora, Viviane faz doces e salgados para vender. Antônio ajuda a fazer as massas. "Temos uma relação de total amizade e companheirismo", disse o marido.

Preconceito
Antônio disse que o preconceito dói. "Tem comentários que são ofensivos demais do tipo 'o que ela está fazendo com ele? Será que é por ganância ou dó?' As pessoas apontam e falam", relatou. "Já cheguei a discutir uma vez em um estabelecimento por conta disso", relembrou Viviane.

"Existe uma grande falta de educação do ser humano. A mãe e o pai que não seguram seu filho. Eu ensino o meu a respeitar as pessoas. As crianças vêm na inocência, mas ficam pegando na minha barriga. A criança é curiosa, só que se a mãe não ensinar ela nunca ela vai ter educação", disse Antônio.

Segundo ele, a discriminação avança em outros setores, como no mercado de trabalho. Por conta da situação dele, disse que nunca foi registrado porque não lhe davam oportunidade. "Outra questão importante são os espaços públicos, nenhum tem assento adequado para obeso. Qualquer lugar que você for, as cadeiras têm o braço e, geralmente, são cadeiras de plástico", ressaltou.

Pensando em todas as situações pelas quais já passou, Antônio sonho em montar uma ONG para ajudar os obesos. O projeto já está pronto. "Minhas idas ao HC fizeram com que eu olhasse para os problemas das pessoas, que muitas vezes são mais graves, e quisesse ajudar".

O ex-vendedor disse ter fé e que vai superar essa fase. "Tem horas que você precisa desabafar, entra em prantos. Você tenta ser forte para você mesmo, é difícil. Mas eu não questiono Deus por isso", concluiu.

Fonte: G1

Imprimir